quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Renovar é viver

Já chegando o carnaval de 2015, estou passando a escrever neste blog como forma de renovar a forma e expandir conteúdos. Afinal, renovar é viver, já cantava Gilberto Alves no carnaval de 1954. Não tenho muita certeza do ano, mas sei que foi lá pelos 50.

Como o ano de 1954 foi muito marcante para mim, com nove anos apenas, emocionado pelos acontecimentos trágicos, acabo registrando neste toda a década. Nesta época, 1952, havia morrido tragicamente o cantor Francisco Alves. Ainda me lembro do pranto incontido de minha avó e da empregada, a Iracema, ambas doces e sensíveis criaturas. Morreu em 54 Getúlio Vargas, após a agonia política criada pela morte do Major Rubens Vaz e pela crise instaurada por interesses imperiais contrariados. Em 55 vou para o ginásio, longe de casa para grandes aventuras e longas viagens diárias ao Externato Marista São José. O fim da infância. Morre em 55 Carmen Miranda, outra trágica lembrança que fez chorar minha doce avó que acabou partindo em 57. 

Mas não só de episódios trágicos se constroem as lembranças. Lembro também da linda menininha Silvia Renate na festa do quarto centenário de São Paulo em janeiro 1954 na casa da vovó Julieta, que foi embora do Brasil para anos depois se tornar a Rainha Sílvia da Suécia.

Renovar agora para mim também significa lembrar, pois se não temos memórias, como então renovar? Pois não se renova o que não se usa, e memórias são feitas para serem usadas na construção de nossos laços com o futuro, como os elos de uma corrente. E esta corrente serve para ancorar a confiança que depositam em nós aqueles que nos vêem como um porto seguro.

E falando em Porto Seguro quero lembrar do Carnaval da Bahia, que este ano elege a Rainha do Carnaval e para tanto vou postar a imagem retirada das doze finalistas do certame. É um colírio para os olhos. Há de se pensar como um senhor septuagenário, dito por alguns como sério, banaliza assim seu blog.
É simples. O que se lê na mídia, afora as desgraças do cotidiano, é o anúncio da catástrofe tão desejada pelos enraivecidos e odiosos perdedores das últimas eleições. Que diga-se de passagem, não estão nem aí para a alegria e o bem estar do Povo Brasileiro. O ódio cega, diz o ditado.
Não vêem, não percebem a nossa natureza tropical. Não vêem e não percebem nossas qualidades como Povo. Como só vêem o pior, assim acham que os outros devam ver.
Não deixarei, assim procuro agir,  que esta cegueira e esta raiva contamine a nossa alma.
Renovarei as lembranças de nossos feitos. Renovarei a lembrança de nossas alegrias. Renovarei a lembrança daqueles que antes de nós viveram para que em nós renascesse a Esperança. Morreram para renascer uma vida eterna em cada um de nós.
Por isso, viver é renovar. Sempre.
E renovar é viver  
    

sexta-feira, 18 de julho de 2014

El meu company catalá

Chego cedo ao trabalho, exatamente para poder ler com calma e decifrar o que a mídia, os blogs e os e-mails que faz parte minimamente da obrigação de se manter informado; senão, "atualizado das fofocas", diria minha saudosa sogra. 
Como chego bem cedo encontro a equipe da limpeza das salas aqui da Secretaria de Segurança, quase na sua totalidade composta por senhoras; o quadro masculino serve aos serviços mais pesados. Pois bem, por aqui trabalha uma senhora, ou senhorita não sei bem, de nacionalidade espanhola. Chegou aqui há uns dois anos e conseguiu ir morar lá em Piabetá, Distrito de Magé ( ou de Caxias ? Não sei ao certo ). Sincronizada comigo ela chega, assim como as outras, lá pelas sete horas, ou mesmo antes. Depende do trem. 
Esta senhora  veio fugida do desemprego desde lá do Reino de Espanya, já que é catalã de Girona e mais precisamente, disse ela, da fome.

Já instalada em Piabetá, que fica na distante periferia da nossa metrópole, disse-me ela que passou a ter um  "esmozar" logo de manhã, um "dinar" lá pelas dez horas, um "almuerzo", um "entrepá" as quatro da tarde, e em casa, um "sopar". Chamou-me atenção que tanto no almoço e no jantar ela mencionava enfática que havia carne, ou peixe, ou frango, quase sempre.

Pois bem, já fazem uns meses ela trouxe a avó lá da cidadezinha de Taradell para Piabetá. A razão desta, até triste, mas salvadora migração: - esta senhora de 86 anos comia apenas um "rotllo" por dia. Ou seja, um paõzinho apenas. Essa dieta de campo de concentração foi graças a salvadora ( para os bancos? ) política desde Madrid que condenou os trabalhadores a fome e ao desemprego. E agora mais ainda ao despejo de suas casas.

Esta senhora me relatou a situação precária de seus compatriotas que, para se intitularem europeus, pagam um preço irreal, desnecessário e imoral. Em condições típicas dizer que sair da Espanha, Girona, para Piabetá é um fato isolado que não representaria a realidade espanhola e mesmo européia. Posso dizer que Poisson me auxiliaria a provar que, exatamente, por este fato está aí representada a mais rasa e suja realidade: a submissão ao capital especulativo, que viveu e fez viver a fantasia do dinheiro fácil, à custa de antípodas asiáticos, africanos, latino-americanos que drenaram as suas riquezas em direção a Europa e ao EUA.

São os mesmos que botaram a Espanha de  joelhos, juntamente a Grécia, Irlanda, Portugal, Islândia e agora Itália (dentre vários), que apregoam medidas financeiras irresponsáveis cuja única meta é abarrotar ainda mais o baú de especuladores. Será que não cabe na cabeça de uns inocentes úteis daqui de nossas plagas que, seguindo este caminho, estaremos todos nós comendo apenas um "rotllo" por dia? E que teremos vergonha de lembrar que fomos capazes um dia de prover ao pobre viajor emigrante as refeições que lhe negaram na terra natal ?  

É exatamente o que está agora movendo as manchetes da nossa mídia, alugada para este fim:  enganar. Faz-me lembrar aquela historinha do Chapeuzinho Vermelho ( nenhuma alusão ao "barrete frígio" ):

- Por que este juro tão grande vovozinha?
- Pra conter a inflação Chapeuzinho
- Por que este desemprego tão alto vovozinha? 
- Pra conter a inflação Chapeuzinho.
- Pra que esta dependência tão grande ao capital internacional vovozinha?
- Pra te comer melhor Chapeuzinho. Será que não percebe? Garota burra e ingênua.

A minha companheira de trabalho espanhola serve como prova viva que não é um fenômeno raro e que, exatamente por estar aqui em Piabetá, serve como prova estatística. Esta companheira não é nem burra nem ingênua: salvou a sua vida e de sua avó, e sabe muito bem diferir o que é ilusionismo capitalista e realidade produtiva.  Varre todas estas salas para prover quatro refeições por dia a sua família.
Disse para mim semana passada, até com certa tristeza por não podê-lo: "Si jo vaig votar, vot en Dilma" 
    

Ainda Copa

Tive que escrever hoje sobre a Argentina, motivado, estimulado diria, ou melhor, muito intrigado pela conversa de elevador com uma senhora que para ser gentil puxou assunto dizendo que queria ver os argentinos perderem no domingo. Pensava ela que eu daria assunto sobre futebol. Não conseguindo seu intento reforçou a “bronca” ( a dita bronca senhora, muito elegante mas bronca ): - “Não suporto os argentinos”. Aí tive que responder: “Pois eu gosto muito do estilo deles, sul-americanos como nós”. O que deixou a dita senhora perplexa. Como gostar de argentinos? Pano rápido: esta senhora representa boa parte da população brasileira, ainda tosca no sentido sócio-político e cultural.
Devo esclarecer que este sentimento foi enculcado após os anos 60, pois em época anterior a esta, quando o tango argentino estava difundido entre nós e frequentava os salões de dancings e gafieiras, o sentimento era outro. Lembro Ernesto Nazareth que compôs “Odeon”, “Esta chumbado” tangos brasileiros tocados até hoje sob os mais diferentes arranjos e roupagens musicais.
Mas a reflexão que quero fazer remonta a tempos mais antigos, passando pela Guerra das Malvinas.
Primeiramente quero lembrar a Guerra do Paraguay, apoiada, estimulada e financiada contra o ditador Solano Lopez, que era um exemplo de insolência ao Império Britânico; um exemplo a não ser seguido pelas recém-nascidas nações sul-americanas. Os ingleses já eram experientes na arte da intriga. Entenda-se que Disraeli, que então ditava as cartas na corte da Rainha Vitória foi um dos mentores da “Lei dos Grãos”, que regulava impostos aos grãos importados; na sua maior parte de onde? Argentina. Nem se incomodou muito com o massacre de Peterloo que esta lei acabou provocando em Manchester (ainda há muito que falar sobre este episódio, prometo).
A Argentina com as suas grandes pastagens e seus grandes rebanhos abastecia com grãos e carne a Albion Vitoriana, logo depois a Eduardiana, e mesmo até recentemente. A taxação destes grãos custou muitas vidas em Manchester, Glasgow, Liverpool. Não preciso mais me estender sobre o tipo de relação que se criou entre a Inglaterra vitoriana e eduardiana e a ainda incipiente nação agrícola; dominação e a geração de uma classe social argentina cooptada e conivente.
Quando da Guerra das Malvinas, episódio burlesco criado pela ditadura argentina para tentar parecer patriótica e ainda tentar cooptar a opinião pública ( e conseguiu até ), a relação estabelecida desde antanho, ou seja, desde o século IXX, já não existia pois o Império Britânico já não era o mesmo que intrigava mundo afora. Lembro que Disraeli foi mestre nesta arte e muito das guerras do século IXX podem lhe ser creditadas. Por exemplo a Guerra dos Balcãs do século XX remonta aos tempos deste senhor que no Congresso de Berlim de 1878 arranjou uma paz que só dizia às vantagens da então Império Britânico. Uma paz que só existiu à força no período da Iugoslávia do Marechal Tito.
Mas voltando as Malvinas, após a Segunda Guerra Mundial pouco restou do “Império onde o sol nunca se punha” e a situação mudara devido a necessária reorientação geopolítica britânica exigida pela recém-criado tratado da OTAN. Já em 1968, o então primeiro-ministro trabalhista inglês Harold Wilson assinou um documento que não entrou em vigor imediatamente. Em 1970, foi eleito o conservador Edward Heath, o maestro, que o engavetou. De acordo com este documento, no seu artigo 4º, está definido: “O governo de sua Majestade Britânica reconhecerá a soberania argentina sobre as ilhas a partir da data a ser combinada. Essa data será fixada tão logo o governo de sua Majestade Britânica esteja satisfeito com as garantias e salvaguardas oferecidas pelos governos argentinos para defender os interesses dos seus habitantes” (FERREIRA, 2013). Nada indicava que tais salvaguardas não seria garantidas.
Pois bem, ocorre que a mencionada senhora do elevador e aqueles que caíram na esparrela do antagonismo gratuito entre argentinos e brasileiros não perceberam que novos interesses embarcaram nos antigos, aqueles dos britânicos. Por um lado valia a pena explorar a competição futebolística, pois garantia audiência radio-televisiva. Por outro lado angariava apoio a uma cisão econômica, pois há de se convir que a criação de um bloco econômico tal como o Mercosul contraria enormes interesses imperiais. Como diria aquela figura da mãe cômica de “Mon Oncle” de Jacques Tati: “Tout se communique”
Fico por aqui, mas prometo que ainda escreverei sobre o Massacre de Peterloo, hoje quase esquecido mas que serviu a causa feminista já em 1819. O lema do levante feminista à época era “Matem-nos como homens mas não nos vendam como escravas”. Aí uma lição do belo povo desta antiga e lendária Old Albion.

Fim da Copa


É, terminou; terminou após um mês de jogo de futebol quase todo dia.

Na sua maior parte, na classificação, foram três jogos por dia. Para mim, que não sou fanático por futebol, foi até muito. Mas confesso que já sinto saudades da Copa. Não dos jogos que assisti pela televisão, alguns até em trechos de gravações à posteriori, mas da Festa.
No bairro onde moro, onde há muitos albergues e hospedagens, o que mais via eram torcedores e torcedoras jovens de várias nacionalidades.
E como jovens que eram, bonitos. Parecia uma Torre de Babel, ouvia-se alemão, espanhol de diversos sotaques, bósnio, francês, inglês e até uns mais velhos que falavam welsh, galês.
Ouvi outros idiomas que não faço ideia de quais sejam.
Foi uma verdadeira festa e posso dizer do fundo do coração: não ha preço que pague. É como você fazer uma festa na sua casa e esta ser muito concorrida. Nos enche de encanto, quanto mais, cheia de meninas jovens lindas.
Festa é sempre bom.
Bom até para aqueles, que oprimidos, se alegram com esta comemoração, um simples jogo de futebol.
Está até nas Escrituras, Provérbios 15:15 "Todos os dias do oprimido são maus, mas o coração alegre é um banquete contínuo". É por esta razão que a festa alegrou meu coração, independentemente dos custos e
dos ganhos, que afinal foram enormes. O mais importante foi este ganho imaterial da alegria, mesmo com derrotas. Afinal fomos solidários com os demais (29) vinte e nove países. Os outros três se alegraram na comemoração dos jogos: Alemanha, Argentina e Holanda. Nós e mais vinte nove não tivemos a mesma sorte, por razões mais variadas, algumas até indizíveis, mas a alegria de receber foi somente nossa.
No entanto após ouvir as mais variadas opiniões de entendidos de futebol (derrotados, mas continuam entendidos) que sabem explicar a derrota, fico buscando em outro extremo a causa de tamanho sucesso do
certame. Não faltou avião, não faltou hotel, não faltou ordem, não faltou telecomunicação. Só faltou futebol brasileiro, mas de resto todo mundo viu a grandiosidade de estádios e do espetáculo. A causa do sucesso, qual seria?
Temos que lembrar também que houve quem destoasse, palavrões, xingamentos, cambismo, mas realmente não chegou a arranhar a imagem  e o bonito.
Qual seria a causa de tamanho sucesso?
Ah, simples: simplesmente o povo quis.
Muitos nem perceberam, tão longe que estão do Povo e da realidade.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Há de haver limites

     Ando meio perplexo diante da campanha que está sendo desenvolvida pela mídia, aqui entenda-se os grandes, no único e raso intuito eleitoreiro. Não existe um mínimo de razoabilidade. Não se percebe a menor intenção (também nem se preocupam mais em parecer intelectualmente honestos) de ser útil a nação; de ter uma proposta de progresso, de melhoria do povo; nada, absolutamente nada. Apegam-se às mais variadas formas de degradação de seu "inimigo". Uso as aspas pois não são capazes de entender divergências, muito menos aceitá-las, já que se radicaliza qualquer forma de política de distribuição de riqueza como demagógica, populista e, in-extremis, comunista. Tal precarização da capacidade de percepção da realidade social, acaba por contaminar a percepção da realidade econômica, empresarial e transpassa a realidade que corre do macro ao micro. 
      Da percepção da realidade macro-econômica a realidade de sua empresa, alguns empresários ainda se apegam aos velhos e desgastados discursos que remontam a bipolaridade dos tempos da guerra-fria. A percepção binária melhor se acomoda à limitação intelectual e, portanto, não consegue alcançar a dimensão da atual multipolaridade. Atualidade que desde o fim do Muro de Berlim, o fim da União Soviética, o fim da Era Neoliberal, o fim do Consenso de Washington, estabelece diferentes pólos de influência no cenário mundial, restabelecendo uma condição cíclica de equilíbrio que remonta a primitivos tempos renascentistas.       Da sístole da aglutinação de economias a diástole da dispersão destas no mesmo espaço físico, percebe-se a lenta mudança dos padrões ideológicos. O próprio Lenin tinha uma frase mais ou menos assim: "O poder das idéias é tão forte, que mesmo que a realidade as contrarie, elas permanecem". É desta forma que percebo a permanência da bipolaridade, tanto à esquerda, quanto à direita do espectro político e que permeia os quadros tanto da gestão pública quanto a da privada.  O diferencial de incertezas e incompreensões é que estabelece o "teatro de operações" desta guerra, onde forças reacionárias emperram os esforços pelo progresso e diminuição do sofrimento dos mais pobres. O leilão de Libra promoveu uma excelente oportunidade de observação destes extremos bipolares; por um lado a esquerda queria permanecer sentada em cima da riqueza, por outro a direita queria  entregá-la a qualquer preço ao estrangeiro ( desde que não fosse chinês ). A solução, complexa como é a natureza do problema, incorporando as componentes de defesa econômica e defesa militar, ultrapassou a capacidade de análise de muitos e consequentemente os deixou à mercê de "formadores de opinião", mais do que espertos, rapaces.
      Juntamente à esta questão da complexidade  da sobrevivência e do progresso em meio a disputa entre as nações, aparece agora a vulgarização da ética, que passou rapidamente de "favorita do bordel" a "ecclesia beatae", atropelando direitos, desconstruindo conquistas jurisdicionais, tudo em nome de uma ética que quer ser beata mas acaba por revelar a sua condição de favorita de bordel; eleita pelos frequentadores mais do que fieis ao ambiente da malandragem.
      Todos temos a obrigação de refletir sobre o atual momento, concordem ou não com a minha opinião, pois o limite da paciência dos homens de bem está chegando a um ponto crítico. Não será a condição econômica mundial; não será o "pib", não será a balança de pagamento. Não serão razões econômicas, mas razões éticas que levarão homens da minha idade a cobrar agora nas ruas energia para com estas falsas beatas, que estão se aproveitando da boa fé de muitos e de poucos. Os donos dos meios de comunicação corrompidos têm de enxergar que já passaram dos limites.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Trabalho, Justiça e Produtividade

  Lendo o artigo sobre o trabalho de dissertação de Thiago Figueiredo Fonseca Ribeiro em  "http://www.unicamp.br/unicamp/ju/581/estudo-investiga-efeitos-e-alcance-da-autogestao" me veio a lembrança de uma postagem antiga onde mencionava os modismos gerenciais. Volta e meia aparecem, em meio a uma sopa de letras, novas (?) técnicas e métodos gerenciais que prometem o céu e a terra e passam a ser a "novelle vague" dos agraciados com "emebieis" fajutos que apenas servem para informar,  quando, por dever e mesmo por lei, deveriam estar incentivando a pensar, a criar, e a ousar novas teorias, novas ideias, para sairmos da condição de dependentes ou incapazes.
       Há bem uns trinta e cinco anos que venho estudando os métodos de planejamento e programação de produção na busca da simplicidade mas, principalmente, na capacidade de construir soluções próprias; e mais do que isso, na busca da competência e suficiência para ousar, no intuito de ajudar as industrias brasileiras. Isto me move então à algumas palavras, mas tenho ainda que fazer algumas referências históricas. É próprio dos "vividos", para não dizer idosos.

      Não posso esquecer do encontro que tive com o professor israelense Elyahu Goldratt em 1978 em Fort Lauderdale, na Flórida, quando ele construía a sua obra "A Meta" que, praticamente, mudava o enfoque de gestão e produtividade diante do "milagre japonês". Nesta época as industrias americanas sofriam uma concorrência imensa das congêneres japonesas e não sabiam mesmo fazer frente a invasão de seus produtos de baixo custo e alta qualidade. Duas características que, nos moldes da cultura ocidental até então, eram antagônicas. O professor Goldratt apontou então, naquela época, a fórmula do poder de competição dos nipônicos: geravam excesso de capacidade. Aos ouvidos ocidentais isso soava como uma heresia. No entanto, mostrou o professor Goldratt, que o excesso ocorria exatamente onde era necessário. Ou seja, onde o Japão mais precisava: em grãos, em petróleo, em minério de ferro, em matérias primas. Pois em capacidade industrial, em qualidade de mão-de-obra, em custo de mão-de-obra, realmente havia suficiência. Isto implicava dizer que, na prática, é nestes pontos que se podia ousar em economizar. 
Daí vieram os programas "zero-inventories", "kan-ban", "just-in-time", "total quality control". Todos visando economizar onde podiam, sem nenhum prejuízo da qualidade. - Faltasse grãos, não lograriam qualidade, pois ninguém produz esfaimado; faltasse petróleo nem ligariam as máquinas operatrizes, nem robôs; faltasse minério de ferro, não haveria metalurgia. Investiram então pesado nessas commodities, independentemente dos preços até. Na construção de Itaipú vendiam seus pneus de trator a um terço dos concorrentes. Na expansão das telecomunicações no Brasil, ganharam a maioria das concorrências. NEC, Fujitsu, Hitachi, Mitsui, Mitsubishi, Toshiba, bateram suas equivalentes americanas e europeias; algumas destas até fecharam ou tiveram que se fundir. 
      Mas o "Milagre Japonês" acabou. Como? Acreditaram na abundância do recurso do capital. Nem precisa lembrar que agora tiveram que "se reagrupar", usando um termo militar, na construção, ou reconstrução, dos seus "keiretsu", que são grupos financeiros que se apóiam, não ao contrário, nas grandes industrias. Os keiresu´s  Mitsubishi, mais autônomo, o Mitsui, o Sumitomo, o Fuyo, o Daichi-Kangyo, o Midorikai, todos se apoiam em indústrias famosas, cujas marcas ( Mazda, NEC, Toyota, Nissan, Isuzu, etc...) mesmo após a "bolha" (eufemismo para conto-do-vigário) financeira e imobiliária, voltam a fazer frente até aos chineses. 
      Não entrando então no fulcro da questão econômica, mas sim naquela relativa aos métodos gerenciais de planejamento, controle de produção e produtividade, quero lembrar a necessidade de se aprofundar nas questões básicas da produção e do trabalho. A dissertação do Thiago Figueiredo Fonseca Ribeiro traz a tona a importância das questões relativas ao trabalho, a sua valorização e a importância do Estado como agente impulsionador de progresso e do desenvolvimento industrial. Daí a necessidade de, antes mesmo de discutir métodos, estabelecer os valores que estão postos na definição do problema industrial. Nem quero passar pelos antecedentes sociológicos da educação de qualidade para todos, da justiça para todos, do direito ao trabalho para todos, e do estímulo à produção nacional em lugar dos juros. Já são pontos absolutamente unânimes nas mentes à esquerda e à direita do espectro político. Creio. Conseguidas as encomendas estimuladas pelo Governo, como fez o o MITI do Japão à época do milagre, aí sim vamos optar por este ou aquele  método. Ter método e não ter encomenda não faz sentido. 
      A leitura da mencionada dissertação da Unicamp me estimula a rever a evolução da metodologia concernente a evolução da tecnologia da informação. Do PERT ao MRP, ao MRPII, ao Kan-Ban, PLM, CRM, PMI, etc... todos passam pela construção de seus análogos naturais, seus modelos canônicos simplificados, pelo mapeamento de suas restrições e, no limite, na racionalidade de seus dirigentes no cumprimento da sua missão social. Justiça social sem lucro é utopia, ou ingenuidade. Lucro sem justiça social é suicídio. Todos que viveram as duas situações provaram do amargo e nos servem de exemplo.
      Leia a dissertação e veja o quanto esta suscita de reflexão.
     http://www.unicamp.br/unicamp/ju/581/estudo-investiga-efeitos-e-alcance-da-autogestao
    Trabalho, justiça e produtividade andam juntos.

Passou dos limites da sanidade mental

Postado originalmente em 09/08/2012, ou seja, há mais de um ano. Será que trocaremos o nome Gushinken por Genoíno? Esta farsa já foi longe demais. Nem mais os ingênuos e apedeutas controlados pelo que ouvem e vêem na TV estão acreditando neste espetáculo dantesco.


      Esse Procurador Geral é mesmo um inútil. Se não inútil, pior, pois conseguiu, por incompetência ou intenção, desmontar a oportunidade de se fazer justiça e mesmo gerar as condições jurídicas e políticas para implantação de uma nova forma de financiamento de campanha, expurgando o "caixa2", forma viciada que gera as oportunidades de lavagem de dinheiro. 
      Talvez movido por razões políticas, ou mesmo comparsiado com alguém, conseguiu fazer da ação penal 470, o mensalão da mídia, peça que está sendo desmontada pausadamente pelos advogados de defesa, alguns até de forma primária. Mas nenhuma defesa foi mais terrível que a de Luiz Gushiken, do advogado Luis Justiniano de Arantes Fernandes, que de forma até pouco extravagante, com pouca retórica, mostrou a real natureza da ação 470, um espetáculo político tal como foi a Carta Brandi. Nada mais. Simplesmente os procuradores Antônio Fernando de Souza e o atual Roberto Gurgel surrupiaram peça dos autos. 
      Nada mais há a dizer e fazer senão continuar tocar a vida e ir trabalhar, como faz aquela grande quantidade de lutadores que vejo aqui da minha janela desembarcar na Central do Brasil, absolutamente desligada desta farsa e preocupada com a sua difícil luta pela sobrevivência.
      Se observarmos pelo lado humano o sofrimento imposto a Gushiken pode ter se somatizado de tal forma a deixá-lo hoje neste estado de saúde.
     Se observarmos pelo lado jurídico, simplesmente o próprio procurador contaminou os autos e desmereceu a ação, ao negar acesso a documentos de defesa e mesmo retirar o laudo da Visanet. 
Resta agora esperar pelo pronunciamento da côrte suprema e seguir o exemplo dos anônimos lutadores aqui da Central do Brasil.