sexta-feira, 11 de abril de 2025

Bateu na trave

     Como não podia deixar de ser, o assunto mais badalado na imprensa, tanto a nacional quanto a estrangeira, é a “Tarifação do Trump”. Mas, para um observador atento mas simplório como eu, vejo que o recuo de noventa dias, ou por “deixar respirar um pouco a economia europeia”, ou por perceber que as tarifas acabarão por provocar uma queda no PIB mundial de 2%, e aí todo mundo saindo perdendo, inclusive os EUA, dará tempo de se inflar os “salva-vidas” do “mercado mundial”, (afinal Trump nada mais é que o produto do “mercado” e da jogatina) incluindo os chineses, e também nós aqui no quintal da Casa Branca.

    Mas o “nosso quintal”, expressão utilizada pelo próprio Trump, nos inclui e todos os demais países da América Latina.

    É oportuno entretanto lembrar que a última reunião da CELAC1, da qual não se esperava consenso sobre o tema “tarifação” (pra não pronunciar “domínio”, afinal é uma reunião de diplomatas e presidentes), muitos países sequer compareceram e alguns já estão absolutamente integrados ao “quintal” de corpo e alma; a maioria do Caribe, mas também Argentina e Paraguay aqui na América do Sul.

    Sobre este tema, duas questões temos que ressaltar:

- A primeira se relaciona a dominação mesmo. Não apenas no plano político mas, principalmente, no plano econômico, onde se revelam “os mercados”, ou seja, grupos sociais que operam a economia da especulação e do jogo, da qual usufruem a riqueza financeira. (Infelizmente tenho que utilizar a palavra riqueza, embora só considero riqueza aquela produzida pelo trabalho; para os praticantes do “mercado” existe no vernáculo a expressão mais adequada correta, i.e. esbulho).

- A segunda, é a que afeta maior população e mais crítica na dominação, referem-se aos países que são alvo da cobiça, tanto pelas condições econômicas objetivas, ou seja, aquelas expressas nos seguintes itens: riqueza mineral, população, produção agrícola, produção industrial, tecnologia própria, saúde pública, nível educacional desde a alfabetização até ao nível universitário, estabilidade política; este último até escasso, devido aos efeitos das próprias intervenções, espionagem e golpes perpetrados pelo próprio Estados Unidos. Aqui no Brasil temos o caso típico da “Lava Jato” que mirou a destruição das grandes empresas empreiteiras de engenharia2 em conluio com elementos do “mercado”.

    Nem posso abordar o caso do Brasil, tanto por ser tão complexo como os demais na situação de interferência política e econômica, quanto por se distanciar do objetivo do presente texto, mas temos que diferenciar o caso brasileiro, pois mesmo estando sob ataque político e cibernético, ainda existe alguma resiliência. Quanto ao Paraguay e Argentina a situação está bem caracterizada como “quintal”.

    O primeiro caso, o Paraguay, que esteve quase instalando uma base militar americana, depende da sua produção agrícola quase exclusivamente de “brasilguaios” que, segundo últimos levantamentos, são responsáveis pela quase totalidade da produção de soja e arroz. Quanto a energia elétrica nem se fale, pois dependem integralmente da Itaipú Binacional. Entretanto o Paraguay ainda se recente no presente, não somente da interferência direta dos EUA, mas também dos efeitos do longo período de ditadura do pedófilo Stroessner.

    Quanto a Argentina de Milei, o que posso dizer é que o processo de “quintalização”, desculpe o neologismo, vem desde o golpe contra Ramón Castillo nos anos quarenta. Daí em diante, mesmo durante Perón, o nacionalismo argentino era um embuste que, piorando com os anos sujos da ditadura militar, acaba com Menen destruindo a economia argentina por completo. Milei então é o coroamento da dominação cultural, econômica, política e militar. Nada de melhor poder-se-ia esperar.

    Após então esta divagação sobre o “quintal” quero deixar claro que, muito antes de Trump mencioná-lo, Paulo Nogueira Batista Jr. já o fizera magistralmente no livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Nem vale a pena expandir o tema, seria contraproducente, tampouco deitar falação, já que o autor fala a partir sua experiência de dentro do FMI e da trajetória intelectual, a partir de uma formação acadêmica e histórica ímpar.

    O que pretendia humildemente expressar, nem sei se consegui, era mostrar que a tal crise da “tarifação” é endêmica, pelo menos na América Latina. Só não era percebida no pós-guerra no continente europeu, pois este, além do Plano Marshall, ainda recebeu por longos anos das colônias, e ainda recebe, juntamente com a participação econômica e militar dos EUA, o produto com a tarifação praticamente zero. Acho até mesmo que Fukuyama “bateu na trave”.

1 Países insulares do Caribe: Barbados, Belize, Dominica, Cuba, Granada, Haiti, Jamaica,  República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago

Países da América Central continentais: México, Honduras, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Nicarágua e Panamá,

Países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru,  Suriname, Uruguai e Venezuela

2Odebrecht, OAS, UTC, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia e Camargo Corrêa....   

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Deu no que Deu

     Dois dias após o anúncio da “Tarifação de Trump” os “mercados” ainda andam nervosos, a ponto de algumas bolsas acionarem a parada do pregão. Mas, a nosso juízo, a tarifação não somente terá um efeito  pífio   na   política americana, do ponto  de  vista  econômico,  como  também  não  provocará o déclenchement” de  uma   crise aos moldes  de 2008.  Não tenho conhecimento de economia a ponto “deitar falação técnica” sobre o tema, mas percebo claramente a diferença de cenário e da constatação que a economia tão discutida pelos teóricos está longe de se tratar de um processo ergódico, e até por ser influenciada por componentes sócio-ambientais e socio-culturais e muito distante de características holomórficas que nos permita previsões precisas. Só mesmo quem está no ramo de venda e compra de ações, ou seja, um “esperto” do tão badalado “mercado” é que arrisca palpites precisos. “Mercado” este que não foi capaz de prever a crise de 2008 nem um mês antes desta eclodir. Nem tampouco posso assegurar com precisão a estabilidade e o retorno a economia produtiva que vigorou no nosso país nos tempos do JK.

    O que queremos dizer é que o sistema, não sendo ergódico, nos permite afirmar que o atrator econômico centrado na China e nos seus satélites asiáticos do ASEAN, (sendo que Filipinas, Brunei e Singapura pouco contam por estarem ainda no cabresto americano) têm um ballast que lhes permite vencer as ondas criadas pelas economias ocidentais. Na histeria de 2008 à cada variação de um ponto percentual na bolsa de Ulan-Bator o mundo vinha a baixo, era o caos. Barack Obama tomou posse e com uma penada acabou com a histeria; mas custou quanto? A que preço?

    Mesmo superficialmente podemos mencionar que a intervenção de Obama, que custou US$ 1,5 trilhão ao Tesouro Americano, na verdade é insignificante perante ao total da dívida atual. Os atuais US$ 35 trilhões, estes sim, foram engordados pela combinação de mecanismos de “mercado” e pela corrupção desenfreada nas encomendas ao complexo industrial militar, um foco de desperdício de riqueza. Para ilustrar: - na encomenda do último navio porta-aviões americano e seus aviões gastaram o equivalente na construção dos três equivalentes chineses.
    Agora com Trump a motivação do “tarifaço”, o verdadeiro atrator da crise, reside dentro da economia que se “financeirisou”, baseada nos “mercados” relegando a produção da verdadeira riqueza a terceiros que, para engabelar os simplórios e ingênuos, e mesmo os “espertos”, dizia ser feita por trabalho escravo. Referiam-se a China evidentemente, e nem diziam que parte daquele trabalho era divido com o Vietnam, com o Laos, com o Camboja, com a Indonésia, e quem mais quisesse trabalhar, já que os “ocidentais” não se lembravam mais do tempo em que seus pais construíam na indústria a riqueza que agora desperdiçam no “mercado”.

    Só para refrescar a nossa memória colocamos como referência o que ocorreu no Brasil, e a sua produção industrial.

   1. Décadas de 1930–1950: Industrialização Incipiente
        Contexto: Substituição de importações (Getúlio Vargas).
        Crescimento médio anual (1930–1940): ~4,5% ao ano.
        Marcos: CSN (1941) – siderurgia. - Fábrica Nacional de Motores (1942).
        Produção industrial em 1950 (estimativa): ~US$ 10 bilhões (em valores atuais, ajustados pela paridade de             poder de compra – PPC).
                Fonte: IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

2. Décadas de 1960–1980: "Milagre Econômico" e Crise
        1968–1973 (Milagre): Crescimento industrial de +11% ao ano.
    Expansão da indústria automotiva (Volkswagen, Ford).
        Década de 1980 (Crise da Dívida): Queda acumulada de −7% (1981–1983).
        Produção industrial em 1980 (em valores atuais): ~US$ 200 bilhões (PPC).
                Dados: IBGE (Contas Nacionais).

3. Décadas de 1990–2010: Abertura Econômica e Volatilidade
        1994 (Plano Real): Estabilização, mas desindustrialização relativa.
        2004–2010 (Commodities): Recuperação (média de +3,5% ao ano).
    Pico em 2011: Produção industrial valia ~US$ 500 bilhões (em PPC, preços atuais).
        2014–2016 (Recessão): Queda de −20% (pior retração desde 1930).
                Fonte: FGV (Fundação Getúlio Vargas).

4. 2020–2023: Pandemia e Recuperação Frágil
        2020: Queda de −4,5% (COVID-19).
        2023: Produção industrial em ~US$ 450 bilhões (PPC), ainda abaixo do pico de 2011.
        Setores em alta: Agroindústria, mineração e energia.
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Dados recentes: IBGE (PIM-PF – Pesquisa Industrial Mensal).

Gráfico de Referência (Valores Ajustados)

Ano Produção Industrial (US$ bi, PPC)* Evento Histórico
1950     ~10           Base industrial incipiente
1980     ~200         Crise da dívida
2011     ~500         Pico pré-recessão
2023     ~450         Recuperação pós-pandemia
(Valores aproximados, corrigidos por inflação e PPC).


Tendo vivido a experiência do meu país, o que posso concluir é que o “tarifaço do Trumo” pretende trazer de volta a produção industrial. Mas dificilmente conseguirá alcançar os níveis de antes do “milagre japonês” dos anos 70. Em vez, naquela época, de aprimorarem a qualidade dos produtos e da capacidade gerencial, como já estavam mergulhados na financeirização e em outro patamar tecnológico, preferiram “punir” os japoneses. Deu no que deu. Cabe agora correr atrás do prejuízo....Pesquisa, pesquisa, indústria....e menos jogatina.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Mercado?

 Há pouco comentava sobre a necessidade de Estados financiarem a pesquisa sobre a decomposição dos RSU´s, especialmente os plásticos, pois aí repousa o desafio tecnológico 1 que inevitavelmente terá de contar com a contribuição de micro-organismos; assim como nós 2 na nossa bio-constituição.

Daí tenho que migrar para outra esfera, onde o tema da necessidade de financiamento pelo Estado, se opõe a peroração neoliberal que desconhece os sucessos das economias capitalistas, onde casos de sucesso foram antecedidos por forte financiamento estatal; basta ver o Vale do Silício nos Estados Unidos e as encomendas governamentais na área militar e aeroespacial nos EUA e em toda Europa. China nem vale mencionar; essa nunca aceitou pisar na ratoeira do Consenso de Washington.

Mas já saltando para esfera da política econômica, hoje não poderia deixar de dizer o que me incomoda após o alarido na imprensa após a “tarifação do Trump” que diz que o “mercado vai despencar”. Vamos ao que me incomoda:

1. O “mercado” não é o mesmo que apoiou a eleição de Trump?

2. Trump não é senão uma criação do mercado e do jogo?

3. Por que ele iria “tocar fogo no barraco”?

4. Quando a imprensa fala em reeditar a crise de 2008, pergunto se a China naquela época já teria construído a estratosférica reserva “em dólares”.

5. Será essa a intenção de Trump? Queimar o superavit chinês?

6. Se o Estado Americano em 2008 salvou GM, Ford, Citi dentre vários, por que a China agora não faria o mesmo?

7. Por que eu iria agora esquecer a 500 crianças que foram ontem brutalmente assassinadas pelos donos do “mercado”? Ou o sionismo é o que?


Não sei mesmo responder nenhuma destas perguntas, mas não tenho a menor preocupação com o “mercado”, principalmente aqui no meu país, que pratica uma extorsão que resulta em milhares de crianças dependendo de favor na fila da matrícula da escola; escola sem acesso aos progressos das tecnologias, mas que cedem espaço para reuniões de pastores evangélicos politiqueiros que se esforçam para engrossar as fileiras dos que ainda acreditam “no mercado” e “na anistia para os injustiçados”.

E o “mercado” da Faria Lima? Ah…prefiro não responder, ou responder com o dito latino:

"Bonis nocet, qui malis parcit." (Ofende os bons, quem poupa os maus)

1https://www.xataka.com.br/diversos/ha-decadas-pensamos-que-reciclar-plasticos-valia-alguma-coisa-talvez-estivessemos-errados

2Ver “10% Humano” , de Alanna Collen, onde mostra a constituição biológica humana, que somente possui 10% das células, quando 90% são micro-organismos.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Quem sabe?

Dá série "Lixo e luxo"

A partir da percepção da oportunidade de investimento no tratamento dos RSU´s, se desenvolveu a ideia de que tais investimos, especialmente aqueles que se referem ao processo de degradação biológica, têm na mutação gênica de micro-organismos (bactérias, fungos, arqueas, protozoários e até vírus) uma promessa de maior rendimento trófico, energético e, por consequência, econômico.

A missão de recuperação do desenvolvimento industrial atualmente aplicada pelo governo brasileiro (MDICS, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comercio e Serviços), através da ativação de Cadeias Produtivas, dentre um conjunto de missões1 que detém maior poder de aceleração e viabilidade, terá de estar também dirigida ao problema que sintetizaremos “RSU”, problema brasileiro, planetário e, ainda que não percebamos, urgente, e que exige ação do Estado.

Para todas as missões estipuladas, o desenvolvimento terá aceleração se contar com as novas formas de gestão e de tecnologia aplicada2. Diante desta constatação e da notória dificuldade inerente a solução biológica já comentada nos blogs anteriores, fica a questão: O Estado Brasileiro terá estabelecido o problema de tratamento RSU´s como um problema urgente e que ensejaria o financiamento de desta linha de pesquisa específica? E se afirmativo, haveria o interesse de alguma empresa com espírito empreendedor a esta altura, que justificasse a iniciativa do BNDES?

O envolvimento das entidades do Estado Brasileiro que tratam do RSU´s e suas implicações na política ainda tem que ultrapassar estágios de organização e formalização profissional, institucionalização das relações das empresas, das PPP´s desde a área de saneamento básico, fornecimento de água até o aproveitamento final destes RSU´s. Entretanto a pesquisa básica é que tem que “sair na frente”, pois ela guiará a politica e a economia na direção do aproveitamento de oportunidades, vide o caso do “plástico a partir do bagaço de cana”, ou da “super-cana”. Quem sabe?

1   Missão 1: Agricultura de precisão (drones e sensores); Máquinas agrícolas e suas partes e componentes; Fertilizantes e biofertilizantes; Têxtil.

Missão 2: Medicamentos e Princípios Ativos biológicos; Vacinas, hemoderivados, terapias avançadas; Dispositivos Médicos (equipamentos   médicos). 

Missão 3: Sistemas de propulsão; Baterias elétricas; Metroferroviários e suas peças, partes e componentes.

Missão 4: Semicondutores; Robôs industriais; Produtos e serviços digitais avançados (Plataformas digitais e computação em nuvem; Audiovisual). 

Missão 5: Novas fontes de energia (Hidrogênio, diesel verde e SAF); Equipamentos de energia verde (painéis solares e aerogeradores); Descarbonização da indústria de base (cimento, aço e química verdes).

Missão 6: Veículos lançadores; Radares; Satélites 

2    O Prof. Uallace Moreira do MDICS, já explicitou em manifestação na internet a ideia de aceleração a partir de tecnologias emergentes 3G, 4G, 5G ( terceira, quarta e quinta geração ) visto que repetir aquelas de geração anterior, não permitiria alcançar o estado-da-arte.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Tem é que querer

    Dando continuidade ao assunto do artigo anterior "Lixo e Luxo", i.e.o lixo urbano, ou (Resíduos Sólidos Urbanos) RSU, que  aborda um problema que preocupa todas as nações, já que este evoluiu para uma escala planetária, onde aqui no Brasil ensejou a criação de uma legislação específica (lei nº 12.305 de 2010), que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Precisamos esclarecer que não pretendemos aprofundar a questão nas suas especificidades, tais como o tratamento a ser dado aos resíduos domésticos e também a resíduos hospitalares, que requerem tratamento próprio, ao  resíduo industrial que abrange uma extensa gama de componentes  e agora tendo mais um componenete que são os resíduos de aparelhos eletrônicos, com especial atenção ao descarte de pilhas e telefones celulares.

    Obviamente não cabe aqui o aprofundamendo do problema, mas o que temos em mente é a forma como serão tratados os seus componentes. O que temos como objetivo é mostrar que a solução geral do problema do tratamento do RSU será conduzido à utilização de recursos biológicos especializados. Não vemos como possível decompor uma gama tão extensa de resíduos, em direção ao aproveitamento reciclavel apenas com tratamento físco-químicos. Sem o auxílio luxuoso (desculpe Luiz Melodia tomar emprestado) das nossas sócias na decomposição da biota terrestre, as bactérias,  as soluções químicas, além de serem mais caras, deixarão inexoravelmente novos rejeitos que por sua vez exigirão tratamento adicional. 

    Também temos de levar em consideração a opção de geração de energia, o que hoje já se constitui em atividade lucrativa. E é este ponto que estabelece o grau de mérito da solução, ou soluções, que serão encontradas, a economicidade; mas aí sim considerando o benefício final, que inevitavelmente será intangível. Caso contrário iremos cair na restrição usual de lucratividade imediata, normalmente aventada por quem busca o lucro fácil. Cabe somente aos Estados nacionais financiar as soluções candidatas, pois os custos de pesquisa de transformação biológica dos resíduos, de aproveitamento energético, são imensos. Muito embora já haja instituições privadas atuando nesta área de geração de energia, mas com rendimento ainda incipiente. Aqui então se apresenta um imenso problema planetário, capitaneando uma imensa oportunidade de investimento na sua solução. Seria o equivalente da pesquisa espacial dos anos 70. Os subprodutos ( by-product ) ultrapassam exponencialmente em seus benefícios os custos de pesquisas e os custos. O "princípio do não-custo" da Toyota aplicado nos anos 70 tem aqui a sua otimização e o seu coroamento: - não fazer custa mais caro ainda.

    Insistimos então na imensa oportunidade que se abre, através da solução biológica, ou das soluções, dos problemas inerentes ao tratamento dos RSU´s. Custa caro, mais caro ainda é não tentar.

    Recentemente fiz uma pesquisa no DeepSeek, até para comparar às já feitas em outros aplicativos de IA, referente a um dos passos a serem empregados na geração de organismos comensalistas, o que exigiria a construção de estruturas RNA. E um passo desta construção é o estabeleceimento de sua tridimensionalidade, ou seja: como dobrar a fita RNA de sorte que "se encaixe" em 3D na busca da sua interação. É apenas uma parte da solução é claro. A resposta sintética obtida estabeleceu os seguintes passos:

1. Determinação da Sequência de Nucleotídeos

   - A primeira etapa é conhecer a sequência primária do RNA, ou seja, a ordem dos nucleotídeos  (A, U, C, G) que compõem a molécula. Isso pode ser feito através de técnicas de sequenciamento de RNA.

2. Predição da Estrutura Secundária

- A estrutura secundária do RNA refere-se ao padrão de emparelhamento de bases (formação de pares de bases complementares, como A-U e C-G) e à formação de regiões de dupla hélice (helices) e loops (laços).

   - Ferramentas computacionais, como o “Mfold”, “RNAfold” ou “ViennaRNA”, podem prever a estrutura secundária com base na sequência de nucleotídeos, considerando a termodinâmica do emparelhamento de bases.

3. Modelagem da Estrutura Tridimensional

- A estrutura tridimensional (3D) do RNA é determinada pela forma como a estrutura secundária se dobra no espaço. Isso inclui a orientação das hélices, loops, e outras características como pseudoknots (estruturas complexas onde regiões de dupla hélice se entrelaçam).

- Técnicas experimentais como a cristalografia de raios-X e a ressonância magnética nuclear (RMN) podem ser usadas para determinar a estrutura 3D de moléculas de RNA. No entanto, essas técnicas são caras e demoradas.

    - Modelagem computacional é uma alternativa comum. 

 Ferramentas como RosettaMC-Fold/MC-Sym ou SimRNA podem prever a estrutura 3D com base na sequência e na estrutura secundária. Esses métodos usam algoritmos que simulam a dobramento do RNA no espaço, considerando as interações físico-químicas.

4. Validação da Estrutura

- Após a modelagem, a estrutura 3D predita deve ser validada. Isso pode ser feito comparando-a com dados experimentais, como mapas de densidade eletrônica (no caso de cristalografia) ou dados de RMN.  - Ferramentas como “MolProbity” ou “RNA-Puzzles” podem ser usadas para avaliar a qualidade da estrutura predita.

5. Análise Funcional

- Uma vez que a estrutura 3D é determinada, é possível analisar como a forma da molécula de RNA está relacionada à sua função. Por exemplo, identificar sítios de ligação a proteínas, íons, ou outras moléculas de RNA.

- Técnicas como docking molecular podem ser usadas para prever RNA a interação com outras moléculas.

6. Refinamento e Iteração

- A estrutura 3D pode ser refinada iterativamente, ajustando os parâmetros do modelo com base em novos dados experimentais ou simulações computacionais mais precisas.

 7. Visualização e Análise

 - Ferramentas de visualização molecular, como **PyMOL**, **Chimera**, ou **VMD**, são usadas para visualizar a estrutura 3D e analisar características específicas, como a localização de sítios ativos ou interações intermoleculares.

Desafios na Construção Tridimensional do RNA

Flexibilidade: As moléculas de RNA são frequentemente flexíveis, o que dificulta a determinação de uma única estrutura estável.

- Interações com íons e solventes: A estrutura do RNA é altamente dependente da presença de íons (como Mg²⁺) e do ambiente aquoso, o que deve ser considerado na modelagem.

Pseudoknots e estruturas complexas: Algumas estruturas de RNA, como pseudoknots, são particularmente difíceis de prever e modelar.

Conclusão

A construção tridimensional de uma molécula de RNA é um processo multidisciplinar que combina técnicas experimentais e computacionais. A precisão da estrutura 3D é essencial para entender a função biológica do RNA e para o desenvolvimento de aplicações em biotecnologia e medicina, como o design de ribozimas ou a terapia baseada em RNA.  

Para quem já fez vacina da gotinha há menos de um século e fez vacinaRNA na emergência de uma pandemia, "é simples😊"; tem é que  querer sair do lixo. 

terça-feira, 1 de abril de 2025

Lixo e luxo

 Hoje pela manhã me deparei com um pensamento, que aliás sempre me vem a mente, quando recolho o lixo doméstico; função a que estou obrigado por não ter ninguém que me substitua. Mas que também me obriga a pensar no problema planetário da eliminação do plástico, do aquecimento global, et pour cause da tecnologia. 

Quanto ao primeiro item da preocupação, os plásticos, presentes em quase todas as embalagens, terá de haver um esforço de pesquisa, de financiamento desta, para substituição total no planeta por produto plástico semelhante que seja biodegradável. Caso contrário estaremos aumentando de tamanho a "ilha" de lixo que existe no Oceano Pacífico, tão grande que é visível do espaço. 

Antigamente no Brasil existia uma frase que dizia: "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil". Faço uma "boutade": "Ou o mundo acaba com os plásticos, ou os plásticos acabam com o mundo". Não é mais possível tolerar a forma como as cidades, ou os povos urbanos, se relacionam com o lixo plástico. Vejo-me obrigado, todo dia, a redimensionar, dividir, quebrar, fracionar as embalagens para que o volume diminua e consequentemente seja mais manipulável e transportável pelo serviço de coleta municipalizado. Mas isso não basta, visto que o crescimento da quantidade descartada cresce exponencialmente. Fui buscar na COMLURB, empresa municipal de alto nível de desempenho funcional e gerencial de limpeza urbana da cidade do Rio de Janeiro, cuja população, diga-se passagem não prima muito pelo cuidado no descarte e na manipulação do lixo doméstico,  o aprofundamento deste tema: coleta e tratamento de lixo. A quantidade de serviços desta empresa pública é imensa, mas lhe falta a capacidade, como a todas as demais das grandes cidades mundo afora, da suficiente transformação do lixo urbano em matéria reaproveitável. Causa maior em todos os casos, inclusive mundo afora, o plástico.

Assisti outro dia uma entrevista do conhecido empresário Eike Batista, que está investindo na produção da super-cana, com o objetivo, dentre outros, de vir a produzir o plástico a partir do bagaço de cana; o que aliás já vom sendo desenvolvido no Instituto de Química da Universidade de São Carlos da USP.

O que chamo atenção é para o fato que tal pesquisa e seu objetivo, apenas tangencia o que chamamos de "aquecimento global", pois este tem origens, segundo minha humilde opinião, em fatores planetários absolutamente alheios e independentes da atividade humana. Trago aqui este tema pois, repito, na minha opinião tal aquecimento advém de ciclos geofísicos ainda não percebidos ou quantificados pela ciência e que se relacionam com a energia solar; aproximação e inclinação do eixo da Terra, influência de outras massas planetárias, etc... Basta ver que a quantidade de energia solar que chega a Terra: 174 petawatts hora (PWh) ou 174 acompanhado de 15 zeros Watts. Ou seja, a humanide e suas atividades tróficas, considerando desde a era quando descobriu o fogo até hoje, não chega a este número. O aquecimento advem de um ciclo idêntico aos que geraram as glaciações. Mas nem por isso podemos viver no meio do descartável, do lixo. 

Aí é que a ciência tem a sua importante missão: transformar o descartável em matéria útil. Tenho a impressão que tal missão será assumida por dois meios, um químico direto e um biológico. Quanto ao primeiro, através de técnica heurística, encontrar-se-á um processo que irá por sua vez, exigir a minimização de descarte. Quanto ao segundo, através de produção de microorganismo com componentes com DNA e RNA artificiais, irá então se alcançar uma minização do descarte. Em ambos o uso da AI irá acelerar um resultado satisfatório. Quanto ao primeiro o processo, heuristico principalmente, será orientado por eleição de roteiros. Quanto ao segundo, muito mais complexo, será exigida a construção de moléculas artificiais de DNA/RNA de indivíduos eucariontes cujo problema da construção 3D tridimensional irá exigir a combinação de técnicas heurísticas, experimentais, e computacionais. A precisão da estrutura 3D será essencial para entender a função biológica do RNA. Acho que tal desafio exigirá o concurso de compuação quântica juntamente a aplicação de AI dado ao altíssimo grau de complexidade. 

Cabe a pergunta então: - Até lá, o que fazer? "Até lá" significa a transformação completa do plástico químico em elemento biológico. Portanto até lá teremos que produzir plásticos biodegradáveis em escala crescente. O remanescente dos plásticos  químicos será objeto de degradação física e servirão de teste para o processo completo de degradação biológica. 

Outra pergunta que permanece é: E a evolução social necessária para o descarte  do lixo, principalmente o doméstico, já que o industrial sempre haverá o recurso coercitivo?  Educação e Propaganda de forma contínua seria a resposta. 

A COMLURB faz parte desta resposta, pois já possui capacidade gerencial e operacional para tanto. Deveria ter até uma linha de pesquisa especializada; ou própria ou consorciada com um Instituto de Pesquisa ( UERJ, COMPERJ, etc...por exemplo ) Basta ter uma receita compatível com o tamanho deste problema, o lixo, o que seria um luxo.


segunda-feira, 31 de março de 2025

Nem tanto prazer em recordar.

    Hoje finalmente dei-me o trabalho de assistir um voto, da seção da Primeira Turma do STF referente a aceitação da denúncia do Procurador Geral da República dos participantes da tentativa do golpe, se é que se pode assim nomear tamanha destruição, não somente do patrimônio publico, como da já combalida ordem institucional, com riscos de morte inclusive. Escolhi então o voto da Ministra Carmen Lúcia, pois já havia visto parte deste. A motivação deste texto daí deriva: da menção à reconstituição histórica das ameaças e quebras da  ordem constitucional.

Quando cita a quebra da ordem costitucional de 1937 aí já se configurava o que viria pela frente. Os detentores de poder político e econômico remanescentes da república velha, lembrando que os ex-presidentes desde Wnceslau Braz ainda estavam vivos, e alguns deles ainda ativos na política, principalmente os paulistas e os mineiros, com destaque para Artur Bernardes que chegou a ser fundador da famigerada UDN. Muito houvia falar deste pelas minhas tias-avós testemunhas atentas de todo processo político desde a proclamação da República. 

Quando então se aproxima a crise de 1954 que notoriamente fora urdida pelos insatisfeitos com a criação da Petrobras e da Eletrobras, instrumentos de desenvolvimento que o Executiva criara, com  muitas finalidades objetivas, mas para se desembaraçar de um Legislativo que lhe bloqueava qualquer tentativa de desenvolvimento. Lá ainda estava presente a velha oligarquia rural que não permitiu a aquisição de terras por parte de ex-escravos, e tampouco por imigrantes, pois estes eram menos submissos, principalmente aqueles recentes alemães e italianos do sul. . (https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-170-anos-lei-de-terras-desprezou-camponeses-e-oficializou-apoio-do-brasil-aos-latifundios). 

Na época a que me refiro, assistia aos  debates políticos intensos na minha família, entre minhas tias apoiadores de Getúlio Vargas e seus irmãos, meu pai e meu tio, apoiadores de Carlos Lacerda, que no dia 5 de agosto de 1954, no incidente da Rua Tonelero no Rio de Janeiro fora atacada pelos pistoleiros de Getúlio. Há quem testemunhe que o próprio Carlos Lacerda, dera um tiro no pé, quando viu que o seu guarda-costa, o Major Rubend Vaz, fora vitimado. Lembro-me perfeitamente deste dia, uma quinta-feira, pois naquela época as quinta-feiras não havia aula nas escolas primárias publicas na capital federal. Ficou gravado na minha memória; dezenove dias depois,  aí sim ficou definitivamente gravado, assim como todos os debates acalorados que assistira. Ajudou-me muito a construir uma concepção política nos anos posteriores, incluindo as tentativas de golpe contra JK, Aragarças e Jacareacanga, ambos insuflados pela recem-criada CIA. Na minha juventude, apesar de muito mais ligado às maravilhas tecnológicas ligadas a aviação, recem admitido na PANAIR do BRASIL, não tinha mais dúvidas quanto a origem de 1964.

Citei a minha herança política, para explicar minha admiração pelo voto da Ministra Carmen Lúcia, que desvenda, à luz da História, a tácita conspiração. 

Quanto a denúncia, só tenho a dizer: - Setenta anos depois, observo a mesma motvação, os mesmos financiadores, os mesmos  tolos. Faz-me lembrar as aulas de latim do ginásio:

"indocti discant et ament meminisse periti"

que aprendam os ignorantes e os doutos achem prazer em recordar".