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domingo, 13 de abril de 2025

Carpe diem

     O “Tarifaço do Trump” já perdeu a fantasia e o glamour da imprensa ocidental, até porque o objetivo de Trump já foi alcançado: colocar a Europa no seu lugar, isto é, na mesma condição de outros países ditos do “terceiro mundo”; expressão formalizada por Sauvy, mas concebida mesmo por Nehru no anos cinquenta, e que hoje, a resultante dos desdobramentos políticos, econômicos e sociais deste segmento geopolítico, se corporifica nos BRICS. Estes sim, e não os estados europeus, alvo de atenção redobrada de Trump.

    Os estados europeus, depois do atentado ao Nord-Stream (I e II), não somente se desmoralizaram, como também desconstruíram suas economias. E como ainda dependem dos EUA para sua defesa, já que o estado do bem-estar-social fora conseguido ao longo de décadas com a ajuda de economia de manutenção de seus exércitos (hoje tão corruptos quanto os congêneres latino-americanos), ficam agora, à mercê da vontade política de Trump. No último discurso de Vance ele deixou claro, afora a tremenda reprimenda, que os EUA não mais aceitariam financiar o dito estado de bem-estar-social à custa do povo americano. Para reafirmar sua política de não mais fornecer armamento para os ucranianos, (o que não acredito que demore muito tempo, pois somente o fornecimento para Israel continuar matando crianças não satisfará o apetite do complexo industrial militar americano) este busca uma saída honrosa, um cessar-fogo ou o que seja, na negociação com Putin, para o qual, ao que tudo parece, tem mais afinidades do que com Scholtz, Annalena Baerbock, Ursula Van de Leyen, Keir Starmer, Macron, e outros, que agora também se desmoralizaram perante não somente ao russos, mas também ao restante dos países “terceiro-mundistas”. A salvação destes agora reside na estabilidade política e econômica da China; para lá acorrerão inexoravelmente na tentativa, que espero não seja em vão, de salvar o que sobrou de desenvolvimento econômico. É obvio que há Estados que continuarão a reboque, os Estados Bálticos especialmente, os outros antigos participantes da URSS, e os novos Macedônia do Norte, Kosovo, Montenegro, que a rigor nem são necessariamente Estados.

    O que podemos dizer é que Trump, na forma histriônica que lhe é peculiar, tenta salvar os dedos, pois os anéis já se foram, assim como os dos estados europeus.

Se não, vejamos, os exemplos de anéis da ex capitânia das indústrias, a automobilística(1):

Marcas Internacionais que Usam Componentes Chineses

   1. Tesla – Produz veículos na Gigafactory de Xangai e utiliza muitas peças de fornecedores locais.
2. BMWTem joint ventures na China (como a BMW Brilliance) e importa componentes chineses para                         modelos globais.
3. Mercedes-Benz Parceria com a BAIC e uso de peças chinesas em alguns modelos.
4. Volkswagen Uma das marcas mais estabelecidas na China, com ampla rede de fornecedores locais                                      (via joint ventures como SAIC-VW e FAW-VW).
5. Volvo (propriedade da Geely) – Utiliza componentes chineses em modelos globais, incluindo os                                                                             produzidos na Europa e EUA.
6. GM Parcerias com SAIC e Wuling, com peças chinesas em modelos como o Buick Envision.
7. FordAlguns modelos na China e globalmente usam componentes de fornecedores chineses.
8. Toyota, Honda e Nissan Todas têm joint-ventures na China e utilizam peças locais em veículos                                                                 produzidos lá e exportados.

Marcas Chinesas que Fornecem Componentes para Outras Montadoras

Além das marcas ocidentais, fabricantes chinesas como BYD, Geely, SAIC (MG), Great Wall (GWM), NIO e CATL são grandes fornecedoras de peças, especialmente em:

- Baterias para veículos elétricos (CATL, BYD).
- Sistemas eletrônicos
- Componentes estruturais e motores

Tendência Global

Com a crescente competitividade da indústria chinesa, até mesmo marcas premium (como Porsche e Audi) estão incorporando mais peças da China para reduzir custos. Além disso, a produção de veículos elétricos tem dependido fortemente de baterias e componentes eletrônicos chineses.


Vamos agora abordar a indústria de ponta, o caso mais notório, a fotolitografia, que produz chips eletrônicos, até para sair do domínio da ASML da Holanda e as americanas Applied Materials e Lam Research.2

Principais Empresas Chinesas na Fabricação de Máquinas para Chips

  1. SMEE (Shanghai Micro Electronics Equipment)

    • Foco: Máquinas de fotolitografia (usadas na produção de chips).
      Tecnologia atual: Capaz de produzir máquinas de imersão em litografia a 28nm (equivalente a tecnologias de uma década atrás da ASML).
      Desafio: Ainda não consegue competir com a ASML em litografia EUV (Extreme Ultraviolet), essencial para chips abaixo de 7nm.

  2. NAURA (Beijing NAURA Technology Group)

    • Foco: Equipamentos de etching (gravação de wafer) e deposição de filmes finos.
      Parcerias: Trabalha com a SMIC (maior fundição de chips da China).

  3. AMEC (Advanced Micro-Fabrication Equipment Inc. China)

    • Foco: Máquinas de plasma etching (usadas em processos avançados de fabricação de chips).
      Clientes: SMIC, YMTC (fabricante de memórias).

  4. CETC (China Electronics Technology Group Corporation)

    • Foco: Desenvolve equipamentos para teste e montagem de chips.

Situação Atual e Dependência Externa

  • A China ainda não tem autonomia na produção de máquinas de litografia de última geração (EUV).
    ASML (Holanda) domina o mercado de máquinas EUV, essenciais para chips 5nm e abaixo.
    Devido a sanções dos EUA, a China está acelerando investimentos para criar alternativas locais, mas ainda está anos atrás.

Futuro: Auto-suficiência em Chips?

O governo chinês está injetando bilhões em subsídios para desenvolver uma cadeia de semicondutores independente, mas levará anos para alcançar a tecnologia de ponta. Empresas como SMEE e NAURA são as principais esperanças, mas ainda dependem de componentes estrangeira. Mas...quantos anos? Eles sempre nos surpreendem; agora então que têm economia de escala.


Dada uma rápida vista ao potencial chinês que ora determina o cenário geopolítico, temos que voltar a Trump, e à política americana para ter uma razoável ideia de como evoluiu este cenário na última década i.e. desde 2014.

O cenário geopolítico atual, considerando o período Democrata e a herança do primeiro mandato Trump, conduz Trump e não o contrário. Trump ao jeito dele, tenta com este jogo de cena, é “jogar a culpa” pela situação geopolítica (guerra na Ucrânia principalmente) nas costas do decrépito Biden e dos Democratas principalmente. Lembremos que em 2014, era Obama o Presidente e Biden seu vice, ou seja, Democratas, desde 2009. Nesta época, 2014, Victoria Nuland operava como a patrocinadora da carnificina da Praça Maidan, mas durante todo o período Democrata era Hillary Clinton o verdadeiro casus belli de todas as invasões, guerras, e todas demais as agressões ao que o império se dedicava. Não dá então para aceitar a crucificação de Trump pela situação atual dos EUA, ainda que o seu comportamento ajude. Trump é resultado de uma situação de decrepitude social, tal como tivemos com Bolsonaro no Brasil. Lá na terra de Trump não há muita chance de salvação, pelo menos com Trump, maioria no Congresso etc… E nós, que nem maioria no Congresso temos? Só posso dizer: Carpe diem.

1Fonte: ChatGpt principalmente

2Fonte: MOFCOM, XINHUA

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Mariupol - Por Pepe Escobar e comentários

Novamente tomei a liberdade de trazer o artigo do Pepe Escobar, que publica aulas de geopolítica (de graça) que copio do Brazil247. Acho que a divulgação destes artigos auxilia a entender o jogo complexo da geopolítica onde, no mar das publicações absolutamente destorcidas da imprensa mainstream, vários componentes políticos, sociais, econômicos, militares se interagem, perfazendo uma trama que nem sempre é visível e compreensível por nos mortais imprensados entre o hegemon já decadente e amalucado e as novas e arejadas brisas que vêm do oriente; ou melhor da Eurásia.

A leitura deste artigo nos revela não apenas a complexa interação dos impulsos desenvolvimentistas e inovadores que se originam desde a China, a Russia, a Índia e o Paquistão (mérito do russo Sergei Lavrov), o Irã e os demais que estarão na rota inexorável, mas não tão admirável, Mundo  Novo. Haverá tropeços, desgastes, armadilhas, traições etc..pois o gigante que hoje se debate na convulsão do demorado fim, de tudo fará; ou melhor está fazendo, pouco importa que morram ucranianos, sírios, palestinos, latinos, africanos.

Há ainda uma questão que perguntaria ao articulista quando afirma:

Não haverá sentido em privilegiar os corredores setentrionais da ICR – China-Mongolia-Russia via Transiberiana e a ponte terrestre via Cazaquistão – no momento em que a Europa descamba para uma demência medieval.

Esta questão trago quando observo a influência da Turquia neste cenário e a ligação do petróleo do Mar Cáspio ao Mar Negro, enfatizando aqui a influência de Baku sobre Istambul e vice-versa. 

De qualquer modo várias questões emergirão da leitura deste excelente artigo de Pepe Escobar. Desejo então uma boa aventura neste teto.

 Por Pepe Escobar, para o The Cradle.co, 

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

Mariupol, o porto estratégico do Mar de Azov, continua no olho da tempestade na Ucrânia. 

 Segundo a narrativa da OTAN, a Azovstal – uma das maiores usinas metalúrgicas e siderúrgicas da Europa, foi praticamente destruída pelo Exército Russo e pelas as forças aliadas de Donetsk que "sitiaram" Mariupol.

A história verdadeira é que, desde o início da operação militar russa na Ucrânia, os neonazistas do Batalhão Azov vinham usando como escudos humanos dezenas de civis de Mariupol para depois recuarem para o Azovstal, usado como último ponto de resistência. Após um ultimato proferido na semana passada, eles agora vêm sendo totalmente exterminados pelas forças da Rússia e de Donetsk e pela Spetsnaz chechena.

Azovstal, parte do grupo Metinvest controlado pelo oligarca mais rico da Ucrânia, Rinat Akhmetov, é de fato uma das maiores usinas metalúrgicas da Europa, que descreve a si própria como um empreendimento metalúrgico integrado e de alto desempenho produzindo coque, sedimento calcário, aço, bem como outros produtos como rolamentos, barras e moldes".

Em meio a uma tempestade de depoimentos detalhando os horrores infligidos pelos neonazistas do Azov sobre a população civil de Mariupol, uma outra história invisível e bem mais auspiciosa traz bons augúrios para o futuro imediato.

A Rússia é a quinta maior produtora de aço, além de possuir imensos depósitos de ferro e carvão. Mariupol – uma Meca siderúrgica – antes obtinha seu aço de Donbass, mas a partir dos eventos de 2014 em Maidan, que levaram a um domínio neonazista de fato, a cidade tornou-se importadora. O ferro, por exemplo, passou a ser fornecido por Krivbas, na Ucrânia, distante mais de 200 quilômetros de Mariupol.

Depois de Donetsk se solidificar como república independente ou, por meio de um referendo, optar por se tornar parte da Federação Russa, essa situação fatalmente será alterada.

Azovstal investe na produção de uma grande variedade de produtos extremamente úteis: aço estrutural, trilhos de estradas de ferro, aço reforçado para correntes, equipamento de mineração, rolamentos para máquinas industriais, caminhões e vagões ferroviários. Parte das instalações da fábrica são bem modernas, enquanto outras, construídas há décadas, necessitam urgentemente de serem modernizadas, o que a indústria russa é perfeitamente capaz de fazer.

Em termos estratégicos, o complexo é enorme, situado nas proximidades do Mar de Azov, que hoje, para todos os fins práticos, foi incorporado à República Popular de Donetsk, e próximo ao Mar Negro. O que significa uma curta viagem até o Leste do Mediterrâneo e inclui muitos clientes potenciais do Oeste Asiático. E, cruzando o Suez e chegando até o Oceano Índico, há clientes de toda a Ásia do Sul e do Sudeste Asiático.

A República Popular de Donetsk, portanto, possivelmente parte de uma futura Novorossiya ou mesmo parte da Rússia, estará no controle de muita capacidade de manufatura siderúrgica para o Sul da Europa, o Oeste Asiático, podendo chegar até ainda mais longe.

Uma das consequências inevitáveis será sua capacidade de fornecer produtos para um verdadeiro boom de construção ferroviária na Rússia, China e nos "istãos" da Ásia Central. A construção de ferrovias é o modo de conectividade privilegiado por Pequim para a ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). E o que é ainda mais importante, também para o cada vez mais turbinado Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS).

Situada a meio caminho, portanto, Mariupol pode esperar vir a se converter em um dos principais nós de um boom das rotas norte-sul – o CITNS através da Rússia e suas conexões com os "istãos" - bem como grandes modernizações nos corredores leste-oeste da ICR e nos corredores sub-ICR.

A Eurásia Interligada

Os principais atores do CITNS são Rússia, Irã e Índia que agora, na etapa pós-sanções da OTAN, estão em modo avançado de interconexão, inclusive com a formulação de mecanismos visando contornar o dólar americano em seu comércio internacional. O Azerbaijão é um outro ator importante no CITNS, embora mais volátil em razão de privilegiar os planos turcos de conectividade no Cáucaso.

A rede do CITNS, além disso, irá gradativamente se ligar ao Paquistão - o que significa o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), um nó importante da ICR, que, de forma lenta mas segura, vai se expandindo em direção ao Afeganistão. A visita não-programada do Chanceler Wang Yi a Cabul, na semana passada, teve como objetivo fazer avançar a incorporação do Afeganistão às Novas Rotas da Seda.

Tudo isso ocorre enquanto Moscou - extremamente próxima a Nova Delhi - vem, simultaneamente, expandindo suas relações comerciais com Islamabad. Os três países, o que é crucial, são membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

O grande desenho Norte-Sul, portanto, indica uma conectividade fluente do grande interior russo até o Cáucaso (Azerbaijão) e Oeste Asiático (Irã), chegando até o Sul da Ásia (índia e Paquistão). Nenhum desses atores importantes em algum momento demonizou ou aplicou sanções à Rússia, apesar das atuais pressões nesse sentido por parte dos Estados Unidos.

Estrategicamente, isso representa o acionamento do conceito russo de multipolaridade da Parceria da Grande Eurásia em termos de comércio e conectividade – paralelamente e complementando a ICR, uma vez que a Índia, ansiosa por instalar um mecanismo rúpia-rublo para compra de energia, neste caso é um parceiro absolutamente essencial para a Rússia, do mesmo nível de importância do acordo estratégico de 400 bilhões de dólares entre a China e o Irã. Na prática, a Parceria da Grande Eurásia irá facilitar uma conectividade mais desimpedida entre Rússia, Irã, Paquistão e Índia.

O universo OTAN, enquanto isso, é congenitamente incapaz de reconhecer a complexidade desse alinhamento e muito menos de analisar suas implicações. O que temos aqui é o entrelaçamento da ICR, do CITNS e da Parceria da Grande Eurásia na prática - noções essas que são, todas elas, vistas como anátema pelo Beltway de Washington.

Tudo isso, é claro, vem sendo formulado em meio a um momento geoeconômico que representa uma total virada de jogo, na medida que a Rússia, a começar desta quinta-feira, passará a só aceitar de nações "inamistosas" pagamentos em rublos por seu petróleo.

Paralelamente à Parceria da Grande Eurásia, a ICR, desde seu lançamento em 2013, também vem progressivamente tecendo uma rede complexa e integrada de parcerias eurasianas: nas áreas financeiro/econômicas, de conectividade, de construção de infraestrutura física e de corredores econômicos e comerciais. O papel da ICR como co-formuladora de instituições de governança global, incluindo suas bases normativas, vem tendo também importância crucial, para o desespero da aliança da OTAN.

Hora de desocidentalizar

Mas só agora o Sul Global, especialmente, irá começar a perceber a total amplitude do jogo China-Rússia na esfera eurasiana. Moscou e Pequim estão profundamente envolvidas na empreitada conjunta de desocidentalizar a governança globalista, se é que não em eliminá-la por completo.

A Rússia, de agora em diante, será ainda mais meticulosa em sua construção de instituições, unindo a União Econômica Eurasiana (UEE), a OCX e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) – uma aliança militar eurasiana de estados pós-soviéticos selecionados - em um contexto geopolítico de irreversível divisão institucional e normativa entre a Rússia e o Ocidente.

Ao mesmo tempo, a Parceria da Grande Eurásia solidificará a Rússia como a principal ponte eurasiana, criando um espaço eurasiano capaz de ignorar a Europa vassalizada.

Enquanto isso, na vida real, a ICR, tanto quanto o CITNS, estarão cada vez mais plugados ao Mar Negro (alô, Mariupol). E a própria ICR talvez tenda a reavaliar sua ênfase na ligação da China Ocidental à base industrial cada vez mais precária da Europa Ocidental.

Não haverá sentido em privilegiar os corredores setentrionais da ICR – China-Mongolia-Russia via Transiberiana e a ponte terrestre via Cazaquistão – no momento em que a Europa descamba para uma demência medieval,

O novo foco da ICR será obter acesso às commodities insubstituíveis – e isso significa Rússia – e também assegurar o abastecimento adequado da indústria chinesa. Os países ricos em commodities, como o Cazaquistão e muitos dos atores africanos, irão se converter nos grandes mercados do futuro comércio internacional chinês.

Em um giro pré-covid pela Ásia Central, era comum ouvir que a China constrói fábricas e ferrovias, enquanto a Europa, na melhor das hipóteses, redige documentos. E pode piorar ainda mais.

A União Europeia como território ocupado pelos Estados Unidos está desmoronando aceleradamente, passando de um centro do poder global à condição de um ator periférico sem a menor importância, um mero mercado decadente na periferia longínqua da "comunidade de destino compartilhado" criada pela China.