quarta-feira, 9 de abril de 2025

Deu no que Deu

     Dois dias após o anúncio da “Tarifação de Trump” os “mercados” ainda andam nervosos, a ponto de algumas bolsas acionarem a parada do pregão. Mas, a nosso juízo, a tarifação não somente terá um efeito  pífio   na   política americana, do ponto  de  vista  econômico,  como  também  não  provocará o déclenchement” de  uma   crise aos moldes  de 2008.  Não tenho conhecimento de economia a ponto “deitar falação técnica” sobre o tema, mas percebo claramente a diferença de cenário e da constatação que a economia tão discutida pelos teóricos está longe de se tratar de um processo ergódico, e até por ser influenciada por componentes sócio-ambientais e socio-culturais e muito distante de características holomórficas que nos permita previsões precisas. Só mesmo quem está no ramo de venda e compra de ações, ou seja, um “esperto” do tão badalado “mercado” é que arrisca palpites precisos. “Mercado” este que não foi capaz de prever a crise de 2008 nem um mês antes desta eclodir. Nem tampouco posso assegurar com precisão a estabilidade e o retorno a economia produtiva que vigorou no nosso país nos tempos do JK.

    O que queremos dizer é que o sistema, não sendo ergódico, nos permite afirmar que o atrator econômico centrado na China e nos seus satélites asiáticos do ASEAN, (sendo que Filipinas, Brunei e Singapura pouco contam por estarem ainda no cabresto americano) têm um ballast que lhes permite vencer as ondas criadas pelas economias ocidentais. Na histeria de 2008 à cada variação de um ponto percentual na bolsa de Ulan-Bator o mundo vinha a baixo, era o caos. Barack Obama tomou posse e com uma penada acabou com a histeria; mas custou quanto? A que preço?

    Mesmo superficialmente podemos mencionar que a intervenção de Obama, que custou US$ 1,5 trilhão ao Tesouro Americano, na verdade é insignificante perante ao total da dívida atual. Os atuais US$ 35 trilhões, estes sim, foram engordados pela combinação de mecanismos de “mercado” e pela corrupção desenfreada nas encomendas ao complexo industrial militar, um foco de desperdício de riqueza. Para ilustrar: - na encomenda do último navio porta-aviões americano e seus aviões gastaram o equivalente na construção dos três equivalentes chineses.
    Agora com Trump a motivação do “tarifaço”, o verdadeiro atrator da crise, reside dentro da economia que se “financeirisou”, baseada nos “mercados” relegando a produção da verdadeira riqueza a terceiros que, para engabelar os simplórios e ingênuos, e mesmo os “espertos”, dizia ser feita por trabalho escravo. Referiam-se a China evidentemente, e nem diziam que parte daquele trabalho era divido com o Vietnam, com o Laos, com o Camboja, com a Indonésia, e quem mais quisesse trabalhar, já que os “ocidentais” não se lembravam mais do tempo em que seus pais construíam na indústria a riqueza que agora desperdiçam no “mercado”.

    Só para refrescar a nossa memória colocamos como referência o que ocorreu no Brasil, e a sua produção industrial.

   1. Décadas de 1930–1950: Industrialização Incipiente
        Contexto: Substituição de importações (Getúlio Vargas).
        Crescimento médio anual (1930–1940): ~4,5% ao ano.
        Marcos: CSN (1941) – siderurgia. - Fábrica Nacional de Motores (1942).
        Produção industrial em 1950 (estimativa): ~US$ 10 bilhões (em valores atuais, ajustados pela paridade de             poder de compra – PPC).
                Fonte: IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

2. Décadas de 1960–1980: "Milagre Econômico" e Crise
        1968–1973 (Milagre): Crescimento industrial de +11% ao ano.
    Expansão da indústria automotiva (Volkswagen, Ford).
        Década de 1980 (Crise da Dívida): Queda acumulada de −7% (1981–1983).
        Produção industrial em 1980 (em valores atuais): ~US$ 200 bilhões (PPC).
                Dados: IBGE (Contas Nacionais).

3. Décadas de 1990–2010: Abertura Econômica e Volatilidade
        1994 (Plano Real): Estabilização, mas desindustrialização relativa.
        2004–2010 (Commodities): Recuperação (média de +3,5% ao ano).
    Pico em 2011: Produção industrial valia ~US$ 500 bilhões (em PPC, preços atuais).
        2014–2016 (Recessão): Queda de −20% (pior retração desde 1930).
                Fonte: FGV (Fundação Getúlio Vargas).

4. 2020–2023: Pandemia e Recuperação Frágil
        2020: Queda de −4,5% (COVID-19).
        2023: Produção industrial em ~US$ 450 bilhões (PPC), ainda abaixo do pico de 2011.
        Setores em alta: Agroindústria, mineração e energia.
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Dados recentes: IBGE (PIM-PF – Pesquisa Industrial Mensal).

Gráfico de Referência (Valores Ajustados)

Ano Produção Industrial (US$ bi, PPC)* Evento Histórico
1950     ~10           Base industrial incipiente
1980     ~200         Crise da dívida
2011     ~500         Pico pré-recessão
2023     ~450         Recuperação pós-pandemia
(Valores aproximados, corrigidos por inflação e PPC).


Tendo vivido a experiência do meu país, o que posso concluir é que o “tarifaço do Trumo” pretende trazer de volta a produção industrial. Mas dificilmente conseguirá alcançar os níveis de antes do “milagre japonês” dos anos 70. Em vez, naquela época, de aprimorarem a qualidade dos produtos e da capacidade gerencial, como já estavam mergulhados na financeirização e em outro patamar tecnológico, preferiram “punir” os japoneses. Deu no que deu. Cabe agora correr atrás do prejuízo....Pesquisa, pesquisa, indústria....e menos jogatina.

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