Cansei até de falar sobre a nossa “imprensa marrom”, nome que se dava aos tabloide e revistas sensacionalistas dos anos 50 e 60 ( é desta época que me lembro ). Mas a interferência da imprensa vem de longa data. Lembremos o “Caso Dreyfus” onde a interferência da imprensa ajudou a condenar e depois ajudou na campanha de inocentar o capitão do exército francês. O rumoroso caso chegou até aqui nas páginas do “Jornal do Brasil” (ver hemeroteca da Biblioteca Nacional).
Os assuntos econômicos, políticos e geopolíticos, sociais e técnicos de real interesse sempre dão lugar a “fofoca” do dia. Conforme os interesses do momento a mídia se posiciona. Mas o que desperta meu interesse e minha reflexão sobre o fenômeno midiático está relacionado como este se engendra com o “nacionalismo”. Historicamente, aqui no Brasil até o momento, temos o nacionalismo agregado à esquerda. Não que a esquerda seja inerentemente nacionalista, pois esta varia sua inclinação segundo circunstâncias. Na Hungria, por exemplo, o nacionalismo tem fortes ligações com a direita, assim como os EUA.
A razão para situarmos o posicionamento da nossa mídia cabocla frente ao nacionalismo e aos verdadeiros interesses nacionais é, pelo menos nesta minha humilde e breve existência, a sua persistente e ranzinza implicância com o que se relacione e se revele nacional, brasileiro. Mesmo que se origine no campo da direita. Faço uma resenha baseado na minha memória apenas:
. Criação da Companhia Vale do Rio Doce: Já na minha infância (1950) via os debates familiares sobre a VALE. Os tios divididos entre entreguistas (leitores influenciados pelos jornais de direita) e aquelas getulistas (leitoras influenciadas pela leitura do Diário de Notícias). Pano de fundo, a campanha das eleições de 1950. É a memória pessoal mais antiga que tenho.
. Campanha antigovernista liderada por Carlos Lacerda e o episódio do “Crime da Toneleros” que praticamente destruiu o governo Vargas, até ao seu suicídio. A “Carta Testamento” de Getúlio Vargas sequer foi publicada em alguns jornais e noticiada em algumas rádios. Os “Diários Associados” de Assis Chateaubriand assumiram posição equidistante, pois parece que anteviam dez anos antes o golpe de 64 se consolidar; desta vez com ajuda da 4ª Esquadra Americana.
. No governo Juscelino Kubitschek, houve duas tentativas “style république bananière” frustradas; uma, a de Jacareacanga, a de Aragarças. Nesta empreitada a mídia não se envolveu muito pois via que não haveria apoio externo para o circo burlesco.
. Mas, bastou chegar a época das eleições, que ao abrir a campanha eleitoral, a mídia em peso abanou a candidatura de Jânio Quadros e seu “Clube da Vassoura”, pois já se entronizara o “combate a corrupção” e Jânio Quadros, que ele mesmo não sabia para que lado iria no conflito iniciado na Guerra Fria, líder fanfarrão se elege com apoio plano da mídia da direita. Ali se ensaiava a aplicação do processo que cinquenta anos depois desaguaria no “lawfare”. O “combate a corrupção” era receita para todos os males das repúblicas latino-americanas abaixo da linha do Equador; as do lado de cima na América Latina nem se fala…
. O golpe de 64, este foi produto elaborado a partir do apoio urdido na classe média, base da UDN (núcleo para lá de retrógrado da direita) já plenamente influenciada pelo rádio e pela televisão. Deu no que deu. Até a “Folha” participou extrajornalisticamente; emprestou frota de veículos, deu cobertura logística. A “Folha” sobreviveu, mas a um custo que a levará definitivamente ao mesmo destino que os Diários Associados...Quem viver verá.
. Daí em diante, apoio a eleição de Collor e posteriores outras tentativas de derrubada de governo, a mídia brasileira percorre o caminho que irá levá-la inexoravelmente ao fundo. Os mesmos grupos não terão como fazer frente a evolução tecnológica, pois terá de se contentar em ser pautada pelas redes sociais. Estas, também controladas por governos e grupos poderosos, drenam a audiência destes. Ocorre que a guinada para o “sul Global” exigirá destes grupos de mídia o que eles não mais têm, pois as perderam: a legitimidade e a credibilidade. Como se diz no jargão jornalístico: haja “barriga”.
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