sábado, 1 de novembro de 2025

Assim sempre o fizeram

  “Onde o poder público descuidou da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue.”

Eugênio Bucci, O Estado de SP, 30/10/2025

Cito Eugênio Bucci , como vários já fizeram, para referenciar a matilha treinada pelo império que, sem o menor pudor, já que não o conhece, executa centenas de conterrâneos na ânsia de agradar o seu tutor. Orgulhosa de seu feito vai jogar as presas aos pés de quem lhe adestra e alimenta. É esta a justa metáfora e hipérbole que mal representa a triste realidade do segmento social acostumado à fartura e à cínica denominação de “elite”.

Embora a aludida “elite” exista desde antes da Lei Áurea, e mesmo depois dela sobrevivendo, ainda assim colaborava com a produção industrial e, juntamente as suas companheiras cartoriais e as financiais, aproveitava o resultado, ainda que pequeno em termos mundiais, do trabalho, este também ainda que pequeno em termos salariais.

Até os anos 80 do século passado tínhamos a produção industrial em torno de 40% do PIB, hoje mal chegamos a 13%. Isto indica que os empregos, ainda que mal remunerados, disputavam, mesmo com dificuldade, com a ocupação na rede do tráfico de drogas...em todas as capitais brasileiras.

O que a aludida “elite” fez ao final da década de 80 apoiando impudens o Consenso de Washington? Jogou a água do banho e a criança juntos fora. Absolutamente despreparada e sem referencial político, (patriotismo já seria um exagero) abraçou as medidas do FMI, que proclamava a salvação econômica dos povos da América Latina, promovendo a desindustrialização a toque de caixa. Elegeu um “Caçador de Marajás”, estimulado este por aquela anafórica elite.

Se as mais de cem vidas ora perdidas estivessem antes se dedicando ao emprego melhor remunerado, que ora lhes falta devido à incompetência herdada do insucesso escolar, ao despreparo, a ausência do mínimo capital social, diria Bourdeu 1, a brutal realidade seria diferente. Se…

Se esta anafórica elite não estivesse oferecendo tais vidas no altar dos sacrifícios do império, renomeando o tráfico de drogas de “narcoterrorismo” a fim de justificar a tentativa de assalto as riquezas latino-americanas, não haveria também a tentativa de interromper o processo de neo-reindustrialização e do pleno-emprego que, com todas as dificuldades criadas pelo sabujo Parlamento, agora se busca com o auxílio dos BRICS.

Este é o cenário onde as vidas de invisíveis pouco contam: a tentativa de interromper um processo de desenvolvimento social e manter a dependência aos tutores.

A matilha adestrada colocou as presas aos pés de seu tutor. Assim sempre o fizeram.

1“A distinção, crítica social do julgamento”, Pag. 112 – Pierre Bourdie – Editora Zouk, 2011   

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Parece que nada mudou

 O pouco que aprendi de Inteligência e Contrainteligência no convívio com a Segurança do Estado do Rio de Janeiro, francamente me autoriza dizer que este último episódio da invasão dos Complexos da Penha e do Alemão, podem se caracterizar de tudo, menos de Inteligência, no sentido pleno da palavra. No contexto de Inteligência policial pode-se dizer que deixando um dos chefes do tráfico escapar, o Doca, foi inócua a operação, serviu para produzir mais de uma centena de mortes e...manchetes contra. Tivesse sido efetuado um planejamento minucioso e profissional tal não ocorreria, já que no passado, com muito menos espalhafato, prendeu-se, em uma única operação, o Beira-Mar e outros de extrema periculosidade.

Custo a crer que o objetivo de tal operação não tenha sido meramente político; e do ponto de vista político também um espalhafatoso desastre.

Faltou inteligência em todos os sentidos.

Aliás é o que tem caracterizado ultimamente o comportamento dos assumidamente seguidores da extrema-direita. Aqui e no mundo.

No mundo, tem se observado as medidas tarifárias do presidente dos EUA, as medidas estapafúrdias da Comunidade Europeia, que mergulhou a economia europeia na crise atual. Também pudera, escolheram duas mulheres absolutamente desfuncionais e despreparadas para tocar a geopolítica europeia, as senhoras Van der Leyne e a desastrada estoniana Kaja Kallas. As duas, juntamente com o Chanceler Olaf Scholtz, conseguiram em pouco tempo desconstruir o que os europeus, principalmente os alemães desde Adenauer a Schröder, amealharam em economia, tecnologia e educação. Estes só não conseguiram mais por terem entregue a segurança na mão de terceiros. Logo de quem…

O sentimento hoje último dia outubro de 2025, da maior parte população do Rio de Janeiro (há ainda uma parte que continua babando qual doido raivoso), se assemelha aquele que choram as crianças palestinas assassinadas, embora pouco as vítimas tenham de semelhança. Mas morte é a morte, não deve agradar senão aos Himler, Goebels, Filintos Müller, Brilhante Ustras e toda sorte de sociopatas que alcançaram o poder recentemente, fardados ou não.

Há muito com que se preocupar; assuntos sérios e urgentes: desconcentração da renda, saúde e educação de qualidade para todos, reindustrialização (antes que todos tenham que aprender mandarim para ler manuais de instrução de eletrônicos), independência energética, tratamento de resíduos, eliminação de agrotóxicos… a lista é longa e urgente.

E nós ainda discutindo os mesmos problemas centenários...Pudera, trezentos e cinquenta anos de escravidão afetaram nossa alma e mesmo a massa cinzenta.  

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Ordem do dia

 Tenho buscado a atualização de conhecimento sobre a evolução dos “chips”, isto é, os circuitos integrados que no presente têm sua tecnologia de fabricação baseada em fotolitografia das camadas CMOS baseados em substratos de silício. Esta tecnologia teve nos últimos anos uma evolução que penso hoje esteja beirando os limites físicos (miniaturização e dissipação de calor) tanto quanto de complexidade. Trato aqui o limite de complexidade como inerente a própria lógica de funcionamento dos chips quanto a de produção. Tenho forte impressão que tal limite se relaciona mais ao custo que se impõe na utilização de água, tanto para resfriamento, quanto para purificação e limpeza. Em artigo recente no Brasil247, que aconselho a leitura, o pesquisador Reynaldo Aragon 1 aborda a questão da fabricação e dá ênfase aos aspectos geopolíticos da tecnologia dos chips.

O que posso agregar a este é a premência de se resolver o problema do consumo de água, tanto devido ao seu custo quanto ao limite de obtenção e da descontaminação do despejo industrial.

Evidentemente esta questão de natureza ecológica que afeta os processos de fabricação se avizinha as tecnologias urbanas de purificação da água e indiretamente ao tratamento dos efluentes, então contaminados por despejos industriais juntamente ao descarte dos RSU (Resíduos Sólidos Urbanos), já mencionados aqui em “Já é uma questão de sobrevivência mesmo” de 23 de abril último.2

Acredito que estas duas questões (independência tecnológica na fabricação de chips e a tentativa solução do problema do descarte do lixo urbano), deverão entrar na ordem do dia das políticas governamentais e terão que afluír aos debates parlamentares...no mundo todo. Já que a mais badalada questão financeira está sendo equacionada esperando que as nações do mundo inteiro deem partida urgente aos processos de distribuição de renda. Estes processos, mesmo sendo escamoteados pelo famigerado “mercado”, epíteto para a turma da agiotagem, desde quando, mais recentemente, Piketty3 dera o alarme.

O que se espera é que a temperatura do caldo geopolítico, que hora está em ebulição devido ao retorno de Trump com suas diatribes tarifárias, na desesperada tentativa de estancar o processo de esgotamento econômico, venha abaixar e viabilizar um novo tempo, seja de prosperidade com paz, seja de paz apenas, ainda que a prosperidade seja reservada, permitida apenas aos povos que lutam por ela. Sem luta, a prosperidade será sempre uma distante ilusão.

1https://www.brasil247.com/blog/a-geopolitica-dos-semicondutores-a-guerra-dos-chips

2 https://www.blogger.com/blog/post/edit/7714812914870144096/9171058728865880645

3“O Capital no século XXI” – Thomas Piketty -Editora Intrínseca – 2014;