sábado, 5 de julho de 2025

Nacionalismo e Estado

 Assisti, no evento comemorativo dos dez anos da Sputnik, paralelo ao encontro dos BRICS+ no Rio de Janeiro, ao encontro de quatro figuras expoentes na geopolítica, com diferentes gradações em diferentes formas de relacionamento com esta matéria: Pepe Escobar, Paulo Nogueira Batista Jr., Glenn Greenwald e o Professor Elias Jabbour. Todos dividindo opiniões mas colimados no foco BRICS, suas implicações geopolíticas, suas contradições, fraquezas e potencialidades. Antes das falas destes houve a fala, desde Moscou, do Professor Alexander Dugin que pontuou a questão dos BRICS+ como um contraponto a unipolaridade, que hoje se apoia no poder hegemônico, mas...decadente, dos EUA.

O que se depreendeu das diversas falas foi a constatação que a recente ação de bombardeio do Irã, membro dos BRICS foi expor a sua fraqueza militar, dado a incapacidade de seus membros mais poderosos, China e Rússia, juntamente com os demais, poder acudi-lo senão diplomaticamente. Por parte dos EUA foi uma demonstração de força orientada aos BRICS considerados “inimigos mais fortes”, ou seja, realmente a China e a Rússia.

O que posso sintetizar é que foi consenso os BRICS+, que somam a maior parte da população mundial juntamente ao maior PIB -PPC, serem percebidos por todos como a saída visível, e única no momento, para o problema mundial criado pela decadência econômica, social, moral do mundo dito “ocidental”, que vê nas guerras a única forma de se relacionar com os demais países. Herança direta do poder colonial.

O que chamou minha atenção foi a posição do Professor Elias Jabbour que, sendo um ativista e profundo intelectual de esquerda que afirma que a resultante possível do socialismo se dá a partir do nacionalismo. Por que esta postulação chamou a minha atenção? Foi poder compará-la a do outro importante pensador da esquerda e experiente economista com experiência de diretor do FMI e vivência em Shangay como vice-presidente do NDB, Paulo Nogueira Batista Jr. Seu livro, o best-seller “O Brasil não cabe no quintal de ninguém” – LeYa -Brasil 2021, expressa deias sobre nacionalismo. Quanto a ideia de “nacionalismo” preciso cotejá-la comparando-a com a ideia expressa pelo Professor Jabbour. Este é categórico na relação causal e de dependência e a expressa didaticamente na sua obra premiada “China-O socialismo do século XXI”.

Ocorre que as comparando acabo por ver os dois olhando para direções opostas e vendo a mesma coisa. Como decifrar este enigma então?

Na sua obra o Professor Paulo Nogueira Batista Jr. na página 368, no capítulo “NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTO”, cita: “Fica evidente portanto, que nacionalismo é um fenômeno histórico e não um valor universal e atemporal. Não faz sentido inventar uma axiologia em que a Nação, com “n” maiúsculo, seja considerada o valor supremo. Exageros desse tipo podem ser o primeiro passo para a perversão do nacionalismo e sua transformação em xenofobia e motivo para agressões e guerra externas.” Refere-se ao “nacionalismo” que observou no episódio concreto e que viceja no ideário americano. Refere-se mesmo ao “nacionalismo” americano. Daí a menção aos exageros. Seria este o “nacionalismo” que o Professor Elias Jabbour se refere? Quem sou eu para decifrar este enigma, pois não tenho suficiente leitura tampouco formação para esta tarefa, mas não posso deixar de refletir e buscar a gema preciosa escondida dentro desta aparente contradição.

O que construí como elemento de comparação lendo o texto, não este curto aqui mencionado mas todo o conteúdo do “Brasil não cabe no quintal de ninguém” e tampouco a fala isolada do Professor Jabbour, foi ter o “nacionalismo” como, além da sua conotação sim, de compromisso com a existência e a vida de seus próximos nacionais, valores, pessoas e tudo que constitua “a nação”, como entidade, como Estado, também se opor a ideia pueril de “estado mínimo”; ideia estapafúrdia que inculcaram na cabeça frouxa de muitos, independentemente de sua tendência ideológica. A ideia de “estado mínimo” não vinga na cabeça daqueles que, independentemente de nacionalidade, se comprometem existencialmente com os seus próximos, sejam pessoas, sejam valores humanos;  seja os apoiadores de direita da Hungria, ou os defensores da esquerda da China ou do Vietnã. O socialismo não vicejará em um “estado mínimo”, ou seja, não conseguirá ou buscará justiça social e tampouco a própria direita que estiver comprometida com este mesmo propósito.

Estejam partindo da esquerda, ou da direita, ideias pueris sobre “estado mínimo” e “livre concorrência”, descompromissadas com a nacionalidade, estas serão, em curto espaço de tempo, destruídas juntamente com as nações que as defenderem e praticarem.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Insiro aqui, retirado do “histagram” do Professor Elias Jabbour uma mensagem sua que ilustra melhor este pensamento:

bugando a cabeça da turma do “Estado mínimo” e da “livre-concorrência””
A questão nacional é tão complexa quanto contraditória. Ainda mais em um mundo onde as coisas se decidem, também, no âmbito da formação e fortalecimento do capital nacional.
Enfim, hoje a JBS - empresa com muito investimento público do BNDES - acaba de lançar ações na bolsa de valores de Nova Iorque, está disputando o mercado de proteínas no mundo
Os países fazem suas escolhas. Discursos morais sobre o papel do Estado na economia e ter o fornecimento de proteínas nas mãos de empresas estrangeiras ou simplesmente constroi suas próprias empresas.
Pensem antes de julgar moralmente.
Alguém acha que o vale do Silicio caiu do ceu?

terça-feira, 1 de julho de 2025

Meu tio sabia das coisas

 Pensei muito nesta semana sobre este sofrimento do povo palestino. Pensei em relatar então uma experiência pessoal:-

Tinha em torno dos meus vinte anos e ouvia de meu tio Mello, irmão de minha mãe, nas noites ao som do mar batendo na Praia Grande em Santos, então ainda deserta, as suas aventuras quando ele aos dezoito anos serviu como soldado (apanhado à força no Líbano, já que era apátrida) no exército inglês na Palestina, sob as ordens do Coronel Thomas Lawrence (depois imortalizado em filme pelo ator Peter O`Toole). Contava as peripécias e os sofrimentos, mas não deixava de mencionar contradições dentro das fileiras britânicas, já que estes apesar da guerra, era 1917, nutriam uma amizade pelos habitantes daquela região, a Palestina. Eu mesmo não tinha idade para perceber as contradições e seu profundo significado e ele mesmo talvez não tivesse o preparo naquela época, com dezoito anos, para entender a complexidade do drama humano que transcorria a sua volta.

Hoje ainda me recordo daquelas charlas mas, já amadurecido, vejo nos episódios por ele relatados, não contradições, mas a raiz do sofrimento daquele povo que convivia pacificamente apesar das profundas diferenças de suas proporções: 568.000 muçulmanos, 74.000 cristão e 58 mil judeus.

Lembremo-nos que o Coronel Lawrence já havia lutado, ao lado dos árabes palestinos, na insurgência destes arábes contra o Império Otomano. Alí se formara uma aliança tácita entre Lawrence e seus comandados britânicos com os árabes; aliança esta que fui perceber quando trabalhei na britânica Cable & Wireless, herança da centenária The Western Telegraph Company.

Está registrado: o Coronel Lawrence havia avisado ao chefe do MI6, Sir Gilbert Clayton: - “the jewish influence in european finance might not be sufficient to deter the arabs from refusing to quit – or worse!”1. Ora, quando Lawrence se referia a “jewish influence” estava se referindo ao banqueiro Lord Lionel Rothschild que “convenceu” o chefe do Foreign Office, o Ministério das Relações Exteriores da época, Lord Balfour a declarar em 2 de novembro de 1917 que a Grã-Bretanha iria favorecer “the establihment in Palestine of a national home for the jewish people (Eretz Yisrael)”. Isso tudo custou o êxodo de 700.000 árabes de Haifa, Jaffa, Acre, Nazareth, Safad e tantos outros povoados. Meu tio ainda me disse: - “Isso não vai acabar tão cedo, nem seis dias , nem seis anos, nem sessenta”. Era 1965, começava a se preparar a “Guerra dos Seis Dias”.

Nem meu tio, nem Thomas Lawrence, partícipes que foram da causa primeira do sofrimento do povo palestino, faziam ideia do quão aviltante fora ao Império Britânico o comportamento do banqueiro Rothschid, do Lord Balfour e de tutti quanti, dos que apoiaram, e ainda apoiam, este vil sofrimento.

Ocorre agora uma causa que ainda “justifica” este comportamento aviltante: a existência de reservas de gás, em frente a Faixa de Gaza, na quantidade de 1,4 trilhão de metros cúbicos com valor aproximado de US$ 4 bilhões, segundo a BG (British Gas); empresa contratada pela autoridade palestina para a prospecção e futura exploração. Agora é só refletir...

Já em 2007 Israel havia atacado a Faixa de Gaza devastando e matando milhares e milhares de civis(2)...e até hoje continua o sofrimento...Aí estão as causas dessa mortandade, sintetizadas em uma só palavra que já existia nos tempos de Sir Lionel Rothschild et caterva: “kehsef”….Sim, meu tio sabia das coisas.



1Lawrence ''', 1995,pp275-391. Luiz Alberto Muniz Bandeira

2-https://www.jpost.com/middle-east/experts-clash-over-palestinian-demographic-statistics-386443: 

The report released this week by the Palestinian Central Bureau of Statistics summarized data from 2014, determining that the projected number of Palestinians in the world is approximately 12.1 million, of whom 4.62 million live in the West Bank and Gaza, 1.46 million live in Israel, 5.34 million are in Arab countries, and some 675,000 reside in foreign countries