quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ciência, sabedoria e experiência


I- Complexidade e equilíbrio

Ler o “Pensamento da Complexidade” de Edgar Morin 1(anexo) nos remete a questões práticas tanto no campo da educação, quanto no campo da administração e análise de sistemas. Abordar cada uma destas implicaria no desenvolvimento de um extenso trabalho, o que foge ao escopo deste breve documento. Cabe aqui apenas abordar questões que possam aglutinar conceitos e referências que interessem à reflexão e ao desdobramento do pensamento sobre sistemas complexos.
A partir da percepção que o conhecimento, e mesmo a ciência como sua forma organizada, é extensão de competências e o desdobramento de funções biológicas, sem que isso implique descartar crenças e convicções religiosas, é possível perceber que a busca pelo equilíbrio energético e a eliminação de perdas e desperdício, passa ser o curso da evolução humana, ainda que à custa de, episódios de perda e destruição, através de um processo empírico de tentativas e erros. Os desastres na evolução dos seres vivos no planeta vão deste a extinção do Cambriano-Ordoviciano, por razões que a ciência está há muito para descobrir, até as Guerras Mundiais e outras em grande e pequena escala, que estão igualmente a desafiar sociólogos, historiadores, economistas, psicólogos e demais cientistas. A primeira extinção aparentemente se deu pelo esgotamento de oxigênio nos oceanos criados pelos próprios seres vivos, e as guerras nem resta dúvida de quem sejam obra.

Estes eventos separados por uns quinhentos milhões de anos, um nada em termos de evolução, tem como base a contínua e perene dualidade competição-colaboração. Estes dois sentidos do comportamento, estas duas direções intrínsecas da natureza viva, em algumas ocasiões fogem de seu sensível equilíbrio e desencadeiam desastres.

Pode ser percebido então que a manutenção do equilíbrio entre competição e colaboração, depende continuamente de evolução. Somente em estado de evolução este equilíbrio se verifica. O equilíbrio deriva da oposição homeostática à inexorável tendência a que está submetida a matéria, a degradação material, a entropia. Ocorre que este equilíbrio se deve a capacidade dos seres vivos a tentar garantir a sua reprodução, e isto é feito por processo colaborativo. Humberto Maturana e Francisco Varela, biólogos chilenos, formularam o princípio da autopoiese, que mais tarde evolui para o pensamento filosófico de Deleuze2. Tal princípio estabelece o equilíbrio do ser vivo com o meio, equilíbrio este entre a degradação e a colaboração reprodutiva, que evoluiu até a reprodução sexuada. Maior e mais forte componente da evolução humana, seja no domínio do consciente, seja no domínio do inconsciente, e que move a maior parte das atividades humanas. Seja em direção a reprodução colaborativa, seja em direção a competição.

Tomando como base o conceito de “equilíbrio autopoiético”, podemos então buscar o que podemos chamar de tentativa de equilíbrio, através do “conhecimento pertinente” como o denomina Edgar Morin, equilíbrio este que, minimizando desperdício, imitando a natureza, nos afaste dos conflitos e da incompreensão da natureza humana em toda a sua extensão, desde a sua condição de ser biológico até a sua aglutinação social, sob as mais diversas formas, desde a vizinhanças do prédio até ao país e ao coletivo ideológico. Para tanto é necessário não mais ver o mundo sob a perspectiva fragmentária mas percebendo a complexidade de sua existência. Como dizia Dag Hammarskjöld,3 “olhar para as estrelas, através da copa das árvores”. Edgar Morin organizou e formalizou este pensamento, o pensamento da complexidade, como forma de evitar a fragmentação da percepção da realidade; daí evitando os conflitos destrutivos. Entendo que aí reside uma das principais missões dos educadores modernos: fazer perceber a realidade4 e capacitar a melhorá-la.

II- Interdependência e Complexidade

O conceito da interdependência, derivado do princípio da autopoiese como dito anteriormente, parte do fato que qualquer sistema produtivo, só e somente só alcançará o seu objetivo, gerar um produto repetidamente, se estabelecer com o mundo externo, via sistemas colaborativos, relações múltiplas de troca e de energia e, por sua vez, ser colaborativo com outros sistemas. Ou seja, só terá sucesso se colaborar com outros sistemas e se se comportar colaborativamente com demais outros..
Para exemplificar este princípio fizemos no passado (no livro “A árvore da acácia”) uma analogia com um sistema de produção que a natureza engendrou para produção de energia para a célula utilizando um outro pequeno sistema, ou pequeno órgão (organela), uma outra célula com a função de tratar da sua “respiração”, ou metabolismo. Os cientistas acreditam que essa organela, a mitocôndria, inicialmente era um ser procarioto que invadiu ou foi fagocitado por outro organismo primitivo. Não se sabe o real motivo, mas esse procarioto não foi digerido e as duas células passaram a viver em simbiose. O mecanismo bioquímico que funciona nesta organela, foi descrito pelo cientista William Krebs (1918-2009) Prêmio Nobel de 1992, daí o nome que é dado a este mecanismo, descrito como ciclo do ácido tricarboxílico, ou Ciclo de Krebs.

O principal produto ou função da mitocôndria é agir como via final comum de oxidação das moléculas orgânicas (carbonatos, lípidos, aminoácidos), através da acetil-CoA e seu substrato. Ou seja, tendo como produto principal a molécula de ATP , o faz gerando ainda produtos associados como é o caso do ácido pirúvico, e este por sua vez é utilizado na produção de outros três produtos associados: acetil-coenzima A, gás carbônico e hidrogênios. O CO2 é liberado e os hidrogênios são capturados por uma molécula de NADH25 formadas nessa reação.

Como podemos ver a natureza engendrou uma solução através da associação de sistemas colaborativos para o metabolismo, através de um outro sistema previamente existente, e passou a gerar ainda outros subprodutos. A produção de ATP pela mitocôndria para uma célula de um outro sistema, se faz associando colaborativamente outros subsistemas gerando outros subprodutos, que são também utilizados no processo produtivo.

Não é objeto deste documento expor a perfeição do equilíbrio termodinâmico das reações que ocorrem neste sistema, ou melhor, nestes sistemas. Mas esta analogia descrita em 2000 no “Arvore da acácia” serviu como “prova” de cooperação simbiótica que a natureza deu, onde dois sistemas distintos aplicaram o princípio de autopoiese para gerar um terceiro.

Para que houvesse sucesso neste processo estabeleceu-se uma interdependência entre vários estratos dos sistemas vivos, complexos por natureza. Tal interdependência exerce uma complexidade que é própria para a sustentação da vida. Complexidade é a marca da vida; vida implica em complexidade.


III – Equilíbrio e Antagonismo

Como antes mencionado, a sobrevivência, ou vivência melhor dizendo, dos sistemas complexos implica no equilíbrio entre cooperação e competição entre sistemas. Com esta informação podemos deduzir que a sobrevivência de um sistema implica por sua vez na sobrevivência de vários.

Com um pouco mais de dedução podemos também afirmar que o conjunto dos sistemas vivos, e aí se inclui a sociedade humana, é democrática na sobrevivência e na morte, pois que depende a sobrevivência de metade mais um de sua população. È claro que estando se utilizando agora desta metáfora, não estará distante a convicção de que existirá um número tal que menor que este todo o sistema vivo colapsa. Aliás, todo o sistema natural ou artificial depende e está sujeito a esta proporcionalidade.

A percepção desta proporcionalidade foi realçada a partir da obra do cientista austríaco Ludwig von Bertallanfy que cria a “Teoria Geral dos Sistemas” em 1950 e que mostra os níveis populacionais em culturas sendo equilibrados por processos de competição versus colaboração, absolutamente visível na curva “S”, ou curva logística. Ver o magnífico trabalho Modelo de von Bertalanffy generalizado aplicado as curvas de crescimento animal”6

Como podemos perceber, com base no exposto até aqui, é que a colaboração e competição são processos que estão intrinsecamente ligados na manutenção da vida. Na bioquímica tal dualidade se apresenta como sistemas agonistas e antagonistas que convivem e colaboram para a estabilidade. O conhecimento sobre antagonismo em sistemas bioquímicos é desenvolvido na pesquisa científica na busca da saúde 7. Os processos de estabilidade sempre estarão garantidos pela existência de antagônicos. Ou seja, competitivos mas colaborativos.

A partir da aquisição do conceito biológico “agonista / antagonista” podemos então estendê-lo a ao conhecimento de sistemas de mais alto nível, seja na psicanálise, seja na psicologia e também aplicadas ao cabedal pedagógico quando se defronta com questões da alteridade. O outro antagônico passa ser elemento de construção no lugar de destruição. Pode-se dizer que perceber tal complexidade no devir da atividade pedagógica implicará na prática dos princípios anunciados por Edgar Morin.

Procuramos pavimentar o caminho da epistemologia da complexidade com analogia biológica, mas sabemos que poderíamos partir de análogos de outras áreas do conhecimento. Assim como a Teoria Gral dos Sistemas de Bertallanfy serve à evolução da ciência da administração que está permeada por complexos sistemas da atividade econômica, da logística, etc..., a ciência da Educação estará submetida a complexidade das agonistas ações didáticas e de seus antagonistas processos da criação e da imaginação, que ao mesmo tempo que competem pela atenção e dedicação, auxiliam na percepção da realidade em que se inserem “ensinantes e “aprendentes”, como diria Paulo Freire.

V – A teoria e a experiência

Ainda que baseado nosso pensamento nos conhecimentos herdados desde outras categorias, como vimos até aqui, nós os “ensinantes”, temos a responsabilidade de incentivar e de viabilizar a descoberta, a criatividade e a curiosidade nos corações e mentes dos “aprendentes”. Em síntese, temos que, como se refere Hannah Arendt, “ter independência do conhecimento”.
Ainda que entendendo, ou tentando entender, a dualidade do processo cooperativo das contradições, nem somos obrigados a nos ater as categorizações, nem tampouco depender de experiências alheias. Pode parecer ser uma contradição com o princípio de evolução da ciência através da acumulação de conhecimento; mas não é, pois é através de rupturas e saltos que se dá a evolução. Quando se trata de evolução do conhecimento, o equilíbrio quer dizer mesmo evolução, ou ruptura. E somente se consegue a ruptura evolutiva, com a busca da sabedoria. Apresentamos exemplos de analogias com sistemas biológicos, mesmo sem ter a certeza absoluta das comparações. Não se trata aqui de ter certeza, de se apoderar da verdade, não é uma “verdade matemática”; apenas vemos que buscar a sabedoria implica em aceitar as contradições e inconsistências da “verdade estabelecida”.
A própria evolução matemática acaba esbarrando em contradição, e levou muito tempo para ser percebida, apenas nos anos trinta do século passado (século XX), e teorizada por Kurt Gödel nos dois teoremas conhecidos como os teoremas da incompletude de Gödel, abaixo simplificadamente apresentados:

Teorema 1: "Qualquer teoria ...capaz de apresentar algumas verdades básicas de aritmética não pode ser simultaneamente completa e consistente. Isto é, sempre há em uma teoria dita consistente, proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas nem negadas."
Teorema 2: "Uma teoria, recursivamente enumerável e capaz de expressar verdades básicas da aritmética e alguns enunciados da teoria da prova pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.”
É por este motivo então que, baseado na essência destes dois teoremas, que, mesmo acreditando honestamente no que se apresentou, somos obrigados humildemente a perseguir a sabedoria, mais do que o conhecimento, principalmente quando a nossa missão é apresentar e desafiar a complexidade nas mentes “aprendentes”.

Passar da informação para o conhecimento, requer a busca das contradições e dos agonistas/antagonistas; mas passar do conhecimento para a sabedoria requer a experiência. É famosa a frase de Gilles Deleuze : “ Jamais interprete, experimente”.
Cabe ao processo pedagógico, se realmente quer chegar a um resultado que possa se chamar de sucesso, tentar estabelecer a contradição, copiar a natureza que evolui e se equilibra por meio de opostos, cooperação / competição, agonistas / antagonistas, sempre na busca da utópica verdade. Cabe experimentar.

ANEXO

Sete princípios de Edgard Morin
As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
O conhecimento deve preparar o indivíduo para enfrentar os riscos e as situações da vida diária com sabedoria e discernimento. Para tal, é necessário que a educação desenvolva as características cerebrais, mentais e culturais para não induzirem ao erro ou ilusão.
Os princípios do conhecimento pertinente
É primordial que os educadores apresentem aos seus alunos realidades locais ao mesmo tempo em que as contextualizem com acontecimentos do mundo. Isso porque acontecimentos e conhecimentos fragmentados dificultam o entendimento e o conhecimento global.
Ensinar a condição humana
O ser humano é uma unidade complexa. É um ser que ao mesmo tempo é físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. Assim, as disciplinas escolares devem integrar os conteúdos promovendo o desenvolvimento do humano na sua totalidade.
Ensinar a identidade terrena
Mostrar aos educandos que o acontecimento da localidade interfere na totalidade e que tudo está interligado, ou seja, as decisões e atitudes de um local podem atingir toda a humanidade pois vivemos em uma imensa comunidade, com destino comum.
Enfrentar as incertezas
É preciso saber lidar com as incertezas, limitações, imprevistos e novidades que surgem a cada dia. A escola deve preparar os alunos para que sejam capazes de enfrentar esses desafios inesperados, fortalecendo as suas estruturas mentais e assim resolvendo seus problemas de modo construtivo baseado em situações anteriores.
Ensinar a compreensão
A comunicação não garante a compreensão e um dos obstáculos da educação é a compreensão. Muitas vezes o mal entendido gera conflitos e a diferença de cultura, a falta de respeito à liberdade e o egocentrismo são fatores que devem ser observados para compreender o outro e o eu. A compreensão favorece o pensar pessoal e global.
Para Morin,“se descobrirmos que somos todos seres falíveis, frágeis, insuficientes, carentes, então podemos descobrir que todos necessitamos de mútua compreensão.” (p.100)
Faz-se necessário compreender o outro para que nesta troca também sejamos compreendidos.


Mitocôndria
As mitocôndrias são as organelas celulares responsáveis pela respiração celular, processo no qual as células conseguem produzir ATP por meio da oxidação de moléculas orgânicas. O ATP é a molécula que armazena energia para as principais atividades celulares. Graças a essa função, o número de mitocôndrias é maior em locais que requerem alto gasto de energia. As células do fígado, por exemplo, apresentam em média duas mil mitocôndrias.
Essas organelas são pequenas, apresentando-se com 1,5 a 10 mícron de comprimento e até 1 mícron de diâmetro, tamanho similar ao de bactérias. Seu formato é variável, mas normalmente possuem a forma de bastonete e são encontradas em basicamente todas as células eucarióticas.
A mitocôndria apresenta dupla membrana lipoproteica, sendo a mais externa lisa e a mais interna com invaginações que formam a crista mitocondrial. A membrana interna é um local de síntese de ATP e, além disso, delimita a matriz mitocondrial, local onde estão presentes o DNA e RNA mitocondriais, enzimas que participarão da respiração celular e ribossomos. O DNA nessas organelas é circular, o que lembra o DNA de bactérias.
A presença de DNA próprio confere a essas organelas algumas peculiaridades. As mitocôndrias possuem capacidade de autoduplicação, dividem-se por fissão. Além disso, são chamadas de semiautônomas, pois conseguem sintetizar algumas proteínas necessárias a elas, entretanto não produzem todas.
Vale destacar que o DNA mitocondrial é uma herança apenas materna, pois, no processo de fecundação, as mitocôndrias paternas degeneram-se e, portanto, apenas as presentes no gameta feminino foram multiplicadas durante a formação do embrião. Sendo assim, a sequência desse DNA é idêntica para todos os nossos parentes por parte de mãe.
Em razão da presença de DNA e RNA próprios, além da dupla membrana, capacidade de autoduplicação e semelhança genética e química com algumas bactérias, os cientistas acreditam que essa organela inicialmente era um ser procarioto que invadiu ou foi fagocitado por outro organismo primitivo. Não se sabe o real motivo, mas esse procarioto não foi digerido e as duas células passaram a viver em simbiose. Essa teoria é chamada de teoria endossimbiótica e também explica a origem dos plastos nas células vegetais. É interessante notar que em uma célula vegetal, por exemplo, são encontrados três tipos de DNA: o encontrado no núcleo, o encontrado na mitocôndria e o dos plastídeos.
Por Ma. Vanessa dos Santos


1Edgar Morin - “Introdução ao Pensamento Complexo” - Editora Sulina 2011
2Giles Deleuze – Importante filósofo francês, que junto com Guattari explora temas filosóficos ecléticos, como rizoma, evento , diferença, sentido,etc...
3Dak Hammarskjöld, diplomata sueco, ex-Secretário Geral da ONU (1953-1961), falecido em 1961 na atual Zâmbia, quando seu avião foi abatido por um míssil, ou metralhado, não se sabe..
4Ver a obra de Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, todos empenhados na missão evolutiva frente as contradições de seu mundo.
5 Nicotinamide adenine dinucleotide) ou nicotinamida adenina dinucleotídeo ou ainda difosfopiridina nucleotídeo é uma coenzima que apresenta dois estados de oxidação: NAD+ (oxidado) e NADH (reduzido).
6 -Juliana Scapim - Departamento de Matemática Aplicada, IMECC - UNICAMP,
- Rodney C. Bassanezi - Centro de Matemática,Computação e Cognição, UFABC, Santo André/SP, Brasil
7Ana Maria de Oliveira Prof. Dra.Dep. Farmacologia /FCFRP/USP : “ Effect of pretreatment with losartan or converting-enzyme-inhibitor on the reactivity of rat carotid artery after the positioning of a silicone collar.. In: 2nd International Forum on Angiotensin II Receptor Antagonism, 2001, Monte Carlo. Abstract Book, 2001. v. -. p. 25. “

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Uma luz no fim do túnel


    Hoje vejo com muita esperança a notícia da pesquisa do Senador Requião sobre a viabilidade de sua candidatura a presidência da República. É mais uma reação ao golpe da direita, cujos quadros não conseguem oferecer nenhuma alternativa para saída desta miséria em que metram o país.

São válidas as candidaturas de todos aqueles que se rebelam contra esta dominação por parte das finanças internacionais e por parte de um Ministério Público politiqueiro, incompetente e autoritário, um Judiciário viciado, corrompido até por salários, ajudas, reembolsos, mimos e agrados para lá de imorais, e que violam a lei com a maior desfaçatez. A cara do golpe é a cara dos poderes que deveriam estar à margem da politicagem, guardando a soberania do País; inclua-se aí as Forças Armadas também que andam se metendo na politicagem, qual milícias de repúblicas bananeiras.

    Se observarmos que, se sobram candidaturas pelo lado da esquerda e da centro-esquerda do espectro político, pelo lado da direita nem existem nomes respeitáveis para o cargo, nem tampouco está a aparecer alguém que queira se queimar; o Joaquim Barbosa é o caso. Marina não conta, pois esta nada mais é que uma rêmora politiqueira.

    Ocorre que o PT, até com justa razão, não abre mão da candidatura de Lula, pois o ônus de vir a negá-la cabe aos golpistas e, principalmente, do poder judiciário pra lá de contaminado. Até lá a candidatura de Lula mantém todo o espectro da direita em cheque, esperando para dar o cheque-mate em eleições democráticas. Seja com Lula ou com quem ele indicar, isto já está claro e óbvio.

    Ocorre também que Boulos, Ciro, Manuela (nem conto os demais) muito se beneficiariam se ungidos fossem pela indicação de Lula. E aí Ciro parece ser, sendo o mais experiente e maduro, a opção natural. Desde que este não andasse convidando o seu antigo patrão, Benjamin Steinbruch, para compor a chapa e outros neoliberais fichados. Não que algumas medidas neoliberais não sejam necessárias na atual situação da civilização, mormente no âmbito atuarial (falaremos em outra oportunidade) mas há economistas no seu grupo que cheiram a naftalina.

    Com este cenário a festa da esquerda corre perigo de acabar mais cedo do que se esperava. E é neste cenário que a possível candidatura do Senador Roberto Requião transforma a água em vinho para salvar a festa.

    Se este vier candidato pelo MDB, disputando a vaga com Meirelles, herdará a maior capilaridade política do país, de vereadores, prefeitos, a Governadores de Estado. Os parlamentares que não queiram se afogar junto com Meirelles deverão optar por Requião. E, aí é que está o busílis, não poderão ter a facilidade de encurralar o Presidente, como fizeram com todos desde Sarney; apesar da afirmação ferrabraz de Ciro que será capaz de se sair bem nesta empreitada, enfrentar a maior bancada do Congresso.

    Ocorre ainda que Requião, criador da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberana Nacional, maior do que qualquer partido, já que acolhe vários deles, não somente recolhe o apoio daqueles que defendem a Soberania, dentro de vários partidos de esquerda, como avaliza a participação dos segmentos políticos oriundos da capilaridade do PMDB; como disse, desde a vereança até Governadores de Estado.

    Vejo então uma luz no fim do túnel.

   Aguardo com esperança que Requião entenda que a pesquisa que está efetuando refletirá a necessidade de se construir uma saída para o impasse que a esquerda, e a direita também, enfrenta no desdobramento deste golpe.

   Digo que em boa hora seu nome está sendo lembrado, já que o aguardava desde 2010.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Lição da História

Escrevo no blog após um longo tempo e confesso, por não saber mais o que dizer desta situação em que vivemos. Não sei e, o que nos preocupa a todos, ninguém honestamente pode dizer qual será o desfecho deste drama. Ninguém sabe. 
Mesmo sabendo que o golpe foi conduzido e apoiado por capitais e interesses externos,  não resta a menor dúvida que foram os nacionais da direita que serviram de peões para este cheque.  

E aí é que se instaurou o problema: - a direita achava mesmo que seria a construtora da ponte para o futuro. Não fazia a menor ideia do tamanho do espaço político e econômico que teria de atravessar. Não fazia ideia da complexidade da estrutura econômica, social e política que nosso país possui, pois estava, e ainda está, arraigada a conceitos e ideologias do tempo da guerra-fria. Ainda divide o mundo bipolarmente, e toma partido em função disto, desconsiderando a demanda social que se exige na sociedade contemporânea; não somente a brasileira, mas do mundo todo.

Ao se golpear a democracia, e não apenas a Presidenta Dilma, perdeu-se o ligamento que ainda mantinha as instituições estabilizadas, mesmo com os profundos ressentimentos e fissuras, provocadas pela incapacidade que tivemos em provocar a catarse dos sofrimentos, dos vícios, das distorções provocadas pela ditadura autoritária e sangrenta, que impingiu simultaneamente medo e corrupção na nossa sociedade. Marchamos para o futuro sem ter resgatado as dívidas do tenebroso passado.

Não temos no espectro político coerência e estabilidade nos programas e no ideário; não sabemos a direção do futuro. Só quem possui rumo certo e pragmático são aqueles que tem na luta pela sobrevivência o seu motivo de vida. Mas estes agora pouco se importam com discursos e fórmulas. Aprenderam a sobreviver, mesmo copiando aqueles seguidores da lei-de-gerson que "querem levar vantagens em tudo", a burguesia brasileira, civil e fardada.

Mas agora a situação de decadência econômica, política e moral exige uma reação que reoriente o curso da história, caso contrário corremos o risco de dissolução da Nação. As instituições, não somente se desmoralizaram perante ao povo, como estão em franco conflito umas comas outras. Ministério Público e Judiciário desrespeitam a Constituição descaradamente, constrangem o Legislativo e o Executivo que chegaram ao fundo da respeitabilidade por parte do Povo, dado as repetidas e graves ações de roubo e violação de direitos.

Só me lembro de correção de rumo ao longo da História das nações com recurso a guerra. Conflitos na História é que impulsionaram as nações para a solução e purga de seus pecados.
Será que teremos que repetir esta sina?

   

sábado, 16 de setembro de 2017

Histeria moralista....

Não pude deixar de registrar aqui as palavras do Dr. Wadih Damous ( será que ele não vai se incomodar de tratá-lo por doutor ?  Ok, Sua Excia. é o tratamento certo ). Foi tão cirúrgico que acabei confundindo a sua profissão, mas não sua integridade e patriotismo.

A histeria moralista que está afundando o Brasil


Em edição recente do TV Afiada, o brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim leu mensagem sobre a situação atual do Brasil que lhe foi enviada por um dos maiores advogados do país :“É preciso salvar os empregos e a economia, punir os responsáveis por malfeitos e seguir em frente. A paralisia moralista está afundando o país. Mais racionalidade econômica e inteligência e menos histeria moralista.”

É isso. Esse vendaval udenista, ao mesmo tempo em que fecha milhões de postos de trabalho e inibe investimentos, inocula na sociedade sentimentos de intolerância e de ódio sem paralelos na história.

Pilares fundamentais do iluminismo, como a convivência entre seres humanos com valores, credos e ideologias diferentes, vão sendo dizimados à luz do dia e, mais grave, naturalizados por governos, meios de comunicação e parte expressiva da população.

A cena estarrecedora que circulou pela internet de traficantes ditos evangélicos obrigando, sob ameaça de morte, praticantes de religião de matriz africana a destruírem templos e símbolos de sua fé não pode nem deve ser vista isoladamente.

Ela é a expressão de uma sociedade gravemente enferma, cujo patologia, sem exageros, já se constitui em séria ameaça ao estado democrático de direito e ao futuro do país como uma nação na qual as pessoas possam viver e criar seus filhos com um mínimo de paz.

O punitivismo que grassa no sistema de justiça criminal do país é outro reflexo da histeria moralista apontada por PHA. Já somos o quarto país em número de encarcerados, caminhando a passos largos para em breve assumirmos a terceira posição.

Centenas de milhares de condenados por crimes de menor gravidade em vez de cumprirem penas alternativas, e não privativas de liberdade, são submetidos ao suplício das sucursais do inferno que são as nossas cadeias.

Do alto de sua soberba e arrogância, procuradores e juízes da Lava Jato, pretensos paladinos da moralidade, se lixam para o estrago que causam na economia e para o drama vivido por mais de 13 milhões de brasileiros desempregados. Com polpudos salários, em geral acima do teto constitucional, integrantes do MP e do Judiciário não perdem o sono com o resultado nefasto de sua cruzada messiânica contra a corrupção: paralisação de setores estratégicos da economia, como óleo e gás e engenharia.

Em todo o mundo ao longo da história casos de corrupção foram e são enfrentados com a responsabilização dos culpados, mas sem prejuízo da manutenção das empresas, fatores de desenvolvimento e geração de emprego e renda. Dentre tantos exemplos, vale sempre citar o caso da poderosa multinacional alemã Siemens, cujos executivos que colaboraram com Hitler acabaram condenados a duras penas, mas a companhia foi preservada e até hoje é um dos símbolos da pujança da economia alemã.

Wadih Damous – deputado federal e ex-presidente da OAB-RJ

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Da ricordare è vivere

Era tutto questo periodo insufficiente per la riflessione e il pentimento? Basta solo un po 'di maturità e ragionamento.

L'arte è massime espressioni di umanità​. 

Dunque, il telaio mostra una "famiglia" veramente unita. 
E il "capo" guardia i ricordi della persona amata.
Non voleva un "Rinascimento"?

Agora aguenta a Máfia, ou vá bater panela.
Ou então aprenda que ódio só gera ódio, e aprenda a conviver com os diferentes, com os mais pobres; pois é deles que depende teu sustento agora ​e para sempre, já que a tua aposentadoria foi pro ralo (a não ser que tu sejas juiz, desembargador, ou mesmo militar). 



Mira a tua obra.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Limite de profundidade

A grande questão que se apresenta, em meio ao sentimento de dúvida, desespero, descrença, desânimo,  e tudo que possa ser creditado à desesperança, é se encontraremos uma saída para esta situação humilhante de país de segunda classe, habitado por escravos, feitores, capitães-do-mato e senhores munidos de instrumentos eletrônicos do século XXI para desenvolver e transitar  mundo afora as suas riquezas mas aos moldes dos tempos coloniais. Assim estamos. Quando resolvemos desmontar tudo que construímos com suor e sangue e adentrar ao século IXX.
Na conversa que tenho tido com quem compartilha das minhas esperanças, ou desesperanças, emerge esta questão, a de como poderíamos sair desta situação.
Só vejo uma saída agora, ...lamentavelmente, pela força.
Depois de acabar com o programa PROSUB, de entregar reservas criadas em 1984 ao capital descontrolado, de querer agora acabar com a Petrobras e a Eletrobrás ( nem estou mais falando de Previdência Social )  o governo postiço que temos terá de ser retirado à força, pois os outros poderes estão, se não coniventes, apáticos.
Aguardo, sinceramente, para breve uma mudança neste quadro; ou desautorizando-o, mas mantendo as aparências, ou simplesmente depondo-o.
Se deixarmos seguir este  despautério chegaremos em 2018 sem país. muito menos eleições.
Se afundarmos mais não conseguiremos mais respirar.

Privatização ou escracho?

Transcrita da Carta Capital artigo de William Nozaki, Professor de Ciência Política e Economia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e integrante do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas da Federação Única dos Petroleiros:



Há mais de duas décadas a política macroeconômica tem sido orientada por juros elevados e câmbio valorizado, em um cenário internacional marcado, do ponto de vista financeiro, pelas oscilações dos ciclos de liquidez e, do ponto de vista produtivo, pela emergência das cadeias globais de valor.

Essa combinação de fatores contribuiu para a mudança no perfil do empresariado industrial, que, progressivamente, passou a diversificar parte dos investimentos produtivos, convertendo-os em aplicações financeiras, de modo a auferir ganhos menos com lucros de médio e longo prazos e mais com rendimentos imediatos.

A financeirização que ao longo dos últimos anos foi tratada como uma questão prioritariamente macroeconômica agora revela sua face microeconômica. O caso atual da Petrobras tem sido emblemático, o rentismo não impõe sua influência sobre a petrolífera apenas de fora para dentro, ele também exerce seu poder de dentro para fora ocupando assentos nos espaços decisórios do conselho, da diretoria e da própria presidência da empresa.

Como se sabe, observa-se atualmente em curso um projeto acelerado de desmonte do arranjo institucional e estatal que criou condições para o desenvolvimento brasileiro. No epicentro desse processo encontra-se a Petrobras.
Desde 2003, a estatal preservou-se de uma forte interferência dessa lógica financeirizada na gestão interna. Ou seja, a estratégia e os projetos desenvolvidos pela Petrobras ficaram à cargo de um corpo técnico e diretivo ligado à própria empresa e/ou a especialistas que não materializavam, ao fim e ao cabo, os interesses rentistas. Foi agora, na gestão Pedro Parente, que houve, porém, uma forte reconfiguração desse cenário.

A atual gestão apresentou um novo Plano de Negócios e Gestão (2017-2021) cuja centralidade está no pacote de desinvestimentos e privatizações. Desde então, a Petrobras estabeleceu como meta se desfazer de ativos e patrimônios estimados em 34,6 bilhões de dólares (perto de 110,7 bilhões de reais).

A companhia retira-se dos ramos da petroquímica, biocombustíveis e fertilizantes, abre o mercado de refino para uma centena de importadoras, sinaliza para a abertura de capitais da BR Distribuidora, encolhe sua atuação logística, se desfaz de suas térmicas e promove a venda de campos estratégicos do pré-sal, abrindo o mercado nacional para multinacionais como a Total (francesa), a Statoil (norueguesa), a Taiyo Oil (japonesa) e a Alpek (mexicana), entre outras.

Para além da chegada de grandes companhias petrolíferas no País, o que chama a atenção é a participação de grandes fundos de investimentos no atual processo de privatizações, como é o caso, por exemplo, do Brookfield, que arrematou a compra da Nova Transportadora do Sudeste (NTS) por 5,2 bilhões de dólares (16,6 bilhões de reais).

Não só as empresas do setor, mas o mercado financeiro está sedento pelas novas oportunidades abertas pela Petrobras.

Dessa vez, é importante destacar: os interesses financeiros assediam a Petrobras a partir do seu interior e gera desconfianças sobre a possibilidade de existência de conflitos de interesse e tráficos de influência na companhia e no seu plano de privatizações.

A despeito de alardear a eficiência de seu novo programa de governança, compliance e de seus testes de integridade para a nomeação do alto escalão da companhia (background check), é no mínimo curioso notar que parte dos diretores e conselheiros da Petrobras permanece atuando ou atuou em segmentos empresariais diretamente interessados no desmonte da Petrobras, com destaque para conexões que deságuam no setor financeiro.

O diretor-executivo de governança e conformidade, João Adalberto Elek Jr., foi diretor financeiro do Citibank por mais de 20 anos e acabou recentemente afastado temporariamente do cargo, pois contratou sem licitação a consultoria financeira Deloitte, empresa onde sua filha trabalha. Em outras palavras: o responsável por apurar casos de conflitos de interesse é ele mesmo um interessado em conflito com as normas éticas da própria empresa. O atual diretor de estratégia, organização e sistema de gestão, Nelson Silva, foi CEO da BG e da Comgás, essa última concorrente da Liquigás Distribuidora, também privatizada.

No conselho da Petrobras, por seu turno, dos nove conselheiros, ao menos quatro tem relações pregressas ou presentes com empresas hoje interessadas na venda dos ativos da Petrobras: Luis Nelson Guedes de Carvalho e Durval José Soledade Santos, dividem suas atuações, simultaneamente, no conselho da Petrobras e no conselho administrativo da BM&FBovespa.

Francisco Papathanasiadis foi presidente da Associação Brasileira de Mercado de Capitais e Marcelo Mesquita trabalhou nos bancos Garantia e BTG Pactual. Em todos os casos, observa-se uma intensa presença de interesses financeiros na órbita e no interior da Petrobras.

Talvez o caso mais emblemático seja o do próprio presidente da Petrobras. Pedro Parente mantém seu posto de presidente do Conselho Administrativo da BM&F Bovespa justamente num momento em que a companhia realiza desinvestimentos e abertura de capitais de algumas de suas subsidiárias, além de ter atuado como CEO da Bunge, grande interessada na área de atuação da Petrobras Biocombustíveis, também privatizada.

Mais ainda: Parente é proprietário de uma empresa especializada em gestão financeira de ativos de famílias milionárias ou bilionárias, a Prada Ltda., onde tem como sócia sua esposa, oriunda do JP Morgan e do Credit Suisse, além de uma gestora egressa do setor financeiro da Booz Allen.

Em 2014, quando Parente saiu da Bunge, a Prada Ltda atendia uma carteira de 20 famílias, todas com patrimônio acima de 20 milhões de reais. Em 2016, depois de Parente ter sido nomeado presidente da BM&F Bovespa e da Petrobras, sua empresa privada passou a atender 91 famílias e 4 empresas, agora incorporando clientes com patrimônios bilionários.

Além disso, Parente é também conselheiro do grupo RBS, sucursal da Rede Globo no Rio Grande do Sul, e do Grupo ABC, empresa de propaganda que tem como sócios Nizan Guanaes e Armínio Fraga, este último, por seu turno, proprietário da Gávea Investimentos, que estabelece relações com grandes bancos e fundos internacionais interessados nos pacotes de desinvestimentos da Petrobras.

Os atuais gestores da maior petrolífera da América Latina tem por hábito defender as virtudes do mercado em contraposição aos vícios do Estado. Se dizem liberais, mas não cultivam a suposta impessoalidade e a propalada separação entre público e privado que eles mesmos dizem ser um traço essencial do liberalismo, no lugar disso se enroscam em tramas envolvendo laços de família e amizade que se convertem em troca de favores travestidas de operações técnicas e isentas. Desse modo, operam o desmonte de Estado e das empresas estatais como se estivessem numa ação entre amigos. São exatamente esses “operadores amigos” que encomendaram a privatização da Eletrobras.

Tantas possibilidades de conflitos de interesses, como no caso atual da Petrobras, causaria vergonha a qualquer liberal digno do nome, mas no Brasil, como se sabe há muito, o liberalismo é ideário de fachada, mero verniz para disfarçar a porta que abre aquela antessala onde se encontram os vendilhões do patrimônio público e os mercadores financeiros da iniciativa privada.