sexta-feira, 1 de junho de 2012

Produzido no Brasil

     Boas novas, mesmo em meio a tentativa de desmoralizar CPI, STF e tudo que possa vir desmontar o  tenebroso tripé "imprensa-parlamentar-contraventor", o que está sobejamente sendo demonstrado por estes mesmos partícipes do tripé, em suas manifestações e agora pela atropelada trapalhada do Gilmar; não aquele goleiro da Copa de 58, não, pode parecer loucura. Mas não é não, é um ministro do Supremo mesmo. Inacreditável, mas é. 
     Em meio a isso tudo, ouço o Governo editar a medida de aumento da alíquota de importados, ar-condicionado, moto e demais itens, adicionando-se ainda bebidas e refrigerantes. Ou seja, diante do cenário econômico (por que o político está sendo propositalmente avacalhado pela mídia amestrada) atual, urge a proteção ao "Produzido no Brasil" (aceito Made-in-Brazil), ao mesmo tempo que se compense a carga tributária dos de consumo postergável e dos supérfluos. 
     Medidas de caráter fiscal e econômico são benvindas e inclua-se nestas, a renúncia fiscal de itens de alto teor tecnológico, que ainda necessitam ser aplicadas. Juntamente a estas medidas se exige também a preferência pelo nacional nas encomendas dos Governos  Federal, Estadual e Municipal. A legislação atual ainda não está adequada, apesar dos avanços. Mas entendo que é urgente  adequá-la as novas exigências advindas desta nossa nova posição no "teatro-de-operações". 
     Pouco adianta se avançar em Educação e Saúde se não houver a continuidade e a resultante de pleno emprego e  independência econômica, porque é tecnológica já está demonstrado. Exportar "commodities" sim, serve para fazer o caixa necessário ao investimento social e tecnológico. 
     Quanto a justiça social? Bom, esta virá e afirmo, por bem ou por mal. A história tem contado nos seus múltiplos exemplos. Não pensem os detratores da nacionalidade e da soberania que sairá barato a sua notória ação corrosiva. O Povo já percebe as manobras e as inverdades que criam, pois faz parte da sua lenta ou rápida evolução. 
     Já tenho de vida e de experiência o conhecimento e testemunho para afirmar que 1954 já está longe no tempo e no efeito, mas presente no inconsciente coletivo. O espaço para a detração e destruição da auto-estima está se estreitando; ainda falta o saneamento de vários poderes nas diferentes esferas. Ainda que influenciado ainda por diabólicos formadores de opinião, pouco à pouco a verdade vai emergindo no consciente de quem trabalha e sonha por um Brasil melhor. O caminho para realizar este sonho passa pela justiça, pelo pleno emprego  e pela independência cultural, científica e tecnológica. Espero que mesmo o sonho seja "Produzido no Brasil".  

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Industrialização

Transcrevo aqui, dado a sua precisão, o artigo do Prof. Adriano Benayon, retirado de www.algoadizer.com.br ( jornal eletrônico o qual conclamo a leitura ) mas faço posteriormente alguns comentários, junto ao que postei neste mesmo jornal eletrônico. Eis o artigo, e logo após os comentários.

Tecnologia, desenvolvimento e ilusões

Por Adriano Benayon


No momento em que surgem novos avanços na nanotecnologia e na criação de materiais, como o grafeno, é fundamental compreender a interação da tecnologia com o desenvolvimento econômico e social. 
2. Indispensável afastar ilusões, pois não há algo de que se fale tanto e de que se entenda tão pouco como essa interação. Mesmo os  que trabalham em  inovar com produtos e processos não têm, na maioria, a percepção de como um país se desenvolve através da  tecnologia.
3. Na teoria econômica, ela é vista como progresso técnico e elemento externo à função de produção, na qual entram os fatores: recursos naturais, trabalho e capital (conjunto de máquinas, instrumentos e materiais utilizados na produção).
4. Alguns autores assinalam o papel da tecnologia como fator organizativo, que determina a composição e a proporção dos fatores de produção.
5. Os que exercem poder sobre o capital, privado ou  público, escolhem a tecnologia a ser adotada.  Para isso, baseiam-se, de um lado, no que os técnicos criam e, de outro, nas estratégias de mercado e/ou nos objetivos da política econômica. Os criadores de tecnologias as desenvolvem em função de suas ideias e do que lhes é demandado por parte dos que comandam o capital.
6. Fator invisível, mas concreto, da produção, a tecnologia decorre do trabalho, pois é gente que a produz: engenheiros, técnicos, artesãos (como nos primeiros séculos da industrialização) ou operários.
7. Por outro lado, tendo valor — e muito, do ponto de vista do mercado e em termos monetários — a tecnologia é quase sempre apropriada pelos detentores do capital, podendo a mais-valia ser especialmente elevada.
8. De resto, o ordenamento jurídico da propriedade industrial está no Acordo TRIPS (Trade Related Intellectual Property Rights) da Organização Mundial do Comércio (OMC), aprovado no Brasil, no final de 1994.
9. Esse acordo protege, muito mais que os direitos dos inventores, as corporações transnacionais. É instrumento da oligarquia para aprofundar o apartheid tecnológico, impedindo a absorção de tecnologia por países e empresas de menor desenvolvimento.
10. A lesão ao desenvolvimento tecnológico do País foi reforçada com a Lei de Propriedade Industrial, 9.279/1996, enviesada em favor das empresas transnacionais, que controlam os mercados no Brasil.
11. Essas legislações inserem-se no salto qualitativo do crescimento da concentração do poder sob o império anglo-americano, em seguida ao desmantelamento da União Soviética. Foi assim radicalizada a apropriação da tecnologia pelos concentradores transnacionais do poder econômico.
12 Se, antes de 1990, já prevalecia o comando do capitalismo — por definição, concentrador — sobre os benefícios e os rendimentos monetários advindos da tecnologia, esta passou, desde então, a ser cada vez mais amplamente expropriada do Estado, dos empresários médios e pequenos, bem como dos técnicos e demais trabalhadores.
13. Tal como os demais bens suscetíveis de serem públicos, ou de — embora privados — beneficiarem o conjunto da sociedade, a tecnologia vem sendo objeto da privatização concentradora.
14. E o que  isso tem a ver com a desindustrialização do Brasil, com o baixo percentual de empregos de qualidade, com as infra-estruturas econômica e social mal construídas e deterioradas? E com o enorme déficit nas transações correntes com o exterior, o qual não arrefece nem com a redução da demanda, como foi em 2011?
15. Ora,  o Brasil, após agosto de 1954, foi sendo inviabilizado em termos de desenvolvimento econômico e social, ao ter continuadamente subsidiado a ocupação do mercado por empresas transnacionais. Com esse tipo de ocupação, não se desenvolvem tecnologias nacionais, pois raras são as empresas de capital nacional que subsistem no mercado.
16. Aí reside um ponto-chave: tecnologia capaz de alavancar o desenvolvimento só cresce dentro de empresas em competição nos mercados. Entretanto, domina, na opinião comum, a falsa  concepção de que o Brasil está atrasado tecnologicamente porque investe pouco em educação, ciência, pesquisa básica e tecnologia.
17. É verdade que investe relativamente pouco. Mas o grave mesmo é que, desse pouco, quase nada resulta em proveito da economia do País. Por que? Porque não há empresas nacionais evoluindo com progressos tecnológicos próprios. Elas simplesmente ficaram sem chance de permanecer no mercado ou de nele entrar, salvo em raros e passageiros nichos, logo apropriados pelos concentradores, principalmente transnacionais.
18. Poderíamos comparar a tecnologia aos nutrientes e adubos de uma planta, que seria a empresa produtiva. Ora, se a planta não é nossa, de pouco nos serve alimentá-la.
19. As transnacionais têm seus centros tecnológicos, em geral nas matrizes, e utilizam nas subsidiárias daqui a tecnologia já paga no exterior durante anos de vendas, o que lhes permite custo real zero no Brasil. Não têm, pois, interesse em investir nem em adquirir alguma aqui desenvolvida.
20. Se alguma lhes interessar, quase nada pagarão por ela, porque, controlando o mercado em sistema de oligopólio, impõem os preços e as condições, na qualidade de únicas compradoras. O que fizeram muito foi adquirir empresas nacionais apertadas pela política econômica, que as oprime em favor das ETNs.
21. Esta é a síntese da questão, como expus e documentei no meu livro “Globalização versus Desenvolvimento: Não existe país que se tenha desenvolvido, havendo entregado seu mercado a empresas comandadas por capitais estrangeiros.
22. Portanto, o conceito de “transferência de tecnologia” no Brasil só tem sentido na direção inversa àquela em que costumam falar dele: de brasileiros para as transnacionais dos países ditos desenvolvidos, ao contrário do que acontece(u) nos países realmente em desenvolvimento.
23. Agradeço ao Prof. Weber de Figueiredo, da UFRJ, por me ter transmitido  um exemplo típico da ilusão “desenvolvimentista” fomentada  por JK:  a eliminação de mais um projeto de indústria nacional, a Romisetta.
24.  Figueiredo assim resumiu informações de Fernando Campanholo sobre esse veículo  produzido pela Romi, empresa brasileira de Santa Bárbara do Oeste (SP), de 1956 a 1959:
O governo JK abriu linha de financiamento subsidiado destinado às multinacionais de automóveis que se estavam instalando no Brasil. A nacional Romi também pleiteou o financiamento, deixando os burocratas embaraçados, pois o financiamento fora pensado apenas para as multinacionais. Mas uma solução engenhosa foi encontrada. O governo baixou uma portaria definindo que automóvel é o veículo que tem dois bancos, o dianteiro e o traseiro! E, assim, a brasileira Romi foi jogada para escanteio, ficando fora do financiamento oficial, falindo a sua linha automotiva.”
25. A Romisetta era um carro leve, de um só banco. Mas o importante é começar a produzir para o mercado, o primeiro passo para evoluir em tecnologia. Não importa não ser de primeira linha.
26. O Fusca da VW chegou a mais de 50% do mercado, dominou-o por mais de vinte anos e pouco evoluiu. Fora desenvolvido nos anos 1930, e a VW  ganhou o incrível subsídio, dado às multinacionais,  em 1954,  de registrar como investimento em moeda, o equipamento e tecnologia de produção, então mais do que amortizados. Portanto, custo zero para o capital e a tecnologia. Além disso, com JK, mais subsídios, como o financiamento oficial.
27. Campanholo conclui: “A fabricação de 3.000 unidades no Brasil no período de 1956 até 1961, principalmente comparados às 22.543 Isettas-BMW fabricadas somente em 1956 pela Alemanha, fica como triste lembrança de quanto nós estamos suscetíveis e passivos aos mandos e desmandos do capital estrangeiro. Até hoje.”
28. Resultado: as transnacionais, que ficaram com o mercado brasileiro de graça, continuam recebendo subsídios e remetendo centenas de bilhões de dólares para o exterior, a diversos títulos. Isso significa descapitalizar o País.
29. O Brasil foi programado pelo império anglo-americano para ser uma área de exploração de recursos naturais, em condição semelhante à maioria dos países africanos, submetidos ao mesmo tipo de intervenção. Além disso, em base de lucros provenientes também da indústria, controlada pelas transnacionais.
30. Foram elementos-chave da estratégia para que esse programa tenha sido realizado a pleno contento das potências imperiais e associadas: 1) a intervenção política e militar diretamente junto aos governos brasileiros; 2) a intervenção do dinheiro e da corrupção nas eleições, no sistema formalmente democrático; 3) o genocídio cultural; 4) o fomento da crença em que a entrada do capital estrangeiro favorece o desenvolvimento, complementa a poupança nacional, e em outras falácias.
31. Os entreguistas, culminando com os mega-entreguistas Collor e FHC, radicalizaram  a aplicação dessa fé bizarra e fatal. Foram muito além da simples abertura ao comércio: fizeram o Estado brasileiro subsidiar os investimentos diretos estrangeiros, de forma inacreditável, e discriminar contra o capital nacional.
32.  O Brasil não deixará de ser um país saqueado e enganado pela conversa fiada, enquanto não se reverter, de modo cabal, tudo isso e a mentalidade subjacente.
33. Eis algumas consequências para um país que participa do BRICs e pleiteia assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, só para ser enrolado pela potência dominante:
Dos 25 navios daMarinha de Guerra do Brasil apenas 14 estão em condições de navegar, e dos seus 23 aviões apenas um tem condições de levantar voo. Enquanto isso, a Rússia, a Índia e a China são potências nucleares, detentoras de tecnologia militar de altíssimo nível...”
Não produzimos sequer uma calculadora de bolso, pois falta-nos até fábrica de chips – somos meros montadores de aparelhos eletrônicos.

Adriano Benayon é doutor em economia e autor de "Globalização versus Desenvolvimento" (Escrituras). Contato: abenayon@brturbo.com.br

=======================================================================================
Comentários
 
    Os 33 pontos levantados pelo Dr. Benayon estão corretíssimos ao meu ver. Mesmo não tendo formação econômica, posso testemunhar estes pontos pela experiência, pois como técnico trabalhei em diversas empresas multinacionais e, em apenas uma, pude desenvolver projetos genuínos e inéditos. As demais foram meras repetições e "confeitarias".
    No entanto, discordo do tom fatalista, acho sim que existe a saída, que é a mesma praticada pelos países centrais: o governo tem de privilegiar as nacionais em suas encomendas. E nestas encomendas terá de constar o grau de nacionalidade do projeto. Lembro que já houve nos anos 70 tal exigência; havia um índice mínimo pelo qual a encomenda era regulada, pelo menos na área de eletrônicos e telecomunicações.
    Após a loucura neo-liberal desmontou-se tudo, alienou-se tudo e aí estamos agora sem "chips", sem químicos básicos, mas o mais importante. sem empresas verdadeiramente nacionais dispostas a investir. Tal como a galinha desaprenderam a nidificar.  Tantos anos de especulação lhes ensinaram a não investir na produção; o juro estimulava a usura.
    Mas ainda existe, sim, uma mais importante ação que serve ao propósito soberano: a escolha, praticada pela própria população e pelas empresas, do "Produzido no Brasil". Evidentemente não se exclui o acima mencionado, ou seja, a escolha formal pelas encomendas dos Governos, Federal, Estadual e Municipal, mas se adiciona a pressão "nacionalista" ( esta expressão acabou sendo pejorativa após os vários anos de alienação ). 
     Cabe às associações empresariais, as instituições representativas das indústrias brasileiras, a missão de divulgar uma campanha "escolha sempre produtos brasileiros", pois com as portas escancaradas aos produtos importados, do alfinete ao foguete, e com a população comprando o mais barato, independentemente da qualidade, e da origem, fica difícil gerar margem para investir em novos produtos.
       Mas como síntese, a análise do Dr. Benayon foi plena e suficiente para ampliar o entendimento da situação atual que requer  reação imediata por parte do Governo Federal. Qual a reação?  A resposta será motivo para outras postagens.       
 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Retomar a construção interrompida ( Carta Capital )

21.05.2012 11:00

Foto: Samuel Lorenzetti

A Rede D é um grupo em formação que pretende pensar e colocar em prática “um projeto nacional desenvolvimentista”, com definiu Carlos Lessa. 

Governar um processo aparentemente ingovernável. Esta é a questão de fundo sobre a qual se debruça desde novembro passado a Rede D, um grupo em formação que reúne algumas dezenas de especialistas em desenvolvimento. Em comum, a decisão de pensar e colocar em prática “um projeto nacional desenvolvimentista”, como disse o economista carioca Carlos Lessa no evento de lançamento, com foco na reindustrialização.
Uma árdua tarefa, reconhecem os participantes ao listar as algumas das encrencas postas na mesa: resistências ideológicas e políticas nas universidades, governos e mídia, assim como os poderosos interesses instalados, a começar pelo sistema financeiro nacional e sua histórica aversão ao risco. E, no momento, a difícil tarefa de manter o prumo em meio ao remoinho da crise financeira internacional, a embaralhar todas as cartas, e o fantasma da “primarização” irrevogável da economia brasileira, alimentado pelo boom da soja e do minério de ferro.
Reunidos em Campinas entre os dias 8 e 10 de maio, enfrentaram uma pauta ampla e complexa no seminário “Desenvolvimento e Crise Global: impactos no Brasil e na América Latina”. A maioria dos cerca de 50 experts presentes formada por economistas, alguns sociólogos, cientistas políticos e diplomatas, unidos pela crítica radical à ortodoxia neoclássica. Filiados muitos deles às escolas de economia da Unicamp e UFRJ, alguns desgarrados da FGV-SP e USP, vários de instituições do Estado, como o Itamaraty e o Ipea, e apoio financeiro do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), uma organização social ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. E especialistas da Cepal, o centro de pesquisas latino-americano da ONU sediado no Chile, cuja história está intimamente ligada ao paradigma desenvolvimentista que esgrimam e pretendem ver hegemônicos no País. (A FGV do Rio não foi convidada, muito menos a PUC carioca, ambas inimigas declaradas, apontadas como o “outro” a ser esconjurado, na academia, nos jornais e TVs, enfim mundo afora.)
Um projeto com gás, devido ao crescimento recente da economia brasileira, com distribuição de renda e dólares garantidos pela exportação de commodities. Acossado, contudo, pela nova configuração do capitalismo internacional e a divisão do trabalho dele resultante, com a imbatível concorrência chinesa a se firmar como a “fábrica que restou no planeta”.
O grau zero desse imbróglio localiza-se na voracidade da finança internacional desregulamentada, surgida nos anos 1970 e início dos 80 nos EUA, que resultou em uma montanha de dólares e euros mundo afora, ávidos por bolhas especulativas, segundo comentou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial de CartaCapital. “O fato mais importante dos últimos 30 anos foi o mercado financeiro norte-americano ter atraído fundos da Europa”, afirmou Belluzzo. “Foram esses fluxos de capitais que permitiram aos EUA manter as taxas de juros baixas, o que gerou a primeira bolha (ligada à internet), depois a segunda, no mercado imobiliário, e finalmente esse boom de consumo que observamos. O sentido de determinação é este: do crédito das finanças nos EUA para o gasto norte-americano. Do gasto norte-americano para a geração de déficits (nos EUA). Do déficit para a acumulação de reservas na China. E do gasto da China para o afrouxamento das restrições de balança de pagamentos no Brasil.”
Aí a origem da relativa bonança atual do País, com desemprego baixo e o crescimento acumulado nos últimos anos, com reservas de quase 400 bilhões de dólares. A despeito da barbeiragem eminentemente ortodoxa do BC de Henrique Meirelles, que aumentou os juros logo após o estouro da crise em setembro de 2008, “um erro inacreditável”, segundo a cartilha da Rede D.
Na direção desejada agiu o Ministério da Fazenda de Guido Mantega, ao usar os bancos públicos para contrapor-se à seca de crédito de 2009. E a partir dos bons resultados colhidos, inflar os ânimos das hostes heterodoxas. A eleição de Dilma Rousseff e a escolha de Alexandre Tombini para o BC deram novo alento, que agora os especialistas filiados à “escola campineira” de pensamento econômico, com o argentino Raúl Prebisch e o brasileiro Celso Furtado como patronos, buscam fortalecer.
Professor da UFRJ, Ricardo Bielschowsky chamou atenção para o fato de que as experiências desenvolvimentistas anteriores do País, no período de Getúlio Vargas e na década de 1970, souberam reconhecer as oportunidades. “Agora é a mesma coisa”, diz o economista, “existem no momento três frentes de expansão potencialmente poderosas. São três motores do investimento que estão colocados à nossa frente neste momento: aqueles movidos pelo crescimento com distribuição de renda e foco no consumo de massas, os investimentos em serviços sociais e em atividades baseadas em recursos naturais.”
O desejável, contudo, é ir além. E “governar esse processo”, diz Bielschowsky, de modo a criar uma estratégia de crescimento que renda benefícios à maioria. “A construção de um mercado de consumo de massas já surgiu. A explosão do consumo chinês por alimentos e energia, também. E há uma recuperação do investimento governamental, a começar pela Petrobras. Fica faltando a inovação, que não é uma frente em si mesma, mas é algo transversal, capaz de turbinar esses vetores.”
Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp e coordenador da Rede D, considera que é relevante atentar para a centralidade do Estado nessa trajetória a ser esboçada. “O que move o capitalismo periférico? Certamente não são as mesmas forças que movem o capitalismo central. No caso brasileiro, boa parcela de todo o debate sobre o desenvolvimentismo tinha a ver com superar o desenvolvimento comandado pela demanda externa. É essa a reflexão de Prebisch e Furtado. Eles fizeram um grande esforço para internalizar os fatores dinâmicos do capitalismo. De um certo ponto de vista, esse pode ser o nosso debate novamente. No caso dos capitalismos avançados, é possível pensar nessa forma dinâmica que podemos chamar de desenvolvimento autônomo, o progresso técnico combinado à capacidade de financiamento. Mas no caso da periferia não dá para fazer sem o Estado. Precisamos aprender essa lição.”
Entre os dois polos de desenvolvimento bem sucedidos que se colocam, o chinês e o norte-americano, surge como consenso entre os participantes da rede que nenhuma das opções poderá ser adotada pelo Brasil. “Nem China, nem EUA”, diz Carneiro. “O modelo norte-americano é o do consumo, que supõe renda média alta e instituições capazes de financiar o consumo. É um país que conseguiu crescer nos últimos 20 anos em cima da demanda ampliada pelo crédito. E não podemos ter o padrão chinês, cujo crescimento se deu com base na produção de manufaturas em cima de salários de fome. Depois de 30 anos de crescimento, o salário industrial na China é hoje de 1,1 dólar por hora. No Brasil, um País relativamente pobre, é de 5,3 dólares por hora, cinco vezes mais.”
O “modelo brasileiro” teria de seguir a combinação de três elementos fundamentais, avalia o economista, ecoando o pensamento dos demais participantes do seminário. “Primeiro, precisamos de muito mais mercado interno do que externo. E temos duas grandes frentes de expansão, a distribuição da renda, que pode melhorar bastante, ainda que não se trate de uma força autônoma, mas de algo que aumenta a multiplicação do crescimento. E temos um campo vastíssimo que é a infraestrutura. A infraestrutura brasileira é absolutamente inadequada, defasada. E temos a terceira frente, dos recursos naturais, que vão resolver problemas de divisas e um conjunto de questões que podem ser restritivas ao crescimento.”
Ex-embaixador do Chile no Brasil, o economista Álvaro Diaz, hoje pesquisador-sênior da Cepal lotado em Brasília, considera ainda que o Brasil terá ainda de encarar a herança do período de inflação alta. “As regulações do mercado financeiro foram herdadas de décadas, como no caso da caderneta de poupança, e têm de ser desmontadas. Aí existe uma intensa economia política por trás disso. A construção de coalizões para construir um Estado que se reforme e que possa impulsionar o desenvolvimento é uma questão central. Por exemplo: na América Latina existem 10 países onde a carga tributária é inferior a 15% do PIB. O PIB tem 10%. Como fazer uma política desenvolvimentista com uma carga tributária de 10%? Não dá, isso requer um novo pacto fiscal, o que me parece ter sido uma das contribuições da Cepal nos últimos anos. Esse problema precisa estar no centro das nossas reflexões.”

Produzir no Brasil com urgência.

Tenho este tempo refletido sobre a necessidade premente de se criar a mentalidade de "produzir no Brasil", como uma campanha de conscientização. Talvez tenha sido a negação desta premissa básica, a de se produzir no país, que nos levou à bancarrota, pois não há termo melhor para definir a nossa situação perante ao FMI e os nossos três "default", na época em plena empolgação neo-liberal. Encomendamos plataformas de petróleo, navios, e toda a sorte de bens de capital que podiam perfeitamente ser aqui produzidas. Não havia a premissa política no Estado de se encomendar preferencialmente o produto nacional; que dirá de se estimular o seu projeto e desenvolvimento. Não se gerava mercado interno, logo não havia interesse.
      Realmente os tempos mudaram, mas ainda existem situações que devem ser corrigidos, herança de tempos irresponsáveis. Se não, vejamos os casos concretos.
       A VALE deve ao fisco, ou seja ao Estado, uma quantia simples de trinta e tantos bilhões. Vai ficar por isso mesmo? Lembremo-nos que o Estado tem o recurso da golden-sahre.
      O etanol, concentrada a produção  na mão de poucos, inclusive multinacionais, compromete a política de energia. Há pouco ouvimos a notícia de importação; custa crer que seja realidade. Urge a criação de um organismo, ou empresa, que discipline esta situação mais do que ridícula. Deixada a solução na mão do Ministério da Agricultura sofrerá influência dos pecuaristas e outros que não abrem mão de nada. Deixada à cargo do Ministério de Minas e Energia, se diluirá em meio a interesses maiores da distribuição e produção elétrica. E por final, a obrigatoriedade de compra de produtos de petróleo e o álcool por distribuidores, elimina a possibilidade da compra no pequeno produtor.  O financiamento pelos agentes de governo de uma mini-usina de álcool sairia mais barato que a ridícula importação do produto, além de desenvolver os fabricantes nacionais desta usinas. 
     A importação de automóveis do México, ou de qualquer outro país, já a chega ser também ridícula.
   A encomenda de importados pelas administrações estaduais, estão fora de controle. Vejo casos gritantes no Estado do Rio de Janeiro.
     Ou tomamos a decisão soberana e responsável de proteger e incentivar a produção nacional ou, não demora muito, estaremos fazendo companhia a Grécia e demais estados altamente dependentes da industrialização alheia, pois não foram somente os empréstimos que levaram a esta situação, foi o consumo desordenado e a opção pelo estrangeiro.
      A tarefa do governo urgente, juntamente com que as que estão em curso, é estancar, por um lado, estancar a saída de recursos ( além de pagamento de juros, inclua-se aí turismo e serviços ) e, por outro,  a preferência formal pelo nacional, tal como foi feito com alteração da famigerada Lei 866, herança de tempos da "big-house", ( casa-grande soa mal aos ouvidos sensíveis dos rentistas e outros frouxos ). Aliás, a Presidenta sabe muito bem onde estão entocados os inimigos do Brasil. Cabe agora planejar um combate mais duro, tal como fez e fará com os juros. A faxina torna-se urgente.





       

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Marca de nascença

Mesmo em meio ao atual quadro fumegante de CPMI, Procurador Geral, eleições municipais e outras badalações, temos que abrir espaço para discussão dos assuntos que sempre estarão na ordem do dia: educação, saúde e trabalho. Ao se pensar em trabalho temos de pensar em industrialização. E será  por este caminho de crescimento que alcançaremos a nossa independência econômica e, pela geração de emprego, a justiça social que pereniza as conquistas e sedimenta a independência.
Ocorre que industrialização só se alcança quando as indústrias existentes, através de seu crescimento,   dão base à criação de pequenas e médias indústrias. Para tanto necessitam de mercado; no nosso caso este pode ser conseguido internamente, pois temos espaço territorial, riquezas naturais e uma população que já alcança os duzentos milhões. O que está faltando então? Poderia responder que são outras condições, descontando as dificuldades burocráticas, cartoriais, fiscais à impedir o empreendedorismo. Mas é o próprio empreendedorismo que precisa ser estimulado. Ou melhor não desestimulado, pois estímulo temos logo que saímos da escola, pois todos queremos ser livres. A maioria dos brasileiros nasce com essa marca, com o gene da liberdade. Alguns não têm este gene, já explica Erich Fromm. 
Portanto mãos à obra e vamos incentivar o "Produzido no Brasil", se quiserem também "Made in Brazil".