terça-feira, 23 de setembro de 2025

Não se esqueçam de mim

 Hoje, ainda refletindo sobre as manifestações do último domingo (21/09/25) que ocorreram Brasil afora, aguardo o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU que Lula fará. Não sei ao certo qual será o conteúdo mas, como todo o mundo (ocidental e oriental) espera, terá a ênfase no genocídio de Gaza. Também, e este será ainda mais polêmico, abordará a questão da multipolaridade e da multilateralidade, onde ambas afetam a decrescente hegemonia americana. A primeira reforçando os instrumentos e instituições da ONU (OMC, FAO, ACNUR, PNUD, UNESCO, etc…) e a segunda, de desenvolvimento e existência críticos, os BRICS; pois querendo ou não, ainda que sendo externo o tema, este coletivo afeta diretamente a funcionalidade da organização, pois nela estão os instrumentos financeiros controlados pelos EUA, o FMI e o Banco Mundial.

Mas o que me aguça a curiosidade no discurso será o posicionamento político do Brasil visando a sua existência soberana em meio a teimosa interferência americana na política brasileira, que tantos golpes de estado já tentou e conseguiu no intuito da dominação, ainda que disfarçada, política e econômica.

Um discurso desta importância é preparado por diplomatas experimentados, mas este em particular, terá de refletir dois acontecimentos que marcam a realidade política, tanto nacional quanto internacional. Ou seja, as manifestações populares de domingo, onde mais de um milhão de pessoas foram às ruas em protesto a vertente política norte-americana e às sanções e ameaças americanas; estas, feitas num linguajar chulo para o padrão diplomático, absolutamente agressivas a soberania nacional.

Ocorre que neste segundo caso, como soe à “diplomacia americana”, que soa como um oximoro, está em jogo no plexo político interno, polarizado e potencializado pela mídia contratada, a decepção coletiva com valores defendidos pela direita. Tanto aqueles “evangelizados” por pastores, também contratados, quanto as diretamente introduzidas pela ação diplomática e pelas ong´s especializadas nesta missão. Exemplos: Conectas, WWF, The Nature Conservancy, Instituto Millenium, Ethos, Mises Brasil, e muitas outras. Sem falar na badalada “Operação Lava Jato”, financiada e instrumentalizada para destruir as grandes empresas brasileiras de engenharia, que andavam ganhando concorrências mundo afora, e mesmo dentro do território americano (com meios “isentíssimos”, ou não). Abusaram tanto da sua hegemonia e de seu poder de intervenção que esticaram o tecido social ao extremo. Ou seja, arrebentou quando o Congresso já com a face desfigurada pela corrupção e pela truculência típica da direita (PEC da “bandidagem” e “anistia”), ultrapassa limites e se apoia em manifestações abertamente acobertadas pela bandeira americana. Tocou no “nervo exposto” da sensibilidade nacional; mais, muito mais, de um milhão de pessoas foram manifestar sua patriótica indignação.

Lembrei-me de um trecho de “Cibernética e sociedade” de Norbert Wiener que diz: “...é interessante saber que a espécie de fenômeno registrada subjetivamente como emoção pode não ser apenas um inútil epifenômeno da ação nervosa, mas talvez controle algum estágio essencial da aprendizagem e de outros processos similares….”1. Mais do que a visão escatológica da depredação do Supremo Tribunal Federal (impossível de aqui reproduzir) a mera visão do que fora transmitida na “manifestação da direita” duas semanas antes  no dia 7/09/25 desencadeou um processo similar que havia descrito por Norbert Wiener:


 Mais do que a imagem escatológica do dia 8 de janeiro, esta desencadeu um processo de aprendizagem, e consequente reação. Daqui em diante os sentimentos conflitantes na sociedade do nosso pais irão confluir, mesmo com tropeços, para a nossa soberania. É isso no que deu a grosseria, a impáfia e o despreso dos colonizados culturalmente pela nossa gente humilde: desrespeitaram o pouco que sobrou à nossa cultura. Pensaram que era só "samba, suor e cerveja" e o povo lembrou: - Não se esqueçam de mim.

1“Cibernética e Sociedade”; Norbert Wiener. – Editora Cultrix -1993. SP-Brasil

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