quinta-feira, 27 de março de 2025

A denúncia , o composiror e o presidente

     Ontem consegui assistir pequenos trechos da denúncia da PGR apresentada contra Bolsonaro e outros. Nela constavam liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. Ainda há uma lista imensa de crimes que ainda virão a ser denunciados; e há de se considerar ainda aqueles que não o serão. Na lista dos que serão denunciados constam ainda: venda ilegal de presentes luxuosos recebidos pelo governo brasileiro: associação criminosa, lavagem de dinheiro e peculato.... Não há ainda nenhuma iniciativa de processá-lo pelos atos durante a pandemia de covid, onde influenciou milhares a não se vacinarem e ainda as falcatruas relacionadas ao recebimento de propina na compra das vacinas; se fosse processado haveria um agravante de centenas de milhares de mortes. Afinal quem é este personagem e, o que mais me intriga, quem são os seus seguidores? Nem estou falando de aproveitadores corruptos.

    Fora da resposta fácil e política deve haver uma explicação para a questão apresentada. Que existiram líderes, perdoem-me mas tenho que usar este nome, que levaram milhares até ao limite, a morte, já sabemos. Podemos citar Jim Jones que levou em 1978 uma centena de fiéis a se suicidarem coletivamente,  o Heaven's Gate um culto liderado por Marshall Applewhite e Bonnie Nettles, que também culminou em um suicídio em massa em 1997, onde 39 crentes pensavam que iam ascender a uma nova vida espacial, houve ainda o Cerco de Waco onde o FBI teve que enfrentar a seita de David Koresh, em um confronto que vitimou 76 mortos, há ainda o caso do pastor queniano Paul Mackenzie, líder de uma seita que levou mais de 90 pessoas à morte através de jejuns extremos "para ver Jesus"; dentre outros que a memória já se perdeu, mas todos os citados, evangelistas.

    Como notórios sociopatas levaram crentes até ao extremo sacrifício é uma incógnita. Nem quero falar de Adolf Hitler que arrastou uma nação inteira para o sacrifício com a promessa não muito diferente daqueles evangelistas citados; prometia um reinado (Reich) de mil anos. O que seria isso na mente de um seguidor alemão? Estas questões evidentemente exigem a resposta de um especialista, pois não seria possível fazê-lo a partir do senso comum. Mas arrisquei, não uma resposta, pois não creio em uma resposta única, mas uma aproximação a partir da leitura de Wilhelm Reich, “Escuta Zé ninguém”, onde a partir de longos anos de trabalho e experiência, ele forma a consciência de como o homem comum se submete ao poder dominador e as consequências trágicas da submissão, o que pode levar o indivíduo a um sofrimento profundo ou até a morte. Muitos dos seguidores de Bolsonaro se expuseram a situações inacreditáveis rezando para um pneu, tentando se comunicar por sinais luminosos com celulares na cabeça com civilizações extraterrestres; outros chegaram a tentar explodir um caminhão tanque de combustível ao lado de um aeroporto lotado em uma véspera de Natal. Como explicar esta dominação psicológica sem auxílio de um forte referencial é impossível, muito menos em uma única frase ou um único parágrafo.

O livro todo de Wilhelm Reich tenta ( é este o termo mesmo ) se aproximar de uma síntese. 1 Reich no livro nos ensinava o quanto o poder dominador ditava as normas de conduta, escravizando não ao ser. Cada vez mais queremos atingir objetivos onde a meta é ter (grifo meu), queremos ter a melhor roupa, o melhor carro, a melhor casa. O que tem acontecido é que somos prisioneiros dentro dos nossos próprios lares. Aprisionados por nós mesmos não reagimos diante destas mensagens, destes condicionamentos. Deixamos nossos filhos assistindo uma infinidade de baboseiras, porque assim eles não dão trabalho. Perdemos o contato com a boa leitura, com as artes, com a natureza.2

    A totalidade daqueles que ainda permanecem fiéis a esta figura inevitavelmente são prisioneiros da absoluta falta de cultura própria, apedeutas de leitura mínima, dominados pela mensagem fácil da mídia contratada. O domínio que os levou aos atos de oito de janeiro de 2023, pelos quais agora são julgados são da mesma natureza daqueles evangelistas já citados, o domínio da mente pobre e vazia de cultura no seu sentido pleno.

    Eis a síntese que me arrisco: a cultura popular, se manipulada, tem o poder destruidor; se aperfeiçoada tem o poder a construção e do progresso. A história mostra claramente, daí a valorização e proteção da cultura popular. Tom Jobim deu uma contribuição enorme com o “Piano da Mangueira”. Uma vez, ainda garoto, estava na plataforma do trem na estação de Mangueira, pois a estação de São Cristóvão, onde pegava o trem para voltar da escola estava inoperante, ouvi o povo reclamando, mas em vez de esbravejarem cantavam um samba que não lembro a letra. Corria o ano de 1957, Juscelino Kubitschek de Oliveira, exalava perdão, exalava progresso, não tinha seguidores fanáticos mas admiradores, e principalmente admiradoras. Tom Jobim, o músico, JK o presidente,  teriam que ser silenciados em 1964. A história provou que seria impossível.

1https://www.centroreichiano.com.br/artigos/Artigos/Escuta-Ze-ninguem-e-o-poder-do-amor-AFONSO-Rubens.pdf

2 Escuta, Zé ninguém!e o poder do amor. José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br/artigos

quarta-feira, 26 de março de 2025

Saigon

 Hoje nem tive coragem de buscar na internet a recepção de Lula no Vietnam, e nem sei se já chegou na hora que escrevo. Irá chegar na capital naturalmente em, Hanoi, mas estarei com o coração em “Ho-Chi-Mim”, antiga Saigon, na minha juventude palco de tanta tristeza e tanto sofrimento inútil. Nem vale a pena lembrar, mas só a menção do nome “Saigon” faz-me rememorar a canção que Emilio Santiago, dentre outros, interpretou magistralmente.

Esta música, criação de um músico que já não está mais entre nós, Claudio Cartier, Ele, juntamente com mais dois magos da música, PC Feital e Carlão me toca profundamente por razões próprias, mas também pela lembrança do sofrimento daqueles que lá travaram uma luta encarniçada, feroz, desumana e absolutamente sem sentido. De um lado, um povo que já fora invadido por franceses, quando ainda fazia parte da Indochina e ainda pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial, e por outro, rapazes que nem sabiam porque lá estavam, americanos imberbes defendendo o que nem faziam ideia. Na realidade, a derrota dos franceses em Dien Bien Phu em 1954 pelo General Giap, nunca fora tolerada pelos coloniais europeus. Mas não fora por falta de aviso; René Dumont, no seu livro “Agronome de la faim” de 1974 relata que à época de sua estada no Viet Nam, anos 40, como agrônomo, na missão de melhorar o plantio de arroz, avisava que a exploração a preço aviltante pelos franceses levaria inevitavelmente a uma rebelião. O que de fato ocorreu com a liderança de Ho Chi Mim e aí já vai uma longa história, que vale a pena conhecer:

- Como um povo resiste a séculos de invasões e domínios e ainda encontra força para ainda lutar pela sua independência contra a maior potência militar do planeta?

A entrevista que Sílvio Tendler1 fez com o General Giap vale a pena ser vista e aí talvez teremos a resposta.

Mas voltando a “Saigon”, e a interpretação magistral de Emílio Santiago; é uma letra triste, uma melodia linda, que fala à alma de qualquer um. Claudio Cartier de onde estiver receberá a minha gratidão...2

Para quem quiser então conhecer o “noir” que corria à época do domínio colonial francês sugiro o romance “A prostituta de Saigon” de Jean Hougron, lá pelos anos 70, que já doei ao sebo do meu amigo Jorginho. Ou ver o que o “Apocalipse now” de F.F. Copolla “queria” mostrar.

Na esperança que Lula traga bons negócios e bons fluidos, vou ficando com Emílio Santiago cantando Saigon, antes que a lágrima que se equilibra no canto do olho caia sobre o teclado; pior então seria no tempo que eu escrevia no papel, lá nos anos 60. Cho đến khi có thông báo mới


terça-feira, 25 de março de 2025

Aquarela do Brasil e minhas lembranças

    Hoje pela manhã qual não foi a minha surpresa de ver, e ouvir, no cerimonial do Imperador Japonês a banda militar tocando a “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. Como brasileiro nascido no final da segunda guerra em uma família que comemorava o seu final e a volta de um de seus filhos, são e salvo, um pracinha condecorado, não pude deixar de me alegrar, assim como fiz na visita de Lula a China quando a banda militar entoou com perfeição e afinação a canção de Ivan Lins “Um novo tempo” para enorme emoção do autor.

A execução da “Aquarela do Brasil” teve uma emoção diferente. Primeiro porque o autor, Ary Barroso, teve seus primeiros vagidos no interior de uma cultura que ainda marcava os compassos do século IX no interior de Minas Gerais, na pequenina Ubá. Era no século dezenove que se fundava uma cultura musical, e mesmo literária, que daria a liga a nossa, a minha, nacionalidade que se afirma após 1930, principalmente com o advento do rádio. As composições de Ary Barroso marcaram uma época de ouro do rádio, a minha época, todas com sucesso; o que o levou ter uma indicação ao Oscar pela música incidental do filme “Brasil”. Outras composições deste estilo para o cinema lhe renderam sucesso ( “Alô amigos” do Zé Carioca, “Você já foi a Bahia?” ). Todos financiados pelo Departamento de Estado americano para incentivar a entrada do Brasil ao lado dos aliados na Segunda Guerra Mundial e principalmente para ter um ponto de apoio no nordeste em Natal, o que encurtaria a distância até Dakar para atacar o Afrika Korps. Nasci nesta época e dela vivi na família os seus efeitos.

Entretanto foram os sambas mesmo que marcaram a sua coleção de obras-primas, “Rancho Fundo”, “Marina”, “Risque”, “Na grota funda”, “Maracangalha”, “Dora”, “La vem a baiana”, “Morena boca de ouro”, “No tabuleiro da baiana”, “Os quindins de iaiá”, e muitas outras.

Mas a minha motivação de lembrar as músicas de Ary Barroso está é ligada a lembrança de cantá-las junto com minha sogra nos cafés da manhã nos fins de semana em Friburgo. Eu guardava as melodias, as letras as vezes inventava; mas ela as sabia todas, frequentadora que fora dos programas de César de Alencar aos sábados no auditório da Rádio Nacional, onde as composições de Ary Barroso, seu vizinho no bairro do Leme, faziam sucesso nas vozes de Marlene, Emilinha Borba e muitas outras a quem devemos a memória cultural. Ela conhecera a filha de Ary, Dona Mariúza, da qual não tinha muita simpatia. Sei lá o porquê.

Ao ouvir a “Aquarela do Brasil” me lembrei muito da Dona Elizabeth, tão “kolnisch” quanto a colônia “4711”, mas tão apaixonadamente brasileira.  

domingo, 23 de março de 2025

Domingo, um dia especial

 Seria absolutamente ingênuo na minha idade, aceitar passivamente inverdades que se cristalizaram com o passar dos tempos. Em relação a uma verdade em especial tive, paracendo até descortês, que retrucar uma mensagem que meu amigo, zelador do condomínio onde moro,  me enviou desejando um "Feliz domingo". Para retrucar o desejo de feliz domingo, externei a minha opinião sobre a etmologia da palavra. Trago aqui uma definição extraída do wikipédia:

A palavra é originária do latim dies dominicus ou dominica, que significa 'dia do Senhor, o domingo' (em vez do latim dies solis 'dia do sol').[8][9] Existe, nessa mesma acepção, em castelhano (domingo), italiano (domenica), francês (dimanche) e em todas as línguas românicas.
Povos pagãos antigos reverenciavam seus deuses dedicando este dia ao astro Sol, o que marca a denominação deste dia em inglês Sunday(Dia do Sol) e alemão (Sonntag), com o significado de "Dia do Sol".

Nada mais improvável dizer que significa "dia do Senhor". Na minha humilde opinião, domenica, deriva de domus, do latim "casa". Ou seja, o significado real seria: "dia de ficar em casa".

Como o nome deste dia foi imposto pelo imperador romano, Teodósio I, trocando o nome do deus pagão "sol" pelo "dies dominica", logo após o Concilio de Niceia em 380 da era comum, fica uma questão sim:_ o dies dominica seria o dia de ficar em casa. 

Agora pergunto: "Quem poderia ficar em casa, sem trabalhar, um dia sequer? Somente os senhores; os escravos trabalhavem de sol a sol todos os dias. Nada mais enganoso e falso dizer que domingo deriva do dia do Senhor, com letra maiúscula. Domingo foi criado como dia do senhor romano que, este sim, tinha escravos a lhes servir, como se diz hoje, 7 por 24; ou seja, o tempo todo. 

 E tal situação de exploração persistiu até o passado próximo . No livro A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra livro  de 1864 dos mais conhecidos de Friedrich Engels. (Die Lage der Arbeitenden Klasse in England), que relata a situação de terrível exploração do trabalho de mulheres, crianças de tenra idade, em condições desumanas sete dias por semana, permitindo-se apenas a ida ao serviço religioso no domingo cujo clero, este conivente com a nobreza, elegia a "nobreza do trabalho"; não muito diferente do que se escreveu, bem menos de um século depois,  no frontispício de Auschwitz, "O trabalho liberta" - "Arbeit macht frei". 

Para que este texto não signifique apenas um discurso ideológico, posto aqui a informação que, ao assumir ser síndico no condomínio onde moro, no município de Nova Friburgo, no ano de 2022, mais de mil e seiscentos anos depois do Concílio de Niceia, encontrei o zelador a que me referí no início deste texto trabalhando, além dos dias úteis, aos domingos e feriados. Excusado dizer que dei um fim imediato a esta prática ilegal, imoral e deletéria. 

Corre agora quando escrevo o ano de 2025 da era comum, neste dia de domingo. Ficamos com a pergunta:  Quanto ainda falta para se chegar ao que o Senhor de Nazaré, que pagou com a vida e sofrimento por ter se insurgido contra os sábios de Jerusalém, conluiados com os romanos, poder hegemônico da época, pregava: a simples justiça social? Que os cristãos de hoje, seguidores daquele preso político, torturado e sacrificado, tenham neste domingo a consciência do significado deste dia. 

Esta é a minha humilde colaboração.