terça-feira, 25 de março de 2025

Aquarela do Brasil e minhas lembranças

    Hoje pela manhã qual não foi a minha surpresa de ver, e ouvir, no cerimonial do Imperador Japonês a banda militar tocando a “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. Como brasileiro nascido no final da segunda guerra em uma família que comemorava o seu final e a volta de um de seus filhos, são e salvo, um pracinha condecorado, não pude deixar de me alegrar, assim como fiz na visita de Lula a China quando a banda militar entoou com perfeição e afinação a canção de Ivan Lins “Um novo tempo” para enorme emoção do autor.

A execução da “Aquarela do Brasil” teve uma emoção diferente. Primeiro porque o autor, Ary Barroso, teve seus primeiros vagidos no interior de uma cultura que ainda marcava os compassos do século IX no interior de Minas Gerais, na pequenina Ubá. Era no século dezenove que se fundava uma cultura musical, e mesmo literária, que daria a liga a nossa, a minha, nacionalidade que se afirma após 1930, principalmente com o advento do rádio. As composições de Ary Barroso marcaram uma época de ouro do rádio, a minha época, todas com sucesso; o que o levou ter uma indicação ao Oscar pela música incidental do filme “Brasil”. Outras composições deste estilo para o cinema lhe renderam sucesso ( “Alô amigos” do Zé Carioca, “Você já foi a Bahia?” ). Todos financiados pelo Departamento de Estado americano para incentivar a entrada do Brasil ao lado dos aliados na Segunda Guerra Mundial e principalmente para ter um ponto de apoio no nordeste em Natal, o que encurtaria a distância até Dakar para atacar o Afrika Korps. Nasci nesta época e dela vivi na família os seus efeitos.

Entretanto foram os sambas mesmo que marcaram a sua coleção de obras-primas, “Rancho Fundo”, “Marina”, “Risque”, “Na grota funda”, “Maracangalha”, “Dora”, “La vem a baiana”, “Morena boca de ouro”, “No tabuleiro da baiana”, “Os quindins de iaiá”, e muitas outras.

Mas a minha motivação de lembrar as músicas de Ary Barroso está é ligada a lembrança de cantá-las junto com minha sogra nos cafés da manhã nos fins de semana em Friburgo. Eu guardava as melodias, as letras as vezes inventava; mas ela as sabia todas, frequentadora que fora dos programas de César de Alencar aos sábados no auditório da Rádio Nacional, onde as composições de Ary Barroso, seu vizinho no bairro do Leme, faziam sucesso nas vozes de Marlene, Emilinha Borba e muitas outras a quem devemos a memória cultural. Ela conhecera a filha de Ary, Dona Mariúza, da qual não tinha muita simpatia. Sei lá o porquê.

Ao ouvir a “Aquarela do Brasil” me lembrei muito da Dona Elizabeth, tão “kolnisch” quanto a colônia “4711”, mas tão apaixonadamente brasileira.  

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