Dois dias após o anúncio da “Tarifação de Trump” os
“mercados” ainda andam nervosos, a ponto de algumas bolsas
acionarem a parada do pregão. Mas, a nosso juízo, a tarifação não
somente terá um efeito pífio na política americana, do ponto de vista econômico, como também não provocará o “déclenchement”
de uma crise aos moldes de 2008. Não tenho conhecimento de economia a
ponto “deitar falação técnica” sobre o tema, mas percebo
claramente a diferença de cenário e da constatação que a economia
tão discutida pelos teóricos está longe de se tratar de um
processo ergódico, e até
por
ser influenciada
por componentes sócio-ambientais e socio-culturais e
muito distante de características holomórficas que nos permita
previsões precisas.
Só
mesmo quem está no ramo de venda e compra de ações, ou seja, um
“esperto” do tão badalado “mercado” é que arrisca palpites
precisos. “Mercado” este que não foi capaz de prever a crise de
2008 nem um mês antes desta eclodir. Nem tampouco posso assegurar
com precisão a estabilidade e o retorno a economia produtiva que
vigorou no nosso país nos tempos do JK.
O
que queremos dizer é que o sistema, não sendo ergódico, nos
permite afirmar que o atrator econômico centrado na China e nos seus
satélites asiáticos do
ASEAN, (sendo que Filipinas, Brunei e Singapura pouco contam por
estarem ainda no cabresto americano) têm um ballast que lhes
permite vencer as ondas criadas pelas economias ocidentais. Na
histeria de
2008 à
cada variação de um ponto percentual na bolsa de Ulan-Bator o mundo
vinha a baixo, era o caos. Barack Obama tomou posse e com uma penada
acabou com a histeria; mas custou quanto? A que preço?
Mesmo
superficialmente
podemos
mencionar
que
a intervenção de
Obama, que
custou US$ 1,5 trilhão ao Tesouro Americano,
na
verdade é insignificante perante
ao
total da dívida atual.
Os
atuais US$ 35 trilhões, estes
sim, foram
engordados
pela combinação de mecanismos de “mercado” e pela corrupção
desenfreada nas encomendas ao complexo industrial militar, um foco de
desperdício de riqueza. Para
ilustrar: - na
encomenda do último
navio
porta-aviões americano e
seus aviões gastaram
o
equivalente na construção dos três
equivalentes chineses.
Agora
com Trump a
motivação
do
“tarifaço”, o verdadeiro atrator da crise, reside dentro da
economia que se “financeirisou”, baseada nos “mercados”
relegando a produção da verdadeira riqueza a terceiros que, para
engabelar os simplórios e ingênuos, e mesmo os “espertos”,
dizia ser feita por trabalho escravo. Referiam-se a China
evidentemente, e nem diziam que parte daquele trabalho era divido com
o Vietnam, com o Laos, com o Camboja, com a Indonésia, e quem mais
quisesse trabalhar, já que os “ocidentais” não se lembravam
mais do tempo em que seus pais construíam na
indústria a
riqueza que agora desperdiçam no “mercado”.
Só para refrescar a nossa memória colocamos como referência o que ocorreu no Brasil, e a sua produção industrial.
1.
Décadas de 1930–1950:
Industrialização Incipiente
Contexto: Substituição
de importações (Getúlio Vargas).
Crescimento
médio anual (1930–1940): ~4,5%
ao ano.
Marcos:
CSN (1941) – siderurgia. - Fábrica Nacional de Motores (1942).
Produção
industrial em 1950 (estimativa): ~US$
10 bilhões
(em
valores atuais, ajustados pela paridade de poder de compra – PPC).
Fonte: IPEA
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
2. Décadas
de 1960–1980:
"Milagre Econômico" e Crise
1968–1973
(Milagre): Crescimento
industrial de +11%
ao ano.
Expansão da indústria
automotiva (Volkswagen, Ford).
Década
de 1980 (Crise da Dívida): Queda
acumulada de −7% (1981–1983).
Produção
industrial em 1980 (em valores atuais): ~US$
200 bilhões
(PPC).
Dados: IBGE
(Contas Nacionais).
3.
Décadas
de 1990–2010:
Abertura Econômica e Volatilidade
1994
(Plano Real): Estabilização,
mas desindustrialização relativa.
2004–2010
(Commodities): Recuperação
(média
de +3,5%
ao ano).
Pico
em 2011: Produção industrial valia ~US$
500 bilhões (em
PPC, preços atuais).
2014–2016
(Recessão): Queda
de −20% (pior
retração desde 1930).
Fonte: FGV
(Fundação Getúlio Vargas).
4.
2020–2023:
Pandemia e Recuperação Frágil
2020: Queda
de −4,5% (COVID-19).
2023: Produção
industrial em ~US$
450 bilhões (PPC),
ainda abaixo do pico de 2011.
Setores
em alta: Agroindústria,
mineração e energia.
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Dados
recentes: IBGE
(PIM-PF – Pesquisa Industrial Mensal).
Gráfico de Referência (Valores Ajustados)
Ano Produção Industrial (US$
bi, PPC)* Evento Histórico
1950 ~10 Base industrial
incipiente
1980 ~200 Crise da dívida
2011 ~500 Pico pré-recessão
2023 ~450 Recuperação
pós-pandemia
(Valores
aproximados, corrigidos por inflação e PPC).
Tendo vivido a experiência do meu país, o que posso
concluir é que o “tarifaço do Trumo” pretende trazer de volta a
produção industrial. Mas dificilmente conseguirá alcançar os níveis
de antes do “milagre japonês” dos anos 70. Em vez, naquela
época, de aprimorarem a qualidade dos produtos e da capacidade
gerencial, como já estavam mergulhados
na financeirização e
em outro patamar tecnológico, preferiram “punir”
os japoneses. Deu no que deu. Cabe agora correr atrás do prejuízo....Pesquisa, pesquisa, indústria....e menos jogatina.
Excelente texto.
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