Vejo hoje uma notícia que até não foi muito comentada mas que considero que expressa e reflete um fato relativo a complexidade de sistemas. Tal notícia, alvissareira por si só, guarda uma questão que agrega vários fatores econômicos, sociais, políticos e mesmo científicos: “A China perante o contencioso com os EUA deixa de importar a soja deste e passa a comprar do Brasil”. Aparentemente não traz muita novidade mas considerando que a soja, que é uma cultura que se instalou com sucesso no Brasil a partir da expansão para o oeste nos anos 60 e das pesquisas científicas da Professora Johanna Döbenreimer sobre fixação de nitrogênio por bactérias no solo, fez do país o maior produtor de soja do mundo.
Tal situação, a presente capacidade agrícola do país, se assemelha a que os Estados Unidos tinha na segunda metade do século XX: a enorme suficiência agrícola que suportava o desenvolvimento industrial. Batia todos os países do mundo na capacidade de produção de grãos e de proteína animal. Se hoje somos o maior exportador de carne bovina do mundo, só perdendo para os Estados Unidos, deve-se ao desenvolvimento da agricultura, da agroindústria e da ampla abertura de mercados do início do século XXI. A capacidade de exportação implementada no governo Lula I (2003-2006) nos colocou nesta posição superavitária...Entretanto tal situação não reverteu o desastre da desendustrialização promovida pela abertura irresponsável e descontrolada dos, “talvez ingênuos”, neoliberais que eclodiram da ninhada do Consenso de Washington, Collor e FHC.
Se por um lado os anos 50 de JK atraíram imigrantes, profissionais e pesquisadores (como Johanna Döbereimer que veio a ser reconhecida mundialmente), e mesmo durante os governos militares que expandiram as fronteiras agrícolas, diferentemente das bactérias fixadoras de nitrogênio no solo, não fomos capazes de fixar nossos interesses soberanos nas terras brasileiras, mesmo após os governos militares. Não valorizamos suficientemente nossa ciência, nossa pesquisa científica; não valorizamos suficientemente nossa cultura, nossa arte. Em síntese, não valorizamos o nosso Povo. As causas dessa nossa desvalorização residem nas nossas idiossincrasias, nos nossos defeitos de colonização que se intoxicaram com a escravidão de mais de trezentos e cinquenta anos; aliás, por mais tempos que temos de república.
Se por um lado conseguimos (será?) como diz Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala” valorizar a nossa miscigenação, não foi possível instituí-la, já que a nação no período imperial e mesmo o republicano já teria sido contaminada pela excessiva valorização da cultura letrada europeia. Mas, talvez desta distopia é que emerja nossa resiliência pois, se estivéssemos engessados na disciplina europeia ou até a oriental, não teríamos a capacidade de continuamente “mudando de estado” ir driblando a entropia natural em direção a fragmentação, tal como assistimos alhures (não quero exemplificar, pois vemos neste momento um triste exemplo). Quero lembrar Aldous Huxley quando nos alertava no “Admirável mundo novo” sobre a férrea disciplina social. Lembro também que perdemos várias oportunidades de, numa destas “mudanças de estado”, termos perdido nossa “Muiraquitã”, mas que a encontraremos quando “subirmos ao céu” nesta nossa caminhada em direção à plena afirmação de nossa identidade e nossa soberania.
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