sexta-feira, 8 de agosto de 2025

A atuais trinta moedas

 Há dois dias, seis de agosto, lembrávamos dos oitenta anos do acionamento da “Little boy”, cínico nome dado a bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Nesta mesma data naquele ano eu sobrevivia de uma operação na cabeça, da qual escondo uma cicatriz até hoje. Enquanto eu escapava com vida, milhares morriam torrados. Muitos milhares morreram depois devido aos efeitos da explosão. Desde esta época, há oitenta anos, que os EUA impõe pelas armas a “paz americana”. Só que esta paz, além de sutil e progressivamente corroer o seu próprio poder e o seu tecido social, devido a contínua interferência na vida política e social de nações amigas, acabou por granjear inimigos por toda a parte.

Teria sido a laboriosa sociedade americana que Max Weber identificara, já no início do século XX, como herdeira da ética protestante, o motor do progresso e da projeção do poder industrial? Teria sido o mesmo capitalismo industrial que impregnou essa sociedade ainda escravagista em direção à busca insaciável por matérias-primas, então abundantes mundo afora?. Os sociólogos, e não eu na minha insignificância, que poderão dar a resposta; ou as respostas, pois há várias interpretações históricas, teóricas e (quem sabe?) encomendadas. O que a minha experiência de oitenta anos de alegrias e sofrimentos diz é que, memento mori, nada é perene mesmo na mais profunda ciência humana. O capitalismo industrial americano morreu convertendo-se no capitalismo financeiro e daí, et pour cause, a laboriosa e instruída sociedade americana passou a participar da farra do juro relegando a própria sobrevivência à pura e simples rapinagem dos países considerados seus... amigos, é claro.

No nosso caso brasileiro já passamos poucas e boas, (lembro de 1950 para cá)1. A diferença das interferências na nossa soberania no passado para a de agora é que esta se expressa publicamente, mas também não abre mão do financiamento da matilha de aduladores e de ingênuas mentes também.

O que, mesmo após estes oitenta anos, surpreende é a sabujice dos que pedem anistia para quem concebeu e articulou o assassinato do Ministro Moraes, do Vice-presidente Alckmin e do Presidente Lula. Abanar o rabo para Trump já não surpreende, faz parte do enredo; pressionar à capitulação está incluído no cachê; mas anistia obviamente é o obstáculo sabidamente intransponível a qualquer sociedade minimamente soberana. Nenhuma imagem que a represente, a anistia se assim podemos dizer, me vem a mente a que não seja vulgar e impossível de aqui descrever, pois obscena. Aliás obscenidade foi o que vimos na Mesa da Câmara, nem dá para descrevê-la. A que ponto trinta moedas valeram tanto.

1Ver blog “O que Trump realmente quer” de 19 de julho p.p.

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