Ontem consegui assistir pequenos trechos da denúncia da PGR apresentada contra Bolsonaro e outros. Nela constavam liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. Ainda há uma lista imensa de crimes que ainda virão a ser denunciados; e há de se considerar ainda aqueles que não o serão. Na lista dos que serão denunciados constam ainda: venda ilegal de presentes luxuosos recebidos pelo governo brasileiro: associação criminosa, lavagem de dinheiro e peculato.... Não há ainda nenhuma iniciativa de processá-lo pelos atos durante a pandemia de covid, onde influenciou milhares a não se vacinarem e ainda as falcatruas relacionadas ao recebimento de propina na compra das vacinas; se fosse processado haveria um agravante de centenas de milhares de mortes. Afinal quem é este personagem e, o que mais me intriga, quem são os seus seguidores? Nem estou falando de aproveitadores corruptos.
Fora da resposta fácil e política deve haver uma explicação para a questão apresentada. Que existiram líderes, perdoem-me mas tenho que usar este nome, que levaram milhares até ao limite, a morte, já sabemos. Podemos citar Jim Jones que levou em 1978 uma centena de fiéis a se suicidarem coletivamente, o Heaven's Gate um culto liderado por Marshall Applewhite e Bonnie Nettles, que também culminou em um suicídio em massa em 1997, onde 39 crentes pensavam que iam ascender a uma nova vida espacial, houve ainda o Cerco de Waco onde o FBI teve que enfrentar a seita de David Koresh, em um confronto que vitimou 76 mortos, há ainda o caso do pastor queniano Paul Mackenzie, líder de uma seita que levou mais de 90 pessoas à morte através de jejuns extremos "para ver Jesus"; dentre outros que a memória já se perdeu, mas todos os citados, evangelistas.
Como notórios sociopatas levaram crentes até ao extremo sacrifício é uma incógnita. Nem quero falar de Adolf Hitler que arrastou uma nação inteira para o sacrifício com a promessa não muito diferente daqueles evangelistas citados; prometia um reinado (Reich) de mil anos. O que seria isso na mente de um seguidor alemão? Estas questões evidentemente exigem a resposta de um especialista, pois não seria possível fazê-lo a partir do senso comum. Mas arrisquei, não uma resposta, pois não creio em uma resposta única, mas uma aproximação a partir da leitura de Wilhelm Reich, “Escuta Zé ninguém”, onde a partir de longos anos de trabalho e experiência, ele forma a consciência de como o homem comum se submete ao poder dominador e as consequências trágicas da submissão, o que pode levar o indivíduo a um sofrimento profundo ou até a morte. Muitos dos seguidores de Bolsonaro se expuseram a situações inacreditáveis rezando para um pneu, tentando se comunicar por sinais luminosos com celulares na cabeça com civilizações extraterrestres; outros chegaram a tentar explodir um caminhão tanque de combustível ao lado de um aeroporto lotado em uma véspera de Natal. Como explicar esta dominação psicológica sem auxílio de um forte referencial é impossível, muito menos em uma única frase ou um único parágrafo.
O livro todo de Wilhelm Reich tenta ( é este o termo mesmo ) se aproximar de uma síntese. 1 Reich no livro nos ensinava o quanto o poder dominador ditava as normas de conduta, escravizando não ao ser. Cada vez mais queremos atingir objetivos onde a meta é ter (grifo meu), queremos ter a melhor roupa, o melhor carro, a melhor casa. O que tem acontecido é que somos prisioneiros dentro dos nossos próprios lares. Aprisionados por nós mesmos não reagimos diante destas mensagens, destes condicionamentos. Deixamos nossos filhos assistindo uma infinidade de baboseiras, porque assim eles não dão trabalho. Perdemos o contato com a boa leitura, com as artes, com a natureza.2
A totalidade daqueles que ainda permanecem fiéis a esta figura inevitavelmente são prisioneiros da absoluta falta de cultura própria, apedeutas de leitura mínima, dominados pela mensagem fácil da mídia contratada. O domínio que os levou aos atos de oito de janeiro de 2023, pelos quais agora são julgados são da mesma natureza daqueles evangelistas já citados, o domínio da mente pobre e vazia de cultura no seu sentido pleno.
Eis a síntese que me arrisco: a cultura popular, se manipulada, tem o poder destruidor; se aperfeiçoada tem o poder a construção e do progresso. A história mostra claramente, daí a valorização e proteção da cultura popular. Tom Jobim deu uma contribuição enorme com o “Piano da Mangueira”. Uma vez, ainda garoto, estava na plataforma do trem na estação de Mangueira, pois a estação de São Cristóvão, onde pegava o trem para voltar da escola estava inoperante, ouvi o povo reclamando, mas em vez de esbravejarem cantavam um samba que não lembro a letra. Corria o ano de 1957, Juscelino Kubitschek de Oliveira, exalava perdão, exalava progresso, não tinha seguidores fanáticos mas admiradores, e principalmente admiradoras. Tom Jobim, o músico, JK o presidente, teriam que ser silenciados em 1964. A história provou que seria impossível.
1https://www.centroreichiano.com.br/artigos/Artigos/Escuta-Ze-ninguem-e-o-poder-do-amor-AFONSO-Rubens.pdf
2 Escuta, Zé ninguém!e o poder do amor. José Henrique; VOLPI, Sandra Mara. Psicologia Corporal. Online. ISSN-1516-0688. Curitiba: Centro Reichiano, Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br/artigos
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