quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Os insatisfeitos

Desde o Carnaval deste ano que não consigo externar uma opinião acerca da nossa situação como país. Afora uma pandemia que nos imobiliza deixando até de contratar serviços caseiros e de reparos, o que nos obriga a fazê-los, confesso que me sinto imobilizado mais por incapacidade de compreender a natureza profunda desta nossa situação, mais do que os empecilhos. 

No entanto, percebo claramente que o desenrolar dos fatos que se sucedem desde há sete anos (2013) foram cuidadosa e profissionalmente plenamente planejados, por quem de interesse, apoiados por trânsfugas que se prestaram a este serviço, ou por ignorância, ou por interesse financeiro, ou por ódio, ou por puro “malcaratismo” mesmo.

A imagem de 2009 que me ocorre simbolicamente revela as causas desta desconstrução a que assistimos do Estado Brasileiro, e que repito abaixo, se associa a participação do Brasil nos BRICS, o que oportunizou uma comunicação minha a Presidente Dilma Roussef, alertando das possíveis consequências geopolíticas por parte dos Estados Unidos. Já que seus interesses de domínio geopolítico e sua doutrina de controle da América Latina estavam sim sendo ameaçados pela liderança brasileira e pela “insubordinação” de Evo Morales, de Chaves e de Kirchner.

Ser reconhecido pelo editor na condição de “estar decolando” como país industrializado, ainda que muito pouco, mas dando os primeiros passos na direção para alcançá-la através da educação, alertou a inteligência americana. O Pré-Sal oportunizaria fazer tal decolagem. Urgia então planejar esta desconstrução. Toda a máquina burocrática da inteligência americana, que já estava empenhada desde 2005 com “mensalão” neste projeto de desconstrução, que envolvia desde a aplicação de recursos locais de comunicação de massa, notadamente a Rede Globo, a participação do Judiciário se orientou na remoção da esquerda do poder. Até então não se cogitava da aplicação direta das Forças Armadas. Mas se viu obrigada a utilizá-la, já que pela via eleitoral parecia impossível. Um projeto foi então meticulosamente elaborado, utilizando-se todos os recursos locais disponíveis no inventário da classe aburguesada que há muito se envergonhava (há controvérsias) de ter apoiado torturadores, estupradores e assemelhados. Avaliou-se qual o maior “armamento” que dispunha então o governo petista para fazer frente ao esgotamento de recursos que lhes impunha o Legislativo e o Judiciário: Petrobrás. 

Daí em diante todos, inclusive o mais ardoroso direitista, sabemos o desenrolar. Construiu-se um deus, com pés de barro é claro, para poder dele se desvencilhar quando necessário, que, como juiz, faria o papel de acusador, investigador, e tudo mais. Dele se toleraria tudo, até as mais torpes manobras, pois era o instrumento que seria utilizado para, após aplicar o golpe parlamentar, tal como se perpetrara no Paraguai, impedir o retorno petista ao poder. Bastava encenar o ato final desta “ópera bufa”: utilizar as forças armadas para garantir, através de GLO (medida criada aos tempos do Governo Dilma) possíveis rebeldias. 

Tudo profissional, bem planejado, mas como soe as ações que envolvem banditismo, os partícipes acabam por se desentender, já que o moto de cada um destes implica na eliminação de seu concorrente pelo poder Eis então o quadro que se apresenta, emoldurado por uma pandemia que imobiliza protestos e neutraliza reações: desgoverno e desorganização do Estado.

Mas … E se vier a vacina e todos se sentirem seguros de ir para as ruas?

E, se por processos intrínsecos à bioquímica do vírus, a pandemia arrefecer? O que me parece improvável até 2022.

E se? Incluindo aí uma “virada” no governo americano.

E se...os militares brasileiros, por algum motivo esotérico, se sentirem envergonhados por terem sido usados nesta patranha contra o Estado Soberano?

Haverá muitas condicionantes, mas uma coisa é certa: arrefecida a pandemia a reação natural a esta sandice irá se desencadear, pois o nível de destruição que se aproxima é imenso.

No entanto, por maior que seja o desastre, estaremos inseridos no cenário global e a mudança em uma variável modifica o estado deste sistema complexo e imenso; tanto em direção a sobrevivência, quanto em direção a destruição.  Nestes últimos dez mil anos uma tem prevalecido, apesar de muitos impérios terem desaparecidos e muitas nações já nem existirem mais, apesar de milhões sucumbirem nas guerras insufladas por poderosos, apesar da impotência biológica diante de um agente micrométrico: a desesperada necessidade de sobreviver aliada ao progresso impulsionado pelos insatisfeitos.


Chego cedo ao trabalho, exatamente para poder ler com calma e decifrar o que a mídia, os blogs e os e-mails que faz parte minimamente da obrigação de se manter informado; senão, "atualizado das fofocas", diria minha saudosa sogra. 
Como chego bem cedo encontro a equipe da limpeza das salas aqui da Secretaria de Segurança, quase na sua totalidade composta por senhoras; o quadro masculino serve aos serviços mais pesados. Pois bem, por aqui trabalha uma senhora, ou senhorita não sei bem, de nacionalidade espanhola. Chegou aqui há uns dois anos e conseguiu ir morar lá em Piabetá, Distrito de Magé ( ou de Caxias ? Não sei ao certo ). Sincronizada comigo ela chega, assim como as outras, lá pelas sete horas, ou mesmo antes. Depende do trem. 
Esta senhora  veio fugida do desemprego desde lá do Reino de Espanya, já que é catalã de Girona e mais precisamente, disse ela, da fome.

Já instalada em Piabetá, que fica na distante periferia da nossa metrópole, disse-me ela que passou a ter um  "esmozar" logo de manhã, um "dinar" lá pelas dez horas, um "almuerzo", um "entrepá" as quatro da tarde, e em casa, um "sopar". Chamou-me atenção que tanto no almoço e no jantar ela mencionava enfática que havia carne, ou peixe, ou frango, quase sempre.

Pois bem, já fazem uns meses ela trouxe a avó lá da cidadezinha de Taradell para Piabetá. A razão desta, até triste, mas salvadora migração: - esta senhora de 86 anos comia apenas um "rotllo" por dia. Ou seja, um paõzinho apenas. Essa dieta de campo de concentração foi graças a salvadora ( para os bancos? ) política desde Madrid que condenou os trabalhadores a fome e ao desemprego. E agora mais ainda ao despejo de suas casas.

Esta senhora me relatou a situação precária de seus compatriotas que, para se intitularem europeus, pagam um preço irreal, desnecessário e imoral. Em condições típicas dizer que sair da Espanha, Girona, para Piabetá é um fato isolado que não representaria a realidade espanhola e mesmo européia. Posso dizer que Poisson me auxiliaria a provar que, exatamente, por este fato está aí representada a mais rasa e suja realidade: a submissão ao capital especulativo, que viveu e fez viver a fantasia do dinheiro fácil, à custa de antípodas asiáticos, africanos, latino-americanos que drenaram as suas riquezas em direção a Europa e ao EUA.

São os mesmos que botaram a Espanha de  joelhos, juntamente a Grécia, Irlanda, Portugal, Islândia e agora Itália (dentre vários), que apregoam medidas financeiras irresponsáveis cuja única meta é abarrotar ainda mais o baú de especuladores. Será que não cabe na cabeça de uns inocentes úteis daqui de nossas plagas que, seguindo este caminho, estaremos todos nós comendo apenas um "rotllo" por dia? E que teremos vergonha de lembrar que fomos capazes um dia de prover ao pobre viajor emigrante as refeições que lhe negaram na terra natal ?  

É exatamente o que está agora movendo as manchetes da nossa mídia, alugada para este fim:  enganar. Faz-me lembrar aquela historinha do Chapeuzinho Vermelho ( nenhuma alusão ao "barrete frígio" ):

- Por que este juro tão grande vovozinha?
- Pra conter a inflação Chapeuzinho
- Por que este desemprego tão alto vovozinha? 
- Pra conter a inflação Chapeuzinho.
- Pra que esta dependência tão grande ao capital internacional vovozinha?
- Pra te comer melhor Chapeuzinho. Será que não percebe? Garota burra e ingênua.

A minha companheira de trabalho espanhola serve como prova viva que não é um fenômeno raro e que, exatamente por estar aqui em Piabetá, serve como prova estatística. Esta companheira não é nem burra nem ingênua: salvou a sua vida e de sua avó, e sabe muito bem diferir o que é ilusionismo capitalista e realidade produtiva.  Varre todas estas salas para prover quatro refeições por dia a sua família.
Disse para mim semana passada, até com certa tristeza por não podê-lo: "Si jo vaig votar, vot en Dilma" 
    

Injustiça e mérito

Nem precisa ser um bacharel, advogado, ou amanuense, (ou coisa assim), para perceber o que jaz na formação de alguns juízes. 

Há muito se propaga a ideia de meritocracia como meio de se alcançar o bem estar e a justiça social, a democracia. Nada mais retrógrado, senão o pensamento em voga e vigente nos séculos XVII e IXX, como aparece na crítica de Pierre Rosanvallon em "A Sociedade dos Iguais",. Lá o autor cita: ...

"O grande sociólogo britânico Michael Young foi o primeiro a falar nos anos 60 da meritocracia, que é um velho ideal dos séculos XVIII e XIX. Young definia como um pesadelo todo país que fosse governador pela meritocracia. E é um pesadelo porque, neste caso, ninguém teria direito a protestar contra as diferenças. Se todas as diferenças estão fundadas sobre o mérito, aquele tem uma condição inferior a tem por culpa própria. Trata-se então de uma sociedade onde a crítica social não teria mais lugar."  

Se alguns juízes, chegassem ao mínimo de reflexão não estariam à cometer as mais rasas e absurdas injustiças e ilegalidades. Isto porque não lhes é cobrada pela sociedade a ponderação e o interesse coletivo, ideia mãe de democracia. 

Pois aí está o Sr. Marcelo Odebrecht preso há mais de quatro meses, por um juiz, concursado por certo, ocupando um cargo "de mérito" sem dar satisfação qualquer a nenhuma instância de direito ou saber superior.
Que meritocracia é esta ? Hipócrita e burra. O juiz, à seu talante, joga na prisão quem lhe parece suspeito ?  Baseado em uma delação premiada (oxímoro mais do que óbvio) ? 

O Almirante Othon lá está aguardando a boa vontade do juiz. Fartas e sobejas provas revelam outros interesses mais amplos e universais por trás da prisão do Almirante, que nada têm à ver com com propina.

Deu no que deu, acharmos que poderíamos fazer justiça fazendo ocupar postos importantes da administração pública pessoas cujo mérito era medido por apenas uma prova.  A prova de conhecimento imediato é necessária ? Claro que é. Mas não haver qualquer aferição do postulador ao cargo sobre seus conhecimentos sociais, suas intenções, seus discursos, é primário, infantil. 
Não gosto de fazer comparações externas, mas tenho que citar os Estados Unidos, onde xerife de polícia é escolhido em eleição. 

Voltando ao assunto do empresário e do almirante; até onde vai e quando irá parar esta sandice ?

Parece que por não mais serem motivos de manchetes estão lá os dois à apodrecer na prisão e o senhor juiz flanando por aí, dizendo um monte de sandices, dando declarações estapafúrdias ( que nem meu filho estagiário de direito diria ). 

Temos que cobrar uma solução para estes absurdos que a meritocracia criou.
Se não, ...interesses escusos

Sugiro a leitura do artigo de Samuel Pinheiro Guimarães :   
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20592
Nela, sua análise sempre plena e lúcida, traz à tona o problema crescente e crônico da desindustrialização.
Nem querendo corrigir, mesmo não conseguiria, nem querendo adicionar, gostaria de aproveitar o espaço crítico aberto pelo nosso insígne diplomata para colocar uma questão que acho pertinente e componente desta nossa "patologia": não temos coletivamente o propósito da produção própria. Se fôssemos traduzir, diria esta ausência remonta à escravidão que acabou envenenando nossa alma.
É, terminou; terminou após um mês de jogo de futebol quase todo dia.
Na sua maior parte, na classificação, foram três jogos por dia.
Para mim, que não sou fanático por futebol, foi até muito. Mas
confesso que já sinto saudades da Copa. Não dos jogos que assisti pela
televisão, alguns até em trechos de gravações à posteriori, mas da
Festa.
No bairro onde moro, onde há muitos albergues e hospedagens, o que
mais via eram torcedores e torcedoras jovens de várias nacionalidades.
E como jovens que eram, bonitos. Parecia uma Torre de Babel, ouvia-se
alemão, espanhol de diversos sotaques, bósnio, francês, inglês e até
uns mais velhos que falavam welsh, galês.
Ouvi outros idiomas que não faço ideia de quais sejam.
Foi uma verdadeira festa e posso dizer do fundo do coração: não ha
preço que pague. É como você fazer uma festa na sua casa e esta ser
muito concorrida. Nos enche de encanto, quanto mais, cheia de meninas
jovens lindas.
Festa é sempre bom.
Bom até para aqueles, que oprimidos, se alegram com esta comemoração,
um simples jogo de futebol.
Está até nas Escrituras, Provérbios 15:15 "Todos os dias do oprimido
são maus, mas o coração alegre é um banquete contínuo". É por esta
razão que a festa alegrou meu coração, independentemente dos custos e
dos ganhos, que afinal foram enormes. O mais importante foi este ganho
imaterial da alegria, mesmo com derrotas.
Afinal fomos solidários com os demais (29) vinte e nove países. Os
outros três se alegraram na comemoração dos jogos: Alemanha, Argentina
e Holanda. Nós e mais vinte nove não tivemos a mesma sorte, por razões
mais variadas, algumas até indizíveis, mas a alegria de receber foi
somente nossa.
No entanto após ouvir as mais variadas opiniões de entendidos de
futebol (derrotados, mas continuam entendidos) que sabem explicar a
derrota, fico buscando em outro extremo a causa de tamanho sucesso do
certame. Não faltou avião, não faltou hotel, não faltou ordem, não
faltou telecomunicação. Só faltou futebol brasileiro, mas de resto
todo mundo viu a grandiosidade de estádios e do espetáculo. A causa do
sucesso, qual seria?
Temos que lembrar também que houve quem destoasse, palavrões,
xingamentos, cambismo, mas realmente não chegou a arranhar a imagem  e
o bonito.
Qual seria a causa de tamanho sucesso?
Ah, simples: simplesmente o povo quis.
Muitos nem perceberam, tão longe que estão do Povo e da realidade.
Chego cedo ao trabalho, exatamente para poder ler com calma e decifrar o que a mídia, os blogs e os e-mails que faz parte minimamente da obrigação de se manter informado; senão, "atualizado das fofocas", diria minha saudosa sogra. 
Como chego bem cedo encontro a equipe da limpeza das salas aqui da Secretaria de Segurança, quase na sua totalidade composta por senhoras; o quadro masculino serve aos serviços mais pesados. Pois bem, por aqui trabalha uma senhora, ou senhorita não sei bem, de nacionalidade espanhola. Chegou aqui há uns dois anos e conseguiu ir morar lá em Piabetá, Distrito de Magé ( ou de Caxias ? Não sei ao certo ). Sincronizada comigo ela chega, assim como as outras, lá pelas sete horas, ou mesmo antes. Depende do trem. 
Esta senhora  veio fugida do desemprego desde lá do Reino de Espanya, já que é catalã de Girona e mais precisamente, disse ela, da fome.

Já instalada em Piabetá, que fica na distante periferia da nossa metrópole, disse-me ela que passou a ter um  "esmozar" logo de manhã, um "dinar" lá pelas dez horas, um "almuerzo", um "entrepá" as quatro da tarde, e em casa, um "sopar". Chamou-me atenção que tanto no almoço e no jantar ela mencionava enfática que havia carne, ou peixe, ou frango, quase sempre.

Pois bem, já fazem uns meses ela trouxe a avó lá da cidadezinha de Taradell para Piabetá. A razão desta, até triste, mas salvadora migração: - esta senhora de 86 anos comia apenas um "rotllo" por dia. Ou seja, um paõzinho apenas. Essa dieta de campo de concentração foi graças a salvadora ( para os bancos? ) política desde Madrid que condenou os trabalhadores a fome e ao desemprego. E agora mais ainda ao despejo de suas casas.

Esta senhora me relatou a situação precária de seus compatriotas que, para se intitularem europeus, pagam um preço irreal, desnecessário e imoral. Em condições típicas dizer que sair da Espanha, Girona, para Piabetá é um fato isolado que não representaria a realidade espanhola e mesmo européia. Posso dizer que Poisson me auxiliaria a provar que, exatamente, por este fato está aí representada a mais rasa e suja realidade: a submissão ao capital especulativo, que viveu e fez viver a fantasia do dinheiro fácil, à custa de antípodas asiáticos, africanos, latino-americanos que drenaram as suas riquezas em direção a Europa e ao EUA.

São os mesmos que botaram a Espanha de  joelhos, juntamente a Grécia, Irlanda, Portugal, Islândia e agora Itália (dentre vários), que apregoam medidas financeiras irresponsáveis cuja única meta é abarrotar ainda mais o baú de especuladores. Será que não cabe na cabeça de uns inocentes úteis daqui de nossas plagas que, seguindo este caminho, estaremos todos nós comendo apenas um "rotllo" por dia? E que teremos vergonha de lembrar que fomos capazes um dia de prover ao pobre viajor emigrante as refeições que lhe negaram na terra natal ?  

É exatamente o que está agora movendo as manchetes da nossa mídia, alugada para este fim:  enganar. Faz-me lembrar aquela historinha do Chapeuzinho Vermelho ( nenhuma alusão ao "barrete frígio" ):

- Por que este juro tão grande vovozinha?
- Pra conter a inflação Chapeuzinho
- Por que este desemprego tão alto vovozinha? 
- Pra conter a inflação Chapeuzinho.
- Pra que esta dependência tão grande ao capital internacional vovozinha?
- Pra te comer melhor Chapeuzinho. Será que não percebe? Garota burra e ingênua.

A minha companheira de trabalho espanhola serve como prova viva que não é um fenômeno raro e que, exatamente por estar aqui em Piabetá, serve como prova estatística. Esta companheira não é nem burra nem ingênua: salvou a sua vida e de sua avó, e sabe muito bem diferir o que é ilusionismo capitalista e realidade produtiva.  Varre todas estas salas para prover quatro refeições por dia a sua família.
Disse para mim semana passada, até com certa tristeza por não podê-lo: "Si jo vaig votar, vot en Dilma" 
    

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Olha onde nos metemos


Tomei a liberdade de replicar e reformatar, na cara dura mesmo, o artigo do Luis Nassif  "Xadrez do golpe de Bolsonaro a caminho, capítulo 2", de 02/02/2020, por Luis Nassif. 
Tomei esta liberdade motivado pela urgência que este artigo suscita para que se tome medidas que faça retornar o caminho da soberania. Se não por parte das instituições mencionadas no último parágrafo, por parte do próprio povo. Não sei ainda de que forma, mas tomando a iniciativa de interromper este processo de destruição da Nação. A depender da mídia, de algumas instituições e daquelas mencionadas, tenho lá minhas dúvidas.
Reproduzo então o artigo e, ao final, farei algumas considerações adicionais.


No dia 8 de maio de 2019, a estratégia era tão explícita que relatei no “Xadrez do golpe de Bolsonaro a caminho“.

A matéria principal de O Globo de hoje, “Atiradores compraram tanta munição de tiro quanto as forças de segurança” reflete apenas um ano de governo Bolsonaro. E mostra como estão sendo armadas suas milícias e grupos aliados, como clubes de atiradores e forças de segurançaprivadas.

Dados obtidos pelo Instituto Sou da Paz, com base na Lei de Acesso à Informação mostram:

  • Os atiradores civis compraram em 2019, pela primeira vez, a mesma quantidade que as forças de segurança pública: cerca de 32 milhões de projéteis.
  • O volume comprado pelo grupo ainda superou em 143% o quantitativo de munições que o Exército informou ter adquirido (13,2 milhões) no ano passado.
  • De 2018 para 2019, as compras diretas dos atiradores subiram 17,2%, enquanto o número de projéteis adquiridos pelos órgãos de segurança pública, incluindo as secretarias de gestão prisional, caiu 14,8%.
Em nenhum momento, Bolsonaro disfarçou seus objetivos, por trás do armamento da população. No dia 15 de junho de 2019, em evento militar no Rio grande do Sul, foi explícito:
— Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós.
Repito que tentei explicar na época.


Peça 1 – O fator Olavo de Carvalho

Depois das últimas escaramuças, não resta dúvida de que a alma do governo Jair Bolsonaro são seus filhos Carlos e Eduardo. E, por trás de ambos, Olavo de Carvalho. Conforme foi possível conferir ao longo desses meses iniciais, todas as loucuras ditas por Olavo e pelos filhos de Bolsonaro têm consequências políticas. Não são meramente bazófias e grosserias. Têm que ser interpretadas ao pé da letra.
Três opiniões relevantes para compor essa primeira peça


A opinião de Olavo sobre os militares
É evidente que, para Olavo, os generais representam o maior empecilho para a guerra final contra o marxismo cultural.

A opinião de Eduardo Bolsonaro sobre o armamento para a população
Em mais de um Twitter, Carlos e Eduardo Bolsonaro deixaram claro que armar a população é condição essencial para a libertação do país. Deram como exemplo os EUA dos pioneiros e a Venezuela da Maduro. Se a população tivesse armas, Maduro não imporia sua ditadura.


A hora do enfrentamento, segundo Olavo
 De todos os tuites de Olavo, o que mais chamou a atenção foi o que ele avisa para deixar para mais tarde a briga com o general Villas-Boas. Quem o avisou foi “o anjo da guarda”. Não é necessário muito tirocínio para intuir quem é o tal de anjo da guarda.
É evidente que o sentido da frase embute a questão da correlação de forças. Mas o que impediria, neste momento, se o próprio Bolsonaro deixou claro que, entre militares e Olavo, fica com Olavo? Certamente não é a correlação de forças políticas dentro do governo Bolsonaro, onde Olavo saiu vitorioso. É a correlação entre o bolsonarismo e as forças externas – incluindo aí, os generais.


Peça 2 – o decreto de Bolsonaro
Portanto, é ingenuidade supor que o decreto de Bolsonaro, ampliando desmedidamente o direito às armas seja mero lobby dos clubes de tiro ou da indústria de armas dos Estados Unidos.
É um posicionamento político para impor-se amparado pelo poder das milícias, dos ruralistas, pelas armas nas mãos de seus seguidores, pelos aliados nas empresas de segurança e, provavelmente, por sua influência junto à média oficialidade das Forças Armadas.
As ligações de Bolsonaro e do PSL com as milícias são óbvias. E há evidências de monta sobre sua proximidade com os mercadores de armas. Dono de um arsenal de 120 armas pesadas, o ex-PM Ronnie Lessa era vizinho de condomínio de Bolsonaro. Ligado a tantos milicianos, colega de tantos ex-militares que vieram dos porões, é impossível que Bolsonaro não soubesse das atividades de Ronnie Lessa

Aqui o primeiro mapa feito mostrando essas ligações.


Peça 3 – as ligações com a indústria de armas dos EUA


No artigo “Xadrez da indústria de armas e o financiamento da direita” mostrei as estreitas ligações entre o lobby das armas e o avanço da ultradireita no mundo. Mostra também a associação dos Bolsonaro com a NRA, a associação dos fabricantes de rifles dos EUA.

Dizia a matéria;

No dia 10 de novembro de 2018, o site da America´s 1st Freedom, da NRA, dizia (https://goo.gl/F7mkKV): “Tiremos o chapéu para Bolsonaro por ver a situação pelo que realmente é”.

Um ano antes, em 2017, Jair e Eduardo Bolsonaro foram recebido com todas as regalias pela NRA, conforme reportagem da Bloomberg (https://goo.gl/KWcMhy):

“Enquanto estavam lá, eles experimentaram uma AK-47 e outras armas de assalto. Depois, Eduardo, vestindo uma camiseta “F — ISIS”, segurou cartuchos de grande calibre para a câmera e expressou consternação por eles poderem “ter um problema” se tentassem trazer a munição para o Brasil.”

Quando entrou em crise, depois de ter defendido o armamento para a população dias antes da chacina e ela passou a ser alvo generalizado de críticas, inclusive do prefeto de Nova York, a saída foi invocar Deus:
A reação da NRA veio através de seu líder, Wayne LaPierre, alertando contra uma “agenda socialista” por trás das campanhas contra o desarmamento. E dizendo que o direito às armas “é garantido por Deus a todos os americanos como direito de nascença” (https://goo.gl/QKwpaa).

A atuação política da NRA é fundamentalmente contra as instituições, das quais a mais visada é a imprensa.

Peça 4 – o fator Wilson Witzel

O governador carioca Wilson Witzel está claramente preparando sua polícia – civil e militar – para a guerra. Pode-se supor que seja contra as organizações criminosas adversárias das milícias. O que aconteceria com essa estrutura armada, caso o bolsonarismo decidisse peitar a hierarquia das Forças Armadas?

É mais uma evidência do posicionamento dos bolsonaristas.

Peça 5 – o caos que se avizinha

Não há a menor possibilidade da economia melhorar. A equipe econômica conduzida pelos  inenarráveis Paulo Guedes e Mansueto de Almeida, parecem determinados a inviabilizar o país, a pretexto de cumprir a Lei do Teto. E sempre com a promessa impossível de que tudo irá melhorar, em um passe de mágica, se for aprovada a reforma da Previdência.


Todas as medidas tomadas parecem ter o intuito de promover a reação da população. Pode ser mera miopia política, de economistas desvairados, pode ser a busca do álibi para o confronto final contra o tal do “marxismo”, que os bolsonaristas vêem até nas Forças Armadas.

De qualquer modo, a cada dia que passa o desalento será maior, assim como a corrosão na popularidade de Bolsonaro. Isso explica a pressa em acelerar providências, a pretexto de recuperar o contato com a base.

O país corre o mais sério risco da sua história, de ser efetivamente controlado por organizações criminosas. Seria relevante que caísse a ficha das instituições – STF (Supremo Tribunal Federal), Forças Armadas e Congresso, antes que seja tarde.

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No momento que iniciava a escrever considerações sobre a urgência de agirmos contra medidas de graves consequências, ( até contra  entrega do SERPRO e da DATAPREV, que contém dados sigilosos sobre todos os cidadãos brasileiros que, juntamente o livre curso de milícias, poria em risco de vida aqueles que estão no serviço da segurança pública ), eis que chega a notícia da morte do capitão Adriano, suspeito do assassinato de Marielle Franco, em operação da Polícia Civil na Bahia. Haverá desdobamentos dessa notícia, e mesmo mudança de curso nas investigações do assassinato de Marielle, suspeitas de queima-de-arquivo aparecerão, e mais implicações dos filhos do presidente. Nada mais há a se justificar da cobrança de urgência. As considerações sobre a liberação de armas já estão mais do que obviamente implícitas.