sexta-feira, 11 de abril de 2025

Bateu na trave

     Como não podia deixar de ser, o assunto mais badalado na imprensa, tanto a nacional quanto a estrangeira, é a “Tarifação do Trump”. Mas, para um observador atento mas simplório como eu, vejo que o recuo de noventa dias, ou por “deixar respirar um pouco a economia europeia”, ou por perceber que as tarifas acabarão por provocar uma queda no PIB mundial de 2%, e aí todo mundo saindo perdendo, inclusive os EUA, dará tempo de se inflar os “salva-vidas” do “mercado mundial”, (afinal Trump nada mais é que o produto do “mercado” e da jogatina) incluindo os chineses, e também nós aqui no quintal da Casa Branca.

    Mas o “nosso quintal”, expressão utilizada pelo próprio Trump, nos inclui e todos os demais países da América Latina.

    É oportuno entretanto lembrar que a última reunião da CELAC1, da qual não se esperava consenso sobre o tema “tarifação” (pra não pronunciar “domínio”, afinal é uma reunião de diplomatas e presidentes), muitos países sequer compareceram e alguns já estão absolutamente integrados ao “quintal” de corpo e alma; a maioria do Caribe, mas também Argentina e Paraguay aqui na América do Sul.

    Sobre este tema, duas questões temos que ressaltar:

- A primeira se relaciona a dominação mesmo. Não apenas no plano político mas, principalmente, no plano econômico, onde se revelam “os mercados”, ou seja, grupos sociais que operam a economia da especulação e do jogo, da qual usufruem a riqueza financeira. (Infelizmente tenho que utilizar a palavra riqueza, embora só considero riqueza aquela produzida pelo trabalho; para os praticantes do “mercado” existe no vernáculo a expressão mais adequada correta, i.e. esbulho).

- A segunda, é a que afeta maior população e mais crítica na dominação, referem-se aos países que são alvo da cobiça, tanto pelas condições econômicas objetivas, ou seja, aquelas expressas nos seguintes itens: riqueza mineral, população, produção agrícola, produção industrial, tecnologia própria, saúde pública, nível educacional desde a alfabetização até ao nível universitário, estabilidade política; este último até escasso, devido aos efeitos das próprias intervenções, espionagem e golpes perpetrados pelo próprio Estados Unidos. Aqui no Brasil temos o caso típico da “Lava Jato” que mirou a destruição das grandes empresas empreiteiras de engenharia2 em conluio com elementos do “mercado”.

    Nem posso abordar o caso do Brasil, tanto por ser tão complexo como os demais na situação de interferência política e econômica, quanto por se distanciar do objetivo do presente texto, mas temos que diferenciar o caso brasileiro, pois mesmo estando sob ataque político e cibernético, ainda existe alguma resiliência. Quanto ao Paraguay e Argentina a situação está bem caracterizada como “quintal”.

    O primeiro caso, o Paraguay, que esteve quase instalando uma base militar americana, depende da sua produção agrícola quase exclusivamente de “brasilguaios” que, segundo últimos levantamentos, são responsáveis pela quase totalidade da produção de soja e arroz. Quanto a energia elétrica nem se fale, pois dependem integralmente da Itaipú Binacional. Entretanto o Paraguay ainda se recente no presente, não somente da interferência direta dos EUA, mas também dos efeitos do longo período de ditadura do pedófilo Stroessner.

    Quanto a Argentina de Milei, o que posso dizer é que o processo de “quintalização”, desculpe o neologismo, vem desde o golpe contra Ramón Castillo nos anos quarenta. Daí em diante, mesmo durante Perón, o nacionalismo argentino era um embuste que, piorando com os anos sujos da ditadura militar, acaba com Menen destruindo a economia argentina por completo. Milei então é o coroamento da dominação cultural, econômica, política e militar. Nada de melhor poder-se-ia esperar.

    Após então esta divagação sobre o “quintal” quero deixar claro que, muito antes de Trump mencioná-lo, Paulo Nogueira Batista Jr. já o fizera magistralmente no livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Nem vale a pena expandir o tema, seria contraproducente, tampouco deitar falação, já que o autor fala a partir sua experiência de dentro do FMI e da trajetória intelectual, a partir de uma formação acadêmica e histórica ímpar.

    O que pretendia humildemente expressar, nem sei se consegui, era mostrar que a tal crise da “tarifação” é endêmica, pelo menos na América Latina. Só não era percebida no pós-guerra no continente europeu, pois este, além do Plano Marshall, ainda recebeu por longos anos das colônias, e ainda recebe, juntamente com a participação econômica e militar dos EUA, o produto com a tarifação praticamente zero. Acho até mesmo que Fukuyama “bateu na trave”.

1 Países insulares do Caribe: Barbados, Belize, Dominica, Cuba, Granada, Haiti, Jamaica,  República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago

Países da América Central continentais: México, Honduras, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Nicarágua e Panamá,

Países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru,  Suriname, Uruguai e Venezuela

2Odebrecht, OAS, UTC, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia e Camargo Corrêa....   

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Deu no que Deu

     Dois dias após o anúncio da “Tarifação de Trump” os “mercados” ainda andam nervosos, a ponto de algumas bolsas acionarem a parada do pregão. Mas, a nosso juízo, a tarifação não somente terá um efeito  pífio   na   política americana, do ponto  de  vista  econômico,  como  também  não  provocará o déclenchement” de  uma   crise aos moldes  de 2008.  Não tenho conhecimento de economia a ponto “deitar falação técnica” sobre o tema, mas percebo claramente a diferença de cenário e da constatação que a economia tão discutida pelos teóricos está longe de se tratar de um processo ergódico, e até por ser influenciada por componentes sócio-ambientais e socio-culturais e muito distante de características holomórficas que nos permita previsões precisas. Só mesmo quem está no ramo de venda e compra de ações, ou seja, um “esperto” do tão badalado “mercado” é que arrisca palpites precisos. “Mercado” este que não foi capaz de prever a crise de 2008 nem um mês antes desta eclodir. Nem tampouco posso assegurar com precisão a estabilidade e o retorno a economia produtiva que vigorou no nosso país nos tempos do JK.

    O que queremos dizer é que o sistema, não sendo ergódico, nos permite afirmar que o atrator econômico centrado na China e nos seus satélites asiáticos do ASEAN, (sendo que Filipinas, Brunei e Singapura pouco contam por estarem ainda no cabresto americano) têm um ballast que lhes permite vencer as ondas criadas pelas economias ocidentais. Na histeria de 2008 à cada variação de um ponto percentual na bolsa de Ulan-Bator o mundo vinha a baixo, era o caos. Barack Obama tomou posse e com uma penada acabou com a histeria; mas custou quanto? A que preço?

    Mesmo superficialmente podemos mencionar que a intervenção de Obama, que custou US$ 1,5 trilhão ao Tesouro Americano, na verdade é insignificante perante ao total da dívida atual. Os atuais US$ 35 trilhões, estes sim, foram engordados pela combinação de mecanismos de “mercado” e pela corrupção desenfreada nas encomendas ao complexo industrial militar, um foco de desperdício de riqueza. Para ilustrar: - na encomenda do último navio porta-aviões americano e seus aviões gastaram o equivalente na construção dos três equivalentes chineses.
    Agora com Trump a motivação do “tarifaço”, o verdadeiro atrator da crise, reside dentro da economia que se “financeirisou”, baseada nos “mercados” relegando a produção da verdadeira riqueza a terceiros que, para engabelar os simplórios e ingênuos, e mesmo os “espertos”, dizia ser feita por trabalho escravo. Referiam-se a China evidentemente, e nem diziam que parte daquele trabalho era divido com o Vietnam, com o Laos, com o Camboja, com a Indonésia, e quem mais quisesse trabalhar, já que os “ocidentais” não se lembravam mais do tempo em que seus pais construíam na indústria a riqueza que agora desperdiçam no “mercado”.

    Só para refrescar a nossa memória colocamos como referência o que ocorreu no Brasil, e a sua produção industrial.

   1. Décadas de 1930–1950: Industrialização Incipiente
        Contexto: Substituição de importações (Getúlio Vargas).
        Crescimento médio anual (1930–1940): ~4,5% ao ano.
        Marcos: CSN (1941) – siderurgia. - Fábrica Nacional de Motores (1942).
        Produção industrial em 1950 (estimativa): ~US$ 10 bilhões (em valores atuais, ajustados pela paridade de             poder de compra – PPC).
                Fonte: IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

2. Décadas de 1960–1980: "Milagre Econômico" e Crise
        1968–1973 (Milagre): Crescimento industrial de +11% ao ano.
    Expansão da indústria automotiva (Volkswagen, Ford).
        Década de 1980 (Crise da Dívida): Queda acumulada de −7% (1981–1983).
        Produção industrial em 1980 (em valores atuais): ~US$ 200 bilhões (PPC).
                Dados: IBGE (Contas Nacionais).

3. Décadas de 1990–2010: Abertura Econômica e Volatilidade
        1994 (Plano Real): Estabilização, mas desindustrialização relativa.
        2004–2010 (Commodities): Recuperação (média de +3,5% ao ano).
    Pico em 2011: Produção industrial valia ~US$ 500 bilhões (em PPC, preços atuais).
        2014–2016 (Recessão): Queda de −20% (pior retração desde 1930).
                Fonte: FGV (Fundação Getúlio Vargas).

4. 2020–2023: Pandemia e Recuperação Frágil
        2020: Queda de −4,5% (COVID-19).
        2023: Produção industrial em ~US$ 450 bilhões (PPC), ainda abaixo do pico de 2011.
        Setores em alta: Agroindústria, mineração e energia.
‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑
Dados recentes: IBGE (PIM-PF – Pesquisa Industrial Mensal).

Gráfico de Referência (Valores Ajustados)

Ano Produção Industrial (US$ bi, PPC)* Evento Histórico
1950     ~10           Base industrial incipiente
1980     ~200         Crise da dívida
2011     ~500         Pico pré-recessão
2023     ~450         Recuperação pós-pandemia
(Valores aproximados, corrigidos por inflação e PPC).


Tendo vivido a experiência do meu país, o que posso concluir é que o “tarifaço do Trumo” pretende trazer de volta a produção industrial. Mas dificilmente conseguirá alcançar os níveis de antes do “milagre japonês” dos anos 70. Em vez, naquela época, de aprimorarem a qualidade dos produtos e da capacidade gerencial, como já estavam mergulhados na financeirização e em outro patamar tecnológico, preferiram “punir” os japoneses. Deu no que deu. Cabe agora correr atrás do prejuízo....Pesquisa, pesquisa, indústria....e menos jogatina.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Mercado?

 Há pouco comentava sobre a necessidade de Estados financiarem a pesquisa sobre a decomposição dos RSU´s, especialmente os plásticos, pois aí repousa o desafio tecnológico 1 que inevitavelmente terá de contar com a contribuição de micro-organismos; assim como nós 2 na nossa bio-constituição.

Daí tenho que migrar para outra esfera, onde o tema da necessidade de financiamento pelo Estado, se opõe a peroração neoliberal que desconhece os sucessos das economias capitalistas, onde casos de sucesso foram antecedidos por forte financiamento estatal; basta ver o Vale do Silício nos Estados Unidos e as encomendas governamentais na área militar e aeroespacial nos EUA e em toda Europa. China nem vale mencionar; essa nunca aceitou pisar na ratoeira do Consenso de Washington.

Mas já saltando para esfera da política econômica, hoje não poderia deixar de dizer o que me incomoda após o alarido na imprensa após a “tarifação do Trump” que diz que o “mercado vai despencar”. Vamos ao que me incomoda:

1. O “mercado” não é o mesmo que apoiou a eleição de Trump?

2. Trump não é senão uma criação do mercado e do jogo?

3. Por que ele iria “tocar fogo no barraco”?

4. Quando a imprensa fala em reeditar a crise de 2008, pergunto se a China naquela época já teria construído a estratosférica reserva “em dólares”.

5. Será essa a intenção de Trump? Queimar o superavit chinês?

6. Se o Estado Americano em 2008 salvou GM, Ford, Citi dentre vários, por que a China agora não faria o mesmo?

7. Por que eu iria agora esquecer a 500 crianças que foram ontem brutalmente assassinadas pelos donos do “mercado”? Ou o sionismo é o que?


Não sei mesmo responder nenhuma destas perguntas, mas não tenho a menor preocupação com o “mercado”, principalmente aqui no meu país, que pratica uma extorsão que resulta em milhares de crianças dependendo de favor na fila da matrícula da escola; escola sem acesso aos progressos das tecnologias, mas que cedem espaço para reuniões de pastores evangélicos politiqueiros que se esforçam para engrossar as fileiras dos que ainda acreditam “no mercado” e “na anistia para os injustiçados”.

E o “mercado” da Faria Lima? Ah…prefiro não responder, ou responder com o dito latino:

"Bonis nocet, qui malis parcit." (Ofende os bons, quem poupa os maus)

1https://www.xataka.com.br/diversos/ha-decadas-pensamos-que-reciclar-plasticos-valia-alguma-coisa-talvez-estivessemos-errados

2Ver “10% Humano” , de Alanna Collen, onde mostra a constituição biológica humana, que somente possui 10% das células, quando 90% são micro-organismos.