Não há mais como tentar esconder o caráter odioso e irresponsável da direita brasileira; direita esta que tolera o discurso de ódio e acaba por apoiar, até mesmo inconscientemente, o que a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e a Polícia Federal desbarataram: um ataque a bomba no show da Lady Gaga na praia de Copacabana, onde acorreram milhares de pessoas. Chega-se a falar em dois milhões. A artista completa que é e carismática não poderia deixar de ser diferente. Mas nos atentemos ao fato: -A organização terrorista que, ainda que amadoristicamente, provocaria um número incalculável de mortos e feridos.
A título de quê? De afirmação de uma corrente política, já comprovada nas investigações prévias, que instiga o ódio em jovens despolitizados, na sua maioria filhos de família de classe média. Até onde vai a estupides desta corrente de pensamento? Se é que podemos chamar de pensamento, já não tem limite.
Verdadeiramente não aprendemos com a história. Vemos que a história está repleta de exemplos onde a truculência e ignorância levaram ao desastre. Na Alemanha de 1932, por exemplo, Von Pappen inaugura uma era de entreguismo (naquela época não se falava privatização) entregando aos capitalistas alemães (a maioria judeus diga-se de passagem) na bacia das almas empresas do porte da Ferrovia Deutsche Reichsbahn e da siderúrgica Vereinigte Stahlwerke, sem falar na proteção escandalosa a Thyssen e na privatização de bancos estatais alemães. Tudo isso apoiado pela Igreja Católica; alias foi o partido desta que dá a maioria para a tomada do poder, já que a extrema direita, ou seja von Pappen, não teria votos para ascender ao poder. Fora a concupiscência dos católicos (e não dos evangélicos como agora) que induziu o povo alemão dar um passo em direção ao abismo. Gerou um Hitler. Seguida à onda dessas privatizações vergonhosas aparecem então as SA, os “Camisas Pardas”, que inspiraram aqui no país os “Camisas Verdes”, apoiados também por parte, não tão pequena, da Igreja Católica. Estudei em colégio católico e bem sei da influência desta ideologia na formação de uma juventude que outrora esticava o braço na saudação “anauê” (que seria “você é meu irmão” em tupi-guarani). A camisa amarela da seleção que vestira os “integralistas hodiernos” em frente aos quartéis foi um mimetismo oportuno mas menos teatral. Os integralistas de então eram também ativos, mas não explodiam bombas nem caminhões nem cartas. Lembro que nas eleições de 1955, Plinio Salgado, o líder dos integralistas, já não tendo mais influência que tivera em 1937, (Getúlio Vargas desmontou aquele ridículo nazifascismo caboclo) angariou mínimos 8,28% dos votos, mas a direita que era representada pelos outros dois candidatos teve maioria. Como não havia eleição em dois turnos Juscelino Kubitschek vence com 35,68% dos votos. Ver quadro abaixo:
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Juscelino Kubitschek
PSD-PTB
35,68%
Juarez Távora
UDN-PL
30,27%
Ademar de Barros
PSP
25,77%
Plínio Salgado
PRP
8,28%
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Podemos observar que dois terços dos votos foram amealhados pela direita, sendo que a extrema-direita representada por Plinio Salgado, chegara a quase um milhão de votos. “Ganha um doce quem adivinhar qual órgão de imprensa apoiou a direita, e mesmo a extrema-direita”. Segmentos significativos da Igreja Católica naquela época também apoiaram a direita. Se houvesse dois turnos naquela época posso apostar que Ademar de Barros transferiria mais da metade de seus votos para Juscelino Kubitschek. Mas fica visível que a direita conservadora sempre fora ativa e não deixava de usar instrumentos pouco éticos para alcançar o poder. Serve de exemplo o episódio poucos anos antes, ainda com Vargas vivo, da famosa “Carta Brandi”. Risível, torpe, execrável, mas tolerado pela nossa classe média. Esta mesma que hoje abriga os terroristas (o termo é atual) que iriam explodir bombas em meio a multidão que assistia a formidável artista Lady Gaga, pseudônimo da senhora Stefani Joanne Angelina Germanotta, que domina vários estilos musicais, além de excelente pianista.
Neste episódio vimos por um lado a escória da classe média, “rapazes de família”. Por outro a Lady Gaga que representou a arte muito acima da vulgaridade e mesquinhes; não fora atoa que reuniu mais de dois milhões de espectadores.
Dois extremos: de um lado uma minoria doente e furiosa e de outra a terapêutica arte popular.
Em tempo: Plínio Salgado pouco depois das eleições presidenciais de 55, obtivera nas eleições de 1962 para Deputado Federal por São Paulo, mais votos que Ulysses Guimarães e que Mario Covas. Era em São Paulo.
Mas, voltando a fabulosa Lady Gaga, quero reproduzir o que gritava o auditório da Radio Nacional na década de 50, para o artista preferido, juntamente a minha sogra, participante fiel dos programas de César de Alencar e kölnische admiradora da arte popular: “É a maior, é a maior, é a maior”. Nada de agressão, política era política, arte era arte, pura arte. Arte pura.
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