sexta-feira, 18 de novembro de 2022

MRP/MRP-II/ERP - ambiente econômico

 MRP/MRP-II/ERP - ambiente econômico

A partir do artigo de ontem (17/11/22) achamos conveniente reafirmar a importância a ser dada ao conhecimento e o tratamento da demanda independente no contexto relativo aos sistemas MRP/MRP-II/ERP. Temos que considerar que a metodologia convencional de tratamento da demanda baseada nas técnicas estatísticas, seja nos comportamentos contínuos (gaussianos) ou multinomiais, estabelecem parâmetros que servirão a projeção futura, tanto para o estabelecimento da demanda ela mesma, quanto dos elementos lógicos referentes a estoques, a estoques-de-segurança, quanto a lotes de encomenda/fabricação. É conveniente lembrar que os métodos de quantificação destes elementos lógicos, que miram os fundamentos da economia (minimização do capital imobilizado e investido em inventário, seja de processo, seja de estoque) datam da década de 20 do século 20; ou seja há cem anos. O cálculo do EOQ (economic order quantity) data de 1913 e parte de simplificações incompatíveis com os tempos atuais:

1-Não limitar a disponibilidade de capital;

2-Um horizonte infinito de planejamento e programação

3-Um item do inventário com nenhuma dependência com outros itens, sejam conjuntos, subconjuntos, matéria-prima ou produto final

4-Um tempo de fornecimento/abastecimento constante e conhecido;

5-Uma taxa de procura contínua, constante e conhecida;

6-A satisfação de toda a procura;

7-Nenhum inventário em trânsito

Mesmo a empresa vendedora de ponta, que alcança o consumidor final da cadeia(ver 5), isto é, o comércio, terá dificuldades, em qualquer regime de comportamento econômico(ver 1), em dimensionar a demanda, tendo que se proteger das variações implícitas (qualquer que seja o regime ver 2), com estoques de segurança.

Quando se trata da indústria, seja a de transformação, de manufatura ou de processo básico sua demanda sofrerá os efeitos dos componentes econômicos, tecnológicos e sociais que tramitam em toda a cadeia de suprimento (supply-chain), sendo que só será possível enxergar com clareza apenas as demandas imediatamente pertinentes, ou seja, a demanda de seu mercado comprador, e mais imediatamente dos seus clientes. Implicando assim em componente de incerteza na sua demanda independente (suas vendas firmadas e potenciais); incerteza esta que se propagará a todo o seu processo produtivo, até a compra dos seus insumos (material, mão-de-obra, energia e consequente capital).

Diante desse desafio, do risco inerente ao capital aplicado, vimos que os sistemas MRP/MRP-II/ERP que nasceram na década de 60, em ambiente industrial desenvolvido , buscavam minimizar incerteza, consequentes riscos. Quando então, o ambiente econômico passou a se tornar cáustico para a atividade industrial, a aplicação dos ditos sistemas não foi suficiente para minimizar a propagação dos riscos para a cadeia imediatamente fornecedora; ou seja, material, mão-de-obra e energia. Daí a propagação da incerteza em direção a escassez. O primeiro insumo a ser afetado, a mão-de-obra, desencadeou o desemprego e que multiplicou o efeito nefasto de crise.

Os sistemas não são milagreiros, não são capazes de mudar o ambiente de escassez; portanto temos que buscar a industrialização, o desenvolvimento econômico, o pleno emprego e nos adiantarmos com o desenvolvimento científico, pois novas metodologias estarão ao nosso alcance através da aplicação das técnicas para análise de comportamento, de análise bayesiana da demanda, de machine-learning e de toda a capacidade de interação da cadeia de suprimento. Mas os MRP/MRP-II/ERP terão de acompanhar este progresso...E os profissionais do ramo mais ainda.


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

MRP, MRP-II, ERP, uma história nova.

 MRP, MRP-II, ERP, uma história nova.

Tive a oportunidade de acompanhar, desde o inicio, a evolução dos sistemas, e da metodologia a eles relativa, relacionados a gestão da produção industrial, mais propriamente o MRP-II, que derivava da evolução do MRP , que era um mecanismo de derivação de demanda e cálculo de demanda líquida, após considerar estoques em mãos e ordens de suprimento em curso.

Tal sistema de derivação de demanda, partiu da sacada genial do engenheiro da IBM, Joseph Orlicky de, com base no processador (BOMP e DPOMB) da lista de material de um produto, representar as dependências lógicas de um determinado item componente dentre vários produtos, de forma a calcular a demanda líquida respeitando os diversos níveis precedentes. Ou seja, só calcula a demanda líquida após todos os diversos produtos, conjuntos, subconjuntos, onde se aplica este material (componente ou matéria-prima) apresentarem as suas demandas líquidas. Esta solução para o problema do cálculo da demanda líquida (MRP) em uma única rodada de processamento do planejamento de produção e de materiais se deu nos anos 60. Daí derivou-se para o MRP-II, que é a integração das outras funções relativas ao planejamento empresarial, seja de produção ou de compras. Depois desdobrou-se a solução para o que hoje denominamos ERP (Entreprise Requirements Planning).

Mas tal solução sempre partiu do conhecimento explícito da demanda independente, aquela que parte do conhecimento da necessidade de uso do produto final. Ou seja, da explicitação por parte do cliente de suas necessidades, sejam estas contratadas, ou não. Hoje, com o advento da internet, das transações efetuadas em rede (na nuvem), facilitando a transação entre empresas e das suas unidades fabris, da aplicação de robótica e do tratamento da demanda utilizando técnicas de machine-learning, e as mais recentes aquisições tecnológicas, pode-se afirmar que o conhecimento preciso ou oportuno da demanda é que continua sendo a base para a acertividade deste instrumento gerencial: o conhecimento mais preciso possível da demanda.

A precisão da demanda independente está diretamente ligada ao ambiente negocial, a demanda efetiva do mercado consumidor. O que me moveu então em visitar, após alguns anos, os diversos fornecedores de softwares ERP, para conhecer as novas facilidades e automatismos foi a nossa situação econômica e mesmo, no específico caso brasileiro, as implicações fiscais que se diferenciam dentre os diversos segmentos produtivos e as diferentes legislações estaduais que tratam de recolhimento de impostos e diferentes favores e renúncias fiscais.

Aqui cabe então uma questão: Sabendo que vivemos um processo de desendustrialização, de consequente enorme influência de importação de produtos industrializados; do enorme ( !!! ) valor da renúncia fiscal, que alcança por volta de 4% do PIB, inibindo o investimento público estimulador da industrialização, faço a mim mesmo a seguinte pergunta: - Terão as empresas brasileiras de desenvolvimento de software capacidade de oferecer soluções próprias baratas, de qualidade, que possam fazer frente a uma futura industrialização e a concorrência internacional?

Tal questionamento nos obriga rever os atuais custos e modalidades de negócio relativas aos produtos de software. Daí uma nova fase de desenvolvimento e de política de emprego dos recursos de produção, que ora “pjtizados”, terão de projetar carreiras estáveis em ambientes de desenvolvimento criativo com aprofundamento tecnológico, científico que viabilizem soluções próprias.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Mariupol - Por Pepe Escobar e comentários

Novamente tomei a liberdade de trazer o artigo do Pepe Escobar, que publica aulas de geopolítica (de graça) que copio do Brazil247. Acho que a divulgação destes artigos auxilia a entender o jogo complexo da geopolítica onde, no mar das publicações absolutamente destorcidas da imprensa mainstream, vários componentes políticos, sociais, econômicos, militares se interagem, perfazendo uma trama que nem sempre é visível e compreensível por nos mortais imprensados entre o hegemon já decadente e amalucado e as novas e arejadas brisas que vêm do oriente; ou melhor da Eurásia.

A leitura deste artigo nos revela não apenas a complexa interação dos impulsos desenvolvimentistas e inovadores que se originam desde a China, a Russia, a Índia e o Paquistão (mérito do russo Sergei Lavrov), o Irã e os demais que estarão na rota inexorável, mas não tão admirável, Mundo  Novo. Haverá tropeços, desgastes, armadilhas, traições etc..pois o gigante que hoje se debate na convulsão do demorado fim, de tudo fará; ou melhor está fazendo, pouco importa que morram ucranianos, sírios, palestinos, latinos, africanos.

Há ainda uma questão que perguntaria ao articulista quando afirma:

Não haverá sentido em privilegiar os corredores setentrionais da ICR – China-Mongolia-Russia via Transiberiana e a ponte terrestre via Cazaquistão – no momento em que a Europa descamba para uma demência medieval.

Esta questão trago quando observo a influência da Turquia neste cenário e a ligação do petróleo do Mar Cáspio ao Mar Negro, enfatizando aqui a influência de Baku sobre Istambul e vice-versa. 

De qualquer modo várias questões emergirão da leitura deste excelente artigo de Pepe Escobar. Desejo então uma boa aventura neste teto.

 Por Pepe Escobar, para o The Cradle.co, 

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

Mariupol, o porto estratégico do Mar de Azov, continua no olho da tempestade na Ucrânia. 

 Segundo a narrativa da OTAN, a Azovstal – uma das maiores usinas metalúrgicas e siderúrgicas da Europa, foi praticamente destruída pelo Exército Russo e pelas as forças aliadas de Donetsk que "sitiaram" Mariupol.

A história verdadeira é que, desde o início da operação militar russa na Ucrânia, os neonazistas do Batalhão Azov vinham usando como escudos humanos dezenas de civis de Mariupol para depois recuarem para o Azovstal, usado como último ponto de resistência. Após um ultimato proferido na semana passada, eles agora vêm sendo totalmente exterminados pelas forças da Rússia e de Donetsk e pela Spetsnaz chechena.

Azovstal, parte do grupo Metinvest controlado pelo oligarca mais rico da Ucrânia, Rinat Akhmetov, é de fato uma das maiores usinas metalúrgicas da Europa, que descreve a si própria como um empreendimento metalúrgico integrado e de alto desempenho produzindo coque, sedimento calcário, aço, bem como outros produtos como rolamentos, barras e moldes".

Em meio a uma tempestade de depoimentos detalhando os horrores infligidos pelos neonazistas do Azov sobre a população civil de Mariupol, uma outra história invisível e bem mais auspiciosa traz bons augúrios para o futuro imediato.

A Rússia é a quinta maior produtora de aço, além de possuir imensos depósitos de ferro e carvão. Mariupol – uma Meca siderúrgica – antes obtinha seu aço de Donbass, mas a partir dos eventos de 2014 em Maidan, que levaram a um domínio neonazista de fato, a cidade tornou-se importadora. O ferro, por exemplo, passou a ser fornecido por Krivbas, na Ucrânia, distante mais de 200 quilômetros de Mariupol.

Depois de Donetsk se solidificar como república independente ou, por meio de um referendo, optar por se tornar parte da Federação Russa, essa situação fatalmente será alterada.

Azovstal investe na produção de uma grande variedade de produtos extremamente úteis: aço estrutural, trilhos de estradas de ferro, aço reforçado para correntes, equipamento de mineração, rolamentos para máquinas industriais, caminhões e vagões ferroviários. Parte das instalações da fábrica são bem modernas, enquanto outras, construídas há décadas, necessitam urgentemente de serem modernizadas, o que a indústria russa é perfeitamente capaz de fazer.

Em termos estratégicos, o complexo é enorme, situado nas proximidades do Mar de Azov, que hoje, para todos os fins práticos, foi incorporado à República Popular de Donetsk, e próximo ao Mar Negro. O que significa uma curta viagem até o Leste do Mediterrâneo e inclui muitos clientes potenciais do Oeste Asiático. E, cruzando o Suez e chegando até o Oceano Índico, há clientes de toda a Ásia do Sul e do Sudeste Asiático.

A República Popular de Donetsk, portanto, possivelmente parte de uma futura Novorossiya ou mesmo parte da Rússia, estará no controle de muita capacidade de manufatura siderúrgica para o Sul da Europa, o Oeste Asiático, podendo chegar até ainda mais longe.

Uma das consequências inevitáveis será sua capacidade de fornecer produtos para um verdadeiro boom de construção ferroviária na Rússia, China e nos "istãos" da Ásia Central. A construção de ferrovias é o modo de conectividade privilegiado por Pequim para a ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). E o que é ainda mais importante, também para o cada vez mais turbinado Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS).

Situada a meio caminho, portanto, Mariupol pode esperar vir a se converter em um dos principais nós de um boom das rotas norte-sul – o CITNS através da Rússia e suas conexões com os "istãos" - bem como grandes modernizações nos corredores leste-oeste da ICR e nos corredores sub-ICR.

A Eurásia Interligada

Os principais atores do CITNS são Rússia, Irã e Índia que agora, na etapa pós-sanções da OTAN, estão em modo avançado de interconexão, inclusive com a formulação de mecanismos visando contornar o dólar americano em seu comércio internacional. O Azerbaijão é um outro ator importante no CITNS, embora mais volátil em razão de privilegiar os planos turcos de conectividade no Cáucaso.

A rede do CITNS, além disso, irá gradativamente se ligar ao Paquistão - o que significa o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), um nó importante da ICR, que, de forma lenta mas segura, vai se expandindo em direção ao Afeganistão. A visita não-programada do Chanceler Wang Yi a Cabul, na semana passada, teve como objetivo fazer avançar a incorporação do Afeganistão às Novas Rotas da Seda.

Tudo isso ocorre enquanto Moscou - extremamente próxima a Nova Delhi - vem, simultaneamente, expandindo suas relações comerciais com Islamabad. Os três países, o que é crucial, são membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

O grande desenho Norte-Sul, portanto, indica uma conectividade fluente do grande interior russo até o Cáucaso (Azerbaijão) e Oeste Asiático (Irã), chegando até o Sul da Ásia (índia e Paquistão). Nenhum desses atores importantes em algum momento demonizou ou aplicou sanções à Rússia, apesar das atuais pressões nesse sentido por parte dos Estados Unidos.

Estrategicamente, isso representa o acionamento do conceito russo de multipolaridade da Parceria da Grande Eurásia em termos de comércio e conectividade – paralelamente e complementando a ICR, uma vez que a Índia, ansiosa por instalar um mecanismo rúpia-rublo para compra de energia, neste caso é um parceiro absolutamente essencial para a Rússia, do mesmo nível de importância do acordo estratégico de 400 bilhões de dólares entre a China e o Irã. Na prática, a Parceria da Grande Eurásia irá facilitar uma conectividade mais desimpedida entre Rússia, Irã, Paquistão e Índia.

O universo OTAN, enquanto isso, é congenitamente incapaz de reconhecer a complexidade desse alinhamento e muito menos de analisar suas implicações. O que temos aqui é o entrelaçamento da ICR, do CITNS e da Parceria da Grande Eurásia na prática - noções essas que são, todas elas, vistas como anátema pelo Beltway de Washington.

Tudo isso, é claro, vem sendo formulado em meio a um momento geoeconômico que representa uma total virada de jogo, na medida que a Rússia, a começar desta quinta-feira, passará a só aceitar de nações "inamistosas" pagamentos em rublos por seu petróleo.

Paralelamente à Parceria da Grande Eurásia, a ICR, desde seu lançamento em 2013, também vem progressivamente tecendo uma rede complexa e integrada de parcerias eurasianas: nas áreas financeiro/econômicas, de conectividade, de construção de infraestrutura física e de corredores econômicos e comerciais. O papel da ICR como co-formuladora de instituições de governança global, incluindo suas bases normativas, vem tendo também importância crucial, para o desespero da aliança da OTAN.

Hora de desocidentalizar

Mas só agora o Sul Global, especialmente, irá começar a perceber a total amplitude do jogo China-Rússia na esfera eurasiana. Moscou e Pequim estão profundamente envolvidas na empreitada conjunta de desocidentalizar a governança globalista, se é que não em eliminá-la por completo.

A Rússia, de agora em diante, será ainda mais meticulosa em sua construção de instituições, unindo a União Econômica Eurasiana (UEE), a OCX e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) – uma aliança militar eurasiana de estados pós-soviéticos selecionados - em um contexto geopolítico de irreversível divisão institucional e normativa entre a Rússia e o Ocidente.

Ao mesmo tempo, a Parceria da Grande Eurásia solidificará a Rússia como a principal ponte eurasiana, criando um espaço eurasiano capaz de ignorar a Europa vassalizada.

Enquanto isso, na vida real, a ICR, tanto quanto o CITNS, estarão cada vez mais plugados ao Mar Negro (alô, Mariupol). E a própria ICR talvez tenda a reavaliar sua ênfase na ligação da China Ocidental à base industrial cada vez mais precária da Europa Ocidental.

Não haverá sentido em privilegiar os corredores setentrionais da ICR – China-Mongolia-Russia via Transiberiana e a ponte terrestre via Cazaquistão – no momento em que a Europa descamba para uma demência medieval,

O novo foco da ICR será obter acesso às commodities insubstituíveis – e isso significa Rússia – e também assegurar o abastecimento adequado da indústria chinesa. Os países ricos em commodities, como o Cazaquistão e muitos dos atores africanos, irão se converter nos grandes mercados do futuro comércio internacional chinês.

Em um giro pré-covid pela Ásia Central, era comum ouvir que a China constrói fábricas e ferrovias, enquanto a Europa, na melhor das hipóteses, redige documentos. E pode piorar ainda mais.

A União Europeia como território ocupado pelos Estados Unidos está desmoronando aceleradamente, passando de um centro do poder global à condição de um ator periférico sem a menor importância, um mero mercado decadente na periferia longínqua da "comunidade de destino compartilhado" criada pela China.



domingo, 27 de março de 2022

 Tornem o nazismo novamente grande - Pepe Escobar

O alvo supremo é a mudança de regime na Rússia. A Ucrânia é apenas um peão nesse jogo - ou pior ainda, bucha de canhão

25 de março de 2022, 17:59 

www.brasil247.com - REUTERS/Serhii Nuzhnenko, REUTERS/Serhii Nuzhnenko 

Todos os olhos se voltam para Mariupol. Desde quarta-feira à noite, mais de 70% das áreas residenciais estavam sob o controle das forças de Donetsk e da Rússia. Ao mesmo tempo, os fuzileiros navais russos, o 107º batalhão de Donetsk e a Spetsnaz chechena, liderados pelo carismático Adam Delimkhanov, entraram na usina de Azov-Stal – o QG do batalhão Azov neonazista. 

Azov recebeu um ultimato final: rendam-se até a meia-noite - senão... sugerindo uma estrada para o inferno sem tomada de prisioneiros. 

Enquanto isso, ecos do Império de Mentiras praticamente entregaram o jogo. Ninguém em Washington tem a mínima intenção de facilitar um plano de paz para a Ucrânia - o que explica as incessantes táticas de procrastinação do comediante Zelensky. O alvo supremo é a mudança de regime na Rússia e, para tal, uma Totalen Krieg contra a Rússia e contra todas as coisas russas  é dada como certa. A Ucrânia é apenas um peão nesse jogo - ou pior ainda, bucha de canhão.

Isso também significa que as 14 mil mortes ocorridas no Donbass nos últimos oito anos devem ser atribuídas diretamente aos Excepcionalistas. Quanto aos neonazistas ucranianos de todos os matizes, eles são tão descartáveis quanto os "rebeldes moderados" da Síria, tanto os da al-Qaeda quanto os ligados ao Daesh. Os que porventura venham a sobreviver sempre poderão se juntar à recém-criada NeoNazi S.A. patrocinada pela CIA, uma remixagem vagabunda da Jihad S.A. da década de 1980, no Afeganistão. Eles serão devidamente "Kalibrados".

Uma breve recapitulação do neonazismo 

A essas alturas, apenas os OTANistaneses acometidos de morte cerebral - e há hordas deles - não têm conhecimento do que ocorreu em Maidan em 2014. No entanto, poucos sabem que foi o então Ministro do Interior da Ucrânia, antes governador de Kharkov, que deu sinal verde para que uma turma de 12 mil paramilitares se materializasse a partir da Sect 82, a violenta torcida  organizada do Dynamo Kiev. Nasceu aí o Batalhão Azov, em maio de 2014, sob a liderança de Andriy Biletsky, também conhecido como o Fuhrer Branco, e antigo líder da gangue neonazista Patriotas da Ucrânia.

Juntamente com o agente secreto da OTAN Dmitro Yarosh, Biletsky fundou o Pravy Sektor, financiado pelo chefão da máfia ucraniana e bilionário judeu Ihor Kolomoysky (que mais tarde apadrinharia a meta-conversão de Zelensky de comediante medíocre a presidente medíocre).

O Pravy Sektor, por acaso, era ferozmente anti-União Europeia – digam isso a Ursula von der Leyen – e sua obsessão política era ligar a Europa Central e os Países Bálticos em um novo e cafonérrimo Intermarium. É importante observar que o Pravy Sektor e outras gangues nazistas foram devidamente treinados por instrutores da OTAN.

Biletsky e Yarosh, é claro, são discípulos do notório colaboracionista e partidário do nazismo do tempo da Segunda Guerra, Stepan Bandera, para quem os ucranianos puros são proto-germânicos ou escandinavos, enquanto os eslavos são untermenschen, ou sub-humanos.

O Azov acabou por absorver a quase totalidade dos grupos neonazistas da Ucrânia, que foram mandados para lutar  contra o Donbass – onde seus acólitos ganhavam mais dinheiro que os soldados regulares. Biletsky e um outro líder neonazista, Oleh Petrenko, foram eleitos para a Rada. O Führer Branco ficou sozinho. Petrenko decidiu apoiar o então presidente Poroshenko. Não demorou para que o Batalhão Azov fosse incorporado como o Regimento Azov da Guarda Nacional da Ucrânia. 

Eles partiram em uma empreitada de recrutamento de mercenários estrangeiros e trouxeram gente da Europa Ocidental, da Escandinávia e até mesmo da América do Sul. 

O que era estritamente proibido pelos Acordos de Minsk garantidos pela França e pela Alemanha (e agora oficialmente enterrados). O Azov montou um campo de treinamento para adolescentes que logo chegou a 10 mil integrantes. Erik "Blackwater" Prince, em 2020, firmou um acordo com as forças armadas ucranianas que permitiam que seu grupo, agora com o novo nome de Academi, supervisionasse o Azov. 

Foi ninguém menos que a sinistra distribuidora de biscoitos em Maidan, "F*da-se a UE" Nuland que sugeriu a Zelensky – ambos, por sinal judeus ucranianos - que nomeasse o nazista Yarosh como consultor do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Ucranianas, o General Valerii Zaluzhnyi. O alvo: organizar uma blitzkrieg contra Donbass e a Crimeia – a mesma blitzkrieg que a SVR, o serviço de inteligência estrangeira russo, concluiu que seria desencadeada em 22 de fevereiro, motivando assim o lançamento da operação Z.

Tudo o que foi dito acima, que na verdade não passa de uma breve recapitulação, mostra que na Ucrânia não há a menor diferença entre os neonazistas brancos e os terroristas da al-Qaeda/ISIS/Daesh de pele escura, da mesma forma que os neonazistas são tão "cristãos" quanto os jihadis takfiri salafistas são "muçulmanos".

Quando Putin denunciou que "um bando de neonazistas" estava no poder em Kiev, o comediante respondeu que isso era impossível porque ele era judeu. Bobagem. Zelensky e seu patrono Kolomoysky, para todos os fins práticos, são sio-nazistas.

Mesmo que setores do governo dos Estados Unidos tenham admitido que havia neonazistas entrincheirados no aparato de Kiev, a máquina excepcionalista fez simplesmente desaparecer os oito anos de bombardeios diários de Donbass. Essas milhares de vítimas civis jamais existiram.

A mídia comercial dos Estados Unidos chegou até mesmo a arriscar uma ou outra matéria ou notícia sobre o Azov e os neonazistas de Aidar. Mas então uma narrativa neo-orwelliana foi gravada em pedra: não há nazistas na Ucrânia. O NED, filhote da CIA, chegou mesmo a deletar registros sobre o treinamento de integrantes do Aidar. Em data recente, uma rede de notícias vagabunda promoveu um vídeo de um comandante do Azov treinado pela OTAN e usado para fins de combate - com iconografia nazista e tudo o mais.

Por que a "desnazificação" faz sentido 

A ideologia do Banderastão remonta aos tempos em que essa parte da Ucrânia era de fato controlada pelo Império Austro-Húngaro, pelo Império Russo e pela Polônia. Stepan Bandera nasceu na Áustria-Hungria em 1909, próximo a Ivano-Frankovsk, no então autônomo Reino da Galícia. 

A Segunda Guerra Mundial desmembrou os impérios europeus em pequenas entidades muitas vezes inviáveis. No Oeste da Ucrânia - uma intersecção imperial - esse desmembramento, como não poderia deixar de ser, levou à proliferação de ideologias de extrema intolerância. 

Os ideólogos do Banderastão se aproveitaram da chegada dos nazistas, em 1941, para  proclamarem um território independente. Mas Berlim não apenas bloqueou essa decisão como também os mandou para campos de concentração. Em 1944, entretanto, os nazistas mudaram de tática: eles libertaram os bandeiranistas e os manipularam, instilando neles ódio aos russos, criando assim uma força de desestabilização na Ucrânia pertencente à URSS. 

O nazismo, portanto, não é exatamente a mesma coisa que o fanatismo banderanista: trata-se, na verdade, de ideologias rivais. O que aconteceu desde Maidan é que a CIA manteve um agudo foco na incitação do ódio aos russos em meio a quaisquer grupos periféricos que ela conseguisse instrumentalizar. Na Ucrânia, portanto, não se trata de um caso de "nacionalismo branco" – para usarmos termos brandos – mas de nacionalismo ucraniano anti-russo, para todos os fins práticos expressos em saudações e simbologia de estilo nazista.

Portanto, quando Putin e as lideranças russas falam de nazismo ucraniano, eles talvez não estejam sendo 100% corretos em termos conceituais, mas o fato é que esse termo cala fundo em todos os russos. 

Os russos rejeitam o nazismo visceralmente - considerando que praticamente todas as famílias russas tiveram pelo menos um antepassado morto na Grande Guerra Patriótica. Da perspectiva da psicologia de tempos de guerra, faz total sentido falar de "ucro-nazismo" ou, mais especificamente, de uma campanha de "desnazificação". 

Os anglos amavam tanto os nazistas 

O fato de o governo dos Estados Unidos torcer abertamente pelos neonazistas da Ucrânia não é propriamente uma novidade, tendo em vista seu apoio, juntamente com o da Inglaterra, a Hitler em 1933, por razões de equilíbrio de poder.

Em 1933, Roosevelt emprestou a Hitler um bilhão de dólares-ouro, enquanto a Inglaterra emprestava a ele dois bilhões na mesma moeda. Isso deve ser multiplicado por 200 para se chegar ao valor do dólar de hoje. Os anglo-americanos queriam erigir a Alemanha como uma muralha contra a Rússia. Em 1941, Roosevelt escreveu a Hitler que se ele invadisse a Rússia os Estados Unidos ficariam do lado da Rússia, e escreveu a Stalin que se ele invadisse a Alemanha os Estados Unidos apoiariam a Alemanha. Não pode haver ilustração mais gráfica do equilíbrio do poder à la McKinder.

Os britânicos estavam muito preocupados com a ascensão do poder russo sob Stalin e percebiam também que a Alemanha estava de joelhos, com um desemprego de 50% em 1933, caso fossem incluídos os alemães itinerantes não-fichados. 

Até mesmo Lloyd George tinha dúvidas quanto ao Tratado de Versalhes, que enfraqueceu a Alemanha a um nível insuportável depois da rendição na Primeira Guerra. O propósito da Primeira Guerra, na visão de mundo de Lloyd George, era destruir tanto a Rússia quanto a Alemanha. A Alemanha ameaçava a Inglaterra com a construção, pelo Kaiser, de um frota destinada a dominar os mares, enquanto o Tzar ficava perto demais da Índia, situação desconfortável para a Inglaterra.  Por algum tempo, Britânia ganhou - e continuou a reinar sobre as ondas. 

Então, fortalecer a Alemanha para combater a Rússia se tornou a prioridade número um – com toda uma reescrita da História. A união dos alemães austríacos e dos sudetos à Alemanha teve a total aprovação dos britânicos. 

Mas então veio o problema polonês. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, França e Inglaterra se colocaram à margem. Essa invasão levou a Alemanha às fronteiras da Rússia, e Alemanha e Rússia dividiram a Polônia. Isso era exatamente o que a Grã-Bretanha e a França queriam. Grã-Bretanha e França haviam prometido à Polônia que elas invadiriam a Alemanha a partir do oeste enquanto a Polônia lutaria contra a Alemanha no leste.

Ao final, os poloneses foram traídos. Churchill chegou a louvar a Rússia por invadir a Polônia. Hitler foi avisado pelo MI6, o serviço secreto britânico, que a Inglaterra e a França não invadiriam a Polônia - como parte de seu plano para uma guerra teuto-russa. Desde a década de 1920, Hitler vinha recebendo apoio financeiro do MI6, em agradecimento a suas palavras simpáticas à Inglaterra em Mein Kampf. O MI6 de fato incentivou Hitler a invadir a Rússia.

Avançamos para 2022, e aqui estamos de novo - como em uma farsa, com os anglo-americanos "incentivam" a Alemanha, sob o comando do fraco Scholz, a se reequipar militarmente com um investimento de 100 bilhões de euros (que os alemães não têm), e constroem a tese de uma força europeia renovada para, mais adiante, ir à guerra contra a Rússia.  

Dica sobre a histeria russofóbica da mídia anglo-americana quanto à parceria estratégica russo-chinesa. O medo mortal, para os anglo-americanos, é um combinado de Mackinder/Mahan/Spykman/Kissinger/

Brzezinski: a Rússia-China, como par de gêmeos, ocupando as massas terrestres eurasianas – a Iniciativa Cinturão e Rota se encontrando com a Grande Parceria da Grande Eurásia – para assim reinar sobre o planeta, com os Estados Unidos relegados a um insignificante status insular, tanto quanto a  antiga  "Rule Britannia". Inglaterra, França e, mais tarde, os americanos, conseguiram evitar essa situação quando a Alemanha aspirava a esse mesmo controle sobre a Eurásia, lado a lado com o Japão, do Canal da Mancha ao Pacífico. Hoje o jogo é totalmente outro.

A Ucrânia, portanto, com suas patéticas gangues neonazistas, é apenas um peão descartável no esforço desesperado de conter algo que está para além do anátema, da perspectiva de Washington: uma Nova Rota  da Seda Teuto-Russo-Chinesa totalmente pacífica.

A russofobia, gravada maciçamente no DNA do Ocidente, na verdade nunca acabou. Cultivada pelos britânicos desde Catarina a Grande - e depois com o Grande Jogo. Pelos franceses, desde Napoleão. Pelos alemães porque foi o Exército Vermelho que liberou Berlim. Pelos americanos, porque Stalin forçou sobre eles o novo mapa da Europa - e então a russofobia continuou durante toda a Guerra Fria. 

Estamos apenas nos estágios preliminares da grande arrancada final do Império moribundo tentando estancar o fluxo da história. Eles estão perdendo em termos estratégicos e em termos militares para a maior potência militar do mundo, e irão sofrer um cheque-mate. Em termos existenciais, eles não estão equipados para matar o Urso - e isso dói. Cosmicamente.

sábado, 19 de março de 2022

Guerra da Ucrânia – a conjuntura e o sistema - José Luis Fiori

 Tomei a liberdade de copiar o artigo do Prof. José Luis Fiori,  transcrito do Brasil247,((Publicado no site A Terra é Redonda). Para me justificar devo dizer do desconforto de ler o original do Brasil247 intercalado de anúncios (reclames como diziam meus antepassados) e que dificultam a leitura. Desta forma resolvi colaborar com meus amigos apresentando-o integralmente sem estes desconfortos, mas que são necessários a sobrevivência do Brasil247. Sou um seguidor e admirador, pra não dizer "fanzoca", do Professor Fiori e venho lendo seus artigos e seus livros que descortinam a realidade de forma lúcida, e desapaixonada (como consegue?) dos conflitos mais recentes. 

Quiz apresentar a minha interpretação do texto, mas percebi que, pouco ou nada, poderia contribuir para reflexão. Basta a sua leitura e consequente amadurecimento das ideias. Boa leitura.

José Luís Fiori

Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Sobre a Guerra (Vozes, 2018)

Guerra da Ucrânia – a conjuntura e o sistema

"O projeto cosmopolita, pacifista e humanitário da década de 1990 foi atropelado pelo poder americano", escreve José Luís Fiori

18 de março de 2022..

Por José Luís Fiori

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Através da história, duas coisas foram ficando mais claras: em primeiro lugar, as guerras aumentam os laços de integração e dependência entre os grandes poderes territoriais deste sistema que nasceu na Europa a partir do séculos XIII e XIV; em segundo lugar, os poderes expansivos no “jogo das guerras” não podem destruir seus concorrentes/adversários, ou então são obrigados a recriálos…E este talvez seja o maior segredo deste sistema: o próprio “poder expansivo” é quem cria ou inventa – em última instancia – os seus competidores e adversários, indispensáveis para a sua própria acumulação de poder”. (José Luís Fiori. “Formação, expansão e limites do poder global”, em O poder americano, Ed. Vozes).

. É muito comum falar da aceleração do tempo histórico, apesar de que ninguém saiba exatamente o que isto significa, ou por que isto acontece. Todos reconhecem, no entanto, que são momentos em que fatos e decisões importantes se concentram e se precipitam, alterando significativamente o rumo da história. E hoje existe um grande consenso de que aconteceu algo desse tipo na virada dos anos 1990, provocando uma mudança radical no panorama geopolítico mundial na última década do século XX.

Tudo começou de forma surpreendente, na madrugada de 9 para 10 de novembro de 1989, quando foram abertos os portões e derrubado o muro que dividia a cidade de Berlim, separando o “Ocidente liberal” do “Leste comunista”. O mais importante, entretanto, ocorreu logo depois, com o processo em cadeia de mudança dos regimes socialistas da Europa Central e Oriental, que levou à dissolução do Pacto de Varsóvia e à reunificação da Alemanha, no dia 3 de novembro de 1990, culminando com a dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria, em 1991.

Naquele momento, muitos comemoraram a vitória definitiva (que depois não se confirmou) da “liberal-democracia” e da “economia de mercado” contra seus grandes adversários e concorrentes do século XX: o “nacionalismo”, o “fascismo” e, finalmente, o “comunismo”. No entanto, o que de fato se concretizou naquela virada da História foi um velho sonho ou projeto quase utópico dos filósofos e juristas dos séculos XVIII e XIX, e dos teóricos internacionais do século XX: o aparecimento de um poder político global, quase monopólico, que fosse capaz de impor e tutelar uma ordem mundial pacífica e orientada pelos valores da “civilização ocidental”. Uma tese que pôde finalmente ser testada depois da vitória avassaladora dos Estados Unidos na Guerra do Golfo, em 1991.

Trinta anos depois, entretanto, o panorama mundial mudou radicalmente. Em primeiro lugar, os Estados e as “grandes potências”, com suas fronteiras e interesses nacionais, voltaram ao epicentro do sistema mundial, e a velha “geopolítica das nações” voltou a funcionar como bússola do sistema interestatal; o “protecionismo econômico” voltou a ser praticado pelas grandes potências; e os grandes “objetivos humanitários” dos anos 1990, e o próprio ideal da globalização econômica, foram relegados a um segundo plano da agenda internacional. Mais do que isto, o fantasma do “nacionalismo de direita” e do “fascismo” voltou a assombrar o mundo, e o que é mais surpreendente, penetrou a sociedade e o sistema político norte-americano, culminando com a vitória da extrema-direita nas eleições presidenciais americanas de 2017.

Nesses trinta anos, o mundo assistiu à vertiginosa ascensão econômica da China, à reconstrução do poder militar da Rússia e ao declínio do poder global da União Europeia (UE). Mas o mais surpreendente talvez tenha sido a forma como os próprios Estados Unidos passaram a desconhecer, atacar ou destruir as instituições globais responsáveis pela gestão da ordem liberal internacional instaurada nos anos 90, sob sua própria tutela, desde o momento em que declararam guerra contra o Afeganistão, em 2001, e contra o Iraque, em 2003, à margem – ou explicitamente contra – da posição do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Por último, e talvez o mais intrigante, é que a potência unipolar desse novo sistema, que seria teoricamente a responsável pela tutela da paz mundial, esteve em guerra durante quase todas as três décadas posteriores ao fim da Guerra Fria. Começando imediatamente pela Guerra do Golfo, em 1991, quando as Forças Armadas americanas apresentaram ao mundo suas novas tecnologias bélicas e sua “nova forma de fazer guerra”, com o uso intensivo de armamentos operados à distância, o que lhes permitiu uma vitória imediata e arrasadora, com um mínimo de perdas e um máximo de destruição de seus adversários. Foram 42 dias de ataques aéreos contínuos, seguidos por uma invasão terrestre rápida e contundente, com cerca de 4 mil baixas americanas e cerca de 650 mil mortos iraquianos. Uma demonstração de força que deixou claro ao mundo a diferença de forças que havia dentro do sistema internacional depois do fim da União Soviética.

Depois disso, os Estados Unidos fizeram 48 intervenções militares na década de 1990 e se envolveram em várias guerras “sem fim”, de forma contínua, durante as duas primeiras décadas do século XXI. Nesse período, os norte-americanos fizeram 24 intervenções militares ao redor do mundo e realizaram 100 mil bombardeios aéreos, e só no ano de 2016, ainda durante o governo de Barack Obama, lançaram 26.171 bombas sobre sete países. simultaneamente.[1] Encerrou-se assim, definitivamente, a expectativa dos séculos XVIII, XIX e XX, de que um “superestado” ou uma “potência hegemônica” conseguiria finalmente assegurar uma paz duradoura dentro do sistema interestatal criado pela Paz de Westfália de 1648. Ou seja, no período em que a humanidade teria estado mais próxima de uma “paz perpétua”, tutelada por uma única “potência global”, o que se assistiu foi uma sucessão quase contínua de guerras envolvendo a própria potência dominante (Fiori, 2008).

São números que não deixam dúvidas com relação ao fato de que o projeto cosmopolita, pacifista e humanitário da década de 1990 foi atropelado pelo próprio poder americano. Uma constatação extraordinariamente intrigante, em particular se tivermos em conta que não se tratou de um acidente de percurso, ou apenas de uma reação defensiva datada. Pelo contrário, tudo aponta para o desdobramento de uma tendência central que foi se desvelando através de uma sucessão de guerras, fossem elas defensivas, humanitárias, de combate ao terrorismo, ou simplesmente de preservação das posições de poder das grandes potências dentro do sistema internacional.

A análise dessas guerras que precederam e explicam em parte a atual Guerra da Ucrânia, somadas às guerras do século XX, permite-nos extrair algumas conclusões ou hipóteses que transcendem esta conjuntura, projetando-se sobre a história de longo prazo da guerra e da paz através da evolução das sociedades humanas. Em primeiro lugar, a grande maioria das guerras não tem como objetivo a obtenção da paz ou da justiça, nem leva necessariamente à paz. Elas buscam sobretudo a vitória e submissão ou “conversão” dos adversários, e a expansão do poder dos vitoriosos.

A “paz” não é sinônimo de “ordem”, e a existência de uma “ordem internacional” não assegura a paz. Basta ver o que aconteceu nos últimos 30 anos, com a “ordem liberal-cosmopolita” que foi tutelada pelos Estados Unidos depois do fim da Guerra Fria, e que se transformou num dos períodos mais violentos da história norte-americana. Como já havia acontecido, também, com a “ordem internacional” que nasceu depois da Paz de Westfália, período em que a Grã-Bretanha, sozinha, iniciou uma nova guerra a cada três anos, entre 1652 e 1919, mesma periodicidade que teriam as guerras norte-americanas, entre 1783 e 1945 (Holmes, 2001).

Dentro do sistema interestatal, a “potência dominante”, mesmo depois de conquistar a condição de um “superestado”, segue se expandindo e fazendo guerras, e necessita fazê-lo para poder preservar sua posição monopólica já adquirida. O envolvimento dos EUA, por isso mesmo, a “potência dominante”, não tem compromisso obrigatório com o status quo que eles tutelam e ajudaram a criar. E, muitas vezes, eles são obrigados a modificar ou destruir esse status quo, uma vez que suas regras e instituições comecem a obstruir o caminho de expansão do seu poder (Fiori, 2008).

A paz é quase sempre um período de “trégua”[2] que dura o tempo imposto pela “compulsão expansiva” dos ganhadores, e pela necessidade de “revanche” dos derrotados. Esse tempo pode ser mais ou menos longo, mas não interrompe o processo de preparação de novas guerras, seja da parte dos vitoriosos,[3] seja da parte dos derrotados.[4] Por isso se pode dizer, metaforicamente, que toda paz está sempre “grávida” de uma nova guerra.

Em todo tempo e lugar, a guerra aparece associada de forma indisfarçável com a existência de hierarquias e desigualdades, ou mais exatamente, com a existência do “poder” e da “luta pelo poder”.

Se essas hipóteses não forem refutadas, poderíamos concluir que o projeto kantiano da “paz perpétua” não é apenas uma grande utopia; é de fato um “círculo quadrado”, ou seja, uma impossibilidade absoluta. Apesar disso, a “paz” se mantém como um desejo de todos os homens, e aparece no plano da sua consciência individual e social, como uma obrigação moral, um imperativo político e uma utopia ética quase universal. Nesse plano, a guerra e a paz devem ser vistas e analisadas como dimensões inseparáveis de um mesmo processo contraditório, perene e agônico de anseio e busca dos homens por uma transcendência moral muito difícil de ser alcançada.[5]

Referências

ABBÉ DE SAINT PIERRE. Projeto para tornar perpétua a paz na Europa. Brasília: Editora UnB, 2003.

BOBBIO, N. O problema da guerra e das vias da paz. São Paulo: Editora Unesp, 2002.

FIORI, J. L. “O sistema interestatal capitalista na primeira década do século XXI”. In: FIORI, J. L. et al. O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.

HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Victor Civita, 1983 (Coleção Pensadores).

HOLMES, R. (Edit) The Oxford companion to military history, Oxford University Press, 2001

Notas

[1] Segundo dados apresentados por Micah Zenko, especialista em política externa norte-americana, publicados no site oficial do Council of Foreign Relations (www.cfr.org).

[2] “[…] a paz é apenas uma longa trégua, obtida por meio de um estado de crescente, persistente e progressiva tensão” (Bobbio, 2002, p. 73).

[3] “Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo o tempo restante é de paz” (Hobbes, 1983, p. 76).

[4] “O desejo de se ressarcir de um prejuízo que se crê haver sofrido, de vingar-se mediante represálias, de tomar ou retomar o que se considera sua propriedade, a inveja do poder, ou da reputação, o desejo de mortificar e rebaixar um vizinho de quem se pensa haver causa para detestar: eis aí tantas fontes de querelas que nascem nos corações dos homens e que somente podem produzir incessantes embates, seja com razão e com pretexto, seja sem razão e sem pretexto” (Abbé de Saint Pierre, 2003, p. 18)

[x] Este artigo reúne excertos extraídos do prefácio do livro organizado por J. L. Fiori, Sobre a Paz, publicado pela Editora Vozes em 2021. Seu título original é “O paradoxo de Kant e a leveza da paz”




quinta-feira, 17 de março de 2022

Salvemos a tapioca, na guerra e na paz

 Falar hoje sobre a lamentável guerra que se trava nas províncias do Donbas, há mais de sete anos diga-se de passagem, não deixa de ser necessário, mas uma de suas consequências é urgente comentar: a alta do preço do trigo. Alta esta derivada  da escassez que advirá consequente desta guerra, já que a Ucrânia e a Rússia são os maiores produtores do mundo. A tal escassez se adicionará a falta de nitrogenados para os cultivares do "trigo do cerrado" que já poderiam estar suprindo as necessidades nacionais se, há uns vinte anos tivessemos acelerado as pesquisas da EMBRAPA na criação "dos trigos do cerrado" e sua produção adaptada as condições tropicais. Sugiro aqui a leitura da reportagem na Sputnik, "Comam tapioca': alta no preço do pão no Brasil deve continuar mesmo sem conflito na Ucrânia" em  (1). Para conhecimento mais amplo e aprofundado ler (2). 

Mas o que mais afetará, e ainda incluindo a produção de soja, será a escassez de fertilizantes importados da Rússia. Foi necessário uma guerra sangrenta para que a mídia amestrada daqui viesse  noticiar o fechamento das plantas de produção de fertilizantes da Petrobrás. 

Temos que retornar então as questões nacionais. Aqui emerge a questão mais evidente: A destruição da industria de oleo e gaz, a destruição da construção naval, a destruição das gigantes brasileiras na área de engenharia civil e construção, pela famigerada quadrilha da "Lava Jato" que se vendeu (não por trinta moedas, mas por milhões delas) aos EUA, traindo descaradamente o Povo e  Pátria brasileira. Tudo isso com o beneplácito e a benção dos militares brasileiros. Não satisfeitos com este crime de alta traição ainda colocam um general, regiamente pago, para sugar o que resta na presidência da Petrobras. Aí está este herdeiro do Pedro Parente, ajudante do sátrapa Michel Temer, traidor mor, Silvério dos Reis da modernidade. 

Por aqui não temos guerra, mas o crime de alta traição e a consequente destruição perpetrada pelos moros, os temer, os parente e os militares brasileiros estão nos tirando o pão da boca. Aliás muitos já nem mais tem acesso a este básico e simbólico alimento. Pelo menos salvemos a mandioca que Dilma outrora, grotescamente ridicularizada, valorizara. Comamos tapioca então.


(1)  https://br.sputniknews.com/20220317/comam-tapioca-alta-no-preco-do-pao-no-brasil-deve-continuar-mesmo-sem-conflito-na-ucrania-21862233.html .

(2) https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1130787/trigo-brs-394-cultivar-para-o-cerrado-do-brasil-central

quarta-feira, 16 de março de 2022

Guerra? Isso vem de longe

 Já está havendo uma certa impaciência e cansaço por parte da nossa sociedade ao assistir as reportagens da imprensa amestrada, seja televisiva, seja internética ou seja escrita, que assumindo um lado no conflito Rússia/Ucrânia, o que não seria uma questão por si só lamentável, passa a transmitir notícias falsas. Custo a crer que não seja intencional, tal falsidade.

Já há, mesmo dando à noticias os descontos necessários dos exageros e perfídias de ambos os lados do conflito, razoável percepção que este conflito já poderia simplesmente ter terminado, ou mesmo nem começado, se não houvesse, desde 2014 (repito, desde 2014), a matança de civis nas províncias do Donbass (Luhansk e Donetsk). Tivesse a Ucrânia, evitado a ação bélica das milícias, e o do Batalhão Azov, contra as províncias separatistas, provavelmente estas até já estariam incorporadas ao território ucraniano, e esta guerra nem teria se iniciado. Mas temos que lembrar que tanto o ocidente, a OTAN, quanto a própria Ucrânia fecharam os olhos as mais de quinze mil mortes de civis, mulheres, crianças e idosos,  trucidados por aqueles que endeusam até hoje Stepan Bandera (1). A OTAN, ou seja, os países europeus e os EUA, são responsáveis por mais uma tragédia humana. Quanto aos EUA, estes estão acostumados, mas, com exceção da Austria, Suécia, Finlândia, Sérvia e Irlanda, que mesmo pertencentes a União Europeia negam-se a participação na OTAN, os europeus da OTAN são coniventes com as milhares de mortes na Síria, na Líbia, na Bósnia Herzegovina, na Sérvia. Isso para não falar da Geórgia, da Ossétia,  da Abecassia,, da Chechênia, onde provocaram e armaram insurgentes sem nenhuma ameaça aos países da OTAN. Mera provocação e politicagem que resultou em milhares de mortes.

Se observarmos a inclusão dos trinta países vamos ver que há motivação óbvia, enquanto existia a União Soviética; após a sua extinção não há outro motivo de incorporação de nações, a não ser aquela que a Russia reclama: cerco ao seu território. Vejamos o mapa abaixo, (que ainda (2009)  não incorpora Montenegro e Macedônia do Norte, incorporados em 2017 e 2020 respectivamente, ambos com intenção de cercar a Sérvia), e as datas de incorporação dos países. Fácil perceber o cerco intencionado.


Os países  que fundaram a OTAN, desde 1949, foram aqueles que participaram da Segunda Guerra Mundial e teriam motivos de sobra par sua auto-defesa:

EUA e Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Itália, Luxemburgo, Noruega e Reino Unido. 
Adicionalmente Portugal e Islândia, que não participaram da guerra, entraram na OTAN.

Alemanha, recém ocupada, somente entrou na OTAN em 1955, juntamente a Grécia e Turquia em 1952 e a Espanha em 1982. Aí já se percebe os efeitos da Guerra Fria em oposição ao Pacto de Varsóvia que incorporava os países europeu da União Soviética (Países Bálticos (Lituânia, Estônia, Letônia), Polônia, Hungria, então Tchecoslováquia (atual República Tcheca e Eslováquia), Bulgaria, Romênia e a então Yugoslávia).

Daí em diante, após a dissolução da União Soviética, a OTAN avançou na incorporação dos páises saídos do Pacto de Varsóvia, incorporando em 1999, Hungria, Polônia e República Tcheca (que tinham um passado de opressão Rússia soviética). Em 2004 incorporaram Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Países Bálticos e Romênia.

Quando de 1992 a 1995 houve a Guerra da Bósnia, onde a OTAN, i.e. países europeus,  com um massacre destruiíram, com banho de sangue,  a então Yugoslávia em 1990;  e apertaram o cerco a Rússia em 2009, incorporando Albânia e Croácia. No final em 2017, já depois do banho de sangue em Donbass (Donestk e Luhang), incorporam Montenegro (um belo estado, mas artificial) e Macedônia do Norte, outro estado desmembrado da antiga Yugoslávia. O que mais é preciso, olhando o mapa e vendo as datas para perceber o cerco a Rússia. Faltava apenas a Ucrânia, a Geórgia, o Casaquistão, o Turcomenistão, o Usbequistão, a Quiquizia, a Moldávia, e a Mongólia. Pergunte-se se não houve interferência insuflando revoltas em todos estes países? Mais recentemente o Casaquistão passou por uma crise onde não faltou, com destruição e mortes, a interferência confessada da OTAN, ou melhor dos EUA.

Portanto é necessário ver , com olhos ( e com a mente também)  mais abertos as causas remotas e recentes do atual conflito e não apenas seguir carneiramente a mídia amestrada.


(1) Stepan Bandera:  ativista ucraniano que lutou com os nazistas na Segunda Guerra e que passou a ser homenageado na recente Ucrânia.