quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Sou otimista.

 Fui cobrado, criticado melhor dizendo, por um parente leitor da última postagem (O estrago foi grande mesmo - 11/11/25) por não ter sido mais profundo na questão da desindustrialização. Sinto-me na obrigação da réplica, pois não sendo sociólogo, tampouco um estudioso da matéria, amarguei tempos difíceis quando da desisdustrialização, principalmente a partir de 1984, lá se vão os quarenta anos, Assim como eu, vários que se dedicavam ao desenvolvimento de sistemas de gestão industrial também o foram, mas muitos outros com clientela já firmada lograram, por sorte nossa brasileiros, sobreviver e mesmo evoluir. Ocorre que para fazer frente a evolução mundial (zeitgeist) remanescente ainda era, e ainda é, insuficiente. 

O que ocorreu neste intervalo de quarenta anos onde a postagem anterior expõe a causa mais fundamental; realmente o que poderia ser agregado naquele texto seria a menção à tempestade perfeita que juntava o fator externo (Consenso de Washington)  à aqueles internos que juntavam por sua vez, a baixa remuneração de trabalhadores, incluindo os qualificados, e a adesão do empresariado à práticas da financeirização,  ou seja ao juro. A desindustrialização nasce desta simbiose. A desvalorização do trabalho já existia por razões culturais; a ela se juntou a financeirização. 

Tive a oportunidade de conhecer empresários nestes tempos que heroicamente se opuseram a fechar as portas; alguns sossobraram, outros sobreviveram. Dentre os que conheci, e que sobreviveram, não aceitavam desempregar sabendo que tal prática reverter-se-ia contra eles mesmos. Rendo aqui a minha sincera homenagem a estes. E dentre estes alguns o fizeram por puro sentimento, pois não tinham extensão de conhecimento para identificar o fenômeno econômnico destrutivo do desemprego. 

Por iutro lado também conheci economistas que defendiam uma "sadia" taxa de desemprego. Como não sou economista e tampouco acumulei saber para debater com estes defensores do desemprego em condições favoráveis, muitas vezes tive que me socorrer em Galbraith(1) que direcionava seu saber a questões mais sofisticadas relacionadas a educação e investimento, passando ao largo, muito ao largo, dessa questão esdrúxula. Chamo a atenção que nestes tempos Thomas Piketty ainda não havia produzido "O capital no século XXI". O tivesse já lido nem iria me dar ao trabalho do debate.

Mas, voltando a experiência pessoal durante estes anos difíceis, posso afirmar sem medo de errar que, aproveitando ao máximo para adquirir um pouco de cultura e leitura econômica, ainda que precária, pude identificar com mais precisão a simbiose, adrede mencionada, que gerou a nossa fragilidade econômica, expondo a herança colonial refratária ao trabalho e a adesão a valores culturais exógenos. Nem o mestiço da "Casa grande e senzala", tampouco o homem cordial das "Raizes do Brasil"  nos deram a imunidade necessária para resistir aos ataques, as invectivas e aos consensos patrocinados alhures. Mas aos poucos estamos adquirindo a necessária resistência imunológica institucional contra os agentes "infecciosos"; externos e internos também. Sou otimista.

(1) - John Kenneth Galbraith: "O Novo Estado Industrial"- Civilização Brasileira- 1970


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O estrago foi grande mesmo.

 Fiquei refletindo sobre a reunião da CELAC, sobre a COP-30 e a nossa evolução (tenho que utilizar este termo, não há outro) econômica. O cenário latino-americano que foi construído desde os últimos quarenta anos deriva da criação do conhecido Consenso de Washinton, (termo criado pelo economista inglês John Willianson) que sugeria, e mesmo obrigava, medidas que nos levaram, todos os latinos que acreditaram ou foram induzidos pela sua ingenuidade, ignorância política e econômica ou conveniência, à uma situação cujo preço de correção hoje é quase impagável. Afora o fato de ter ajudado a potencializar, e mesmo construir, uma classe dominante absolutamente corrupta; praticamente em todos os países, não somente na América Latina.

Mas, se observarmos o que ocorreu na China no mesmo período, i.e. os últimos quarenta anos, veremos o que fez diferir o desenvolvimento foi a não adoção das medidas preconizadas por aquela Consenso. A motivação desta “não adoção” é discutível ideológica e politicamente. Vejamos o quadro abaixo que representa o PIB neste período.

Gostaria de comentar as ditas medidas sugeridas pelo Consenso e as questões a estas inerentes:

. Disciplina Fiscal: Evitar grandes déficits fiscais. 

 . Provavelmente os EUA não cumpriram esta medida. Só serviu para outros.

. Redirecionamento dos gastos públicos: Priorizar gastos em áreas essenciais como educação primária, saúde primária e infraestrutura, em vez de subsídios indiscriminados. 

 - Nós brasileiros cumprimos esta medida, mormente no que concerne a educação?

. Reforma tributária: Ampliar a base tributária e adotar alíquotas marginais moderadas. 

 . A nossa demorou os quarenta naos e ainda parece tímida.

. Liberação das taxas de juro: Permitir que as taxas de juros sejam determinadas pelo mercado. 

 Só mesmo um ingênuo para aplicar esta medida...(desde que não seja um experto)

. Taxa de câmbio competitiva: Adotar uma taxa de câmbio competitiva e orientada pelo mercado para impulsionar exportações. 

. De produtos primários, deve ser.

. Liberação do comércio: Eliminar barreiras ao comércio, como restrições quantitativas à importação, substituindo tarifas por tarifas baixas e uniformes. 

-Parece que o Trump não concorda com esta medida. Nem mesmo um economista não entende o objetivo desta medida.

. Liberação do investimento estrangeiro direto: Remover barreiras para o investimento estrangeiro direto. 

-A China soube aplicar esta medida, mas acompanhada de outras bem mais sérias e inteligentes

. Privatização das empresas estatais: Transferir empresas estatais para o setor privado. 

- Aqui e alhures virou uma farra oportunista, até abastecimento de água e esgotamento sanitário foi privatizado. Mas as nações europeias já estão voltando atrás. Afinal, se não há possibilidade de livre concorrência qual a justificativa?

. Desregulamentação: Abolir regulamentações que impeçam a entrada no mercado ou restrinjam a concorrência, com exceção de regulamentações de segurança, ambientais e de proteção ao consumidor. 

- A medida anterior sugerida não a contradiz?

. Segurança jurídica sobre o direito de propriedade: Assegurar e proteger os direitos de propriedade. 

- A China entendeu bem o objetivo desta medida.

Hoje sentimos profundamente os efeitos das medidas adotadas e o mais intrinsecamente destrutivo foi a consequente desindustrialização. E como este efeito induziu: um Ensino privado decadente, o desemprego em massa, a precarização do trabalho  (ver a quantidade de jovens menores empregados pelo tráfico), a financeirização da economia e esta por sua vez oportunizando, através das altas taxas de juro, o aumento da corrupção.

Afora estas consequências descritas ainda temos que consertar os estragos na economia que a caterva extremista fez nos últimos anos no poder. E agora tenta desesperadamente retomá-lo. Oxalá não seja pelas urnas...já que as consideram inconfiáveis. Não há mais questões a debater com este extremo. O que lhes resta é a vulgarização da Segurança. Ou melhor, a letalização desta. O estrago foi grande mesmo.



sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Antes que a Terra nos dê um basta.

 Após rever posições de diversas origens sobre o triste episódio da “Invasão do alemão”. Tirando aquelas que politizaram, tal como o governador do Rio de Janeiro que ordenou e concebeu tal operação, só podemos entender que deveremos deixar tal assunto para aqueles que, profissionalmente têm esta responsabilidade; ...e que merecem confiança. A vida que segue…

O que queria mesmo é fazer justiça a Sra. Ursula Van de Leyne, (que tanto critiquei e critico) pela sua participação na COP30. Vemos que a posição europeia em relação a questão ecológica muito difere da posição americana. Fazer justiça significa se desculpar. Aliás temos ao longo da vida que agradecer e pedir desculpa sempre a todos, e a todas, que nos apoiaram e ajudaram e mesmo aos que nos criticaram ou atacaram. Só evoluímos assim. Evidentemente a Sra. Úrsula nem sabe que eu existo, mas eu sei, e deveria mesmo saber na minha idade, que para viver, e sobreviver, temos que cuidar da própria evolução.

Voltando a questão ecológica, resolvi transcrever os resultados das pesquisas feitas na internet na busca pela aplicação de tecnologia bioquímica aplicada ao tratamento dos resíduos plásticos. Junte-se a esta a lista do que anteriormente publiquei e mencionei na postagem anterior1.

1. A Revolução das Enzimas: PETases : O foco está em enzimas que quebram o PET (polietileno   tereftalato), comum em garrafas e embalagens.

Descoberta e Engenharia de Enzimas Mais Eficientes:

FAST-PETase (2022): Pesquisadores da Universidade do Texas desenvolveram uma enzima PETase (chamada FAST-PETase) que é extremamente eficiente e funciona a temperaturas mais baixas (inferiores a 50°C). A grande notícia é que ela é capaz de despolimerizar o plástico em 24 horas, um tempo recorde. A aplicação urbana seria em reatores enzimáticos para decompor resíduos plásticos coletados seletivamente.

PETases Hibridadas: Pesquisadores combinam PETases com outras enzimas, como MHETases, para criar "superenzimas" que quebram o PET de forma mais completa e rápida. Isso aumenta a eficiência do processo, tornando-o mais viável economicamente.

Foco na Aplicação Prática e Economia Circular: A pesquisa agora não é só sobre quebrar o plástico, mas em reciclá-lo de forma infinita (upcycling). As enzimas desmontam o plástico em seus "tijolos" de construção (monômeros), que podem ser purificados e usados para produzir novo plástico de qualidade virgem. Isso fecha o ciclo e é superior à reciclagem mecânica tradicional, que degrada a qualidade do material. 

Empresas startups como a Carbios (França) estão na vanguarda Elas já inauguraram uma planta-piloto e têm parcerias com grandes corporações (como L'Oréal e Nestlé) para demonstrar a viabilidade do processo em escala industrial.

2. Expansão para Outros Tipos de Plástico

Enquanto as PETases roubam a cena, há avanços importantes com outros plásticos problemáticos:  

Poliuretanos (PU): Enzimas e microrganismos (como a bactória Pseudomonas sp.) estão sendo identificados e otimizados para degradar poliuretanos, usados em espumas, sapatos e isolantes. Este plástico é particularmente difícil de reciclar por outros métodos. 
Poliestireno (PS) e Poliolefinas (PE, PP): Estes são os maiores desafios, por serem muito estáveis. No entanto, há relatos de fungos e bactérias (ex.: Aspergillus tubingensis) e de enzimas específicas que começam a mostrar capacidade de degradar ou modificar essas moléculas, embora em ritmo mais lento.

3. Microrganismos "Come-plástico" e Consórcios Microbianos

Além de enzimas isoladas, pesquisas com microrganismos inteiros continuam avançando:

Biorreatores para Lixo Urbano: A ideia é desenvolver biorreatores específicos onde resíduos plásticos mistos, coletados de áreas urbanas, sejam "alimentados" com consórcios de bactérias e fungos selecionados. Esses microrganismos trabalham em sinergia para colonizar e degradar diferentes tipos de plástico simultaneamente.
Vermicompostagem Avançada: Estudos exploram o uso de minhocas em conjunto com microrganismos específicos que pré-digerem o plástico. O sistema de digestão das minhocas acelera a fragmentação e expõe o material a uma comunidade microbiana diversa que pode biodegradá-lo.


4. Aplicações Práticas em Ambientes Urbanos

    Como essas inovações podem ser aplicadas nas cidades?

Centros de Triagem e Reciclagem de Alta Tecnologia: Instalações de reciclagem municipais poderiam incorporar reatores enzimáticos para processar plásticos de difícil reciclagem (como embalagens multicamadas ou PET contaminado), transformando-os em matéria-prima valiosa, em vez de enviá-los para aterro ou incineração.

Biorremediação de Aterros Sanitários: Inocular aterros com consórcios microbianos especializados para acelerar a degradação de plásticos que já estão descartados, reduzindo seu tempo de permanência no ambiente de séculos para décadas.

Tratamento de Resíduos Orgânicos Contaminados: Compostagens urbanas frequentemente lidam com plásticos que contaminam o lixo orgânico. O uso de microrganismos que atacam ambos os materiais poderia melhorar a eficiência do processo e a qualidade do composto final.


5. Desafio e Perspectiva Futura

Escala e Custo: O maior desafio é tornar os processos bioquímicos rápidos e baratos o suficiente para competir com a produção de plástico novo. 

Mistura de Plásticos: Resíduos urbanos são uma mistura complexa. Separar e tratar cada tipo de plástico com uma enzima específica ainda é um entrave logístico e econômico. 

Condições Ambientais: A maioria das enzimas de alto desempenho requer condições controladas (temperatura, pH). Desenvolver variedades que funcionem em condições ambientes é um objetivo crucial que está sendo perseguido pelos nossos cientistas.

Neste momento que hospedamos a COP30 toda ênfase tem que ser dada ao tema: Ecologia não é mais luxo, requer a atenção de todos, antes que a Terra nos dê um basta.

1 2025 : Lixo e Luxo” – 01/04, “Tem é que querer”- 02/04, “Quem sabe?” -04/04, “Degradação dos Plásticos” -14/04, “Shejin ou Sísifo”-18/04, Já é uma questão de sobrevivência mesmo” – 23/04, “Tem macuco no embornal”- 30/04 e “Responsabilidade” de 14/10.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Qualidade de vida. Para todos.

 Já tive a oportunidade de expor opinião sobre a sofrível operação policial no Rio de Janeiro, quando perdeu oportunidade de combater efetivamente o crime organizado. Prenderam e mataram a última camada das organizações criminosas favorecendo-a na reciclagem da mão-de-obra barata e poupando custos de manutenção. Nada mais tenho a acrescentar pois observo que opinião daqueles que antes louvaram a carnificina, já cansados de serem ameaçados pela bandidagem, também já refletem mais lucidez e percebem a influência da contaminação da máquina policial.

Hoje quero comentar a questão ecológica aproveitando o momento da COP30 como tendo aqui já alertado sobre as questões fundamentais: tratamento e reaproveitamento do resíduo urbano, esgotamento sanitário, conversão bioquímica de plásticos e produção de plásticos biodegradáveis a partir de sobras industriais e da agricultura, (Ver todos de 2025 : Lixo e Luxo” – 01/04, “Tem é que querer”- 02/04, “Quem sabe?” -04/04, “Degradação dos Plásticos” -14/04, “Shejin ou Sísifo”-18/04, “Já é uma questão de sobrevivência mesmo” – 23/04, “Tem macuco no embornal”- 30/04 e “Responsabilidade” de 14/10)

O que move esta postagem é expressar a necessidade de “educação ecológica”. Esta afirmação se deve a constatação que a base da evolução ecológica requer uma extensa conscientização da presente geração para que possam cobrar das anteriores ações concretas. Dou como exemplo a manutenção das árvores urbanas. Experimentei recentemente no condomínio onde moro, outrora bem arborizado, um descaso com a herança da cobertura vegetal, fator de valorização dos imóveis dentro deste condomínio. O abate pela municipalidade (administração municipal) de espécimes arbóreos, alguns até raros, nas redondezas é o caso do absoluto descompromisso com o meio ambiente. Estacionamentos são criados com abate de árvores para dar lugar ao conforto de poucos; já que o transporte público em extensão e de qualidade não é prioridade. Não dá voto...simples.

Espero que tais temas sejam objeto de discussão e análise nesta COP30...apesar de estarem sendo obliterados pelos da segurança pública. A qualidade de vida implica a diligência e ação em ambos os temas.

Esperamos que a qualidade de vida se aplique também a vidas dos trabalhadores.

sábado, 1 de novembro de 2025

Assim sempre o fizeram

  “Onde o poder público descuidou da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue.”

Eugênio Bucci, O Estado de SP, 30/10/2025

Cito Eugênio Bucci , como vários já fizeram, para referenciar a matilha treinada pelo império que, sem o menor pudor, já que não o conhece, executa centenas de conterrâneos na ânsia de agradar o seu tutor. Orgulhosa de seu feito vai jogar as presas aos pés de quem lhe adestra e alimenta. É esta a justa metáfora e hipérbole que mal representa a triste realidade do segmento social acostumado à fartura e à cínica denominação de “elite”.

Embora a aludida “elite” exista desde antes da Lei Áurea, e mesmo depois dela sobrevivendo, ainda assim colaborava com a produção industrial e, juntamente as suas companheiras cartoriais e as financiais, aproveitava o resultado, ainda que pequeno em termos mundiais, do trabalho, este também ainda que pequeno em termos salariais.

Até os anos 80 do século passado tínhamos a produção industrial em torno de 40% do PIB, hoje mal chegamos a 13%. Isto indica que os empregos, ainda que mal remunerados, disputavam, mesmo com dificuldade, com a ocupação na rede do tráfico de drogas...em todas as capitais brasileiras.

O que a aludida “elite” fez ao final da década de 80 apoiando impudens o Consenso de Washington? Jogou a água do banho e a criança juntos fora. Absolutamente despreparada e sem referencial político, (patriotismo já seria um exagero) abraçou as medidas do FMI, que proclamava a salvação econômica dos povos da América Latina, promovendo a desindustrialização a toque de caixa. Elegeu um “Caçador de Marajás”, estimulado este por aquela anafórica elite.

Se as mais de cem vidas ora perdidas estivessem antes se dedicando ao emprego melhor remunerado, que ora lhes falta devido à incompetência herdada do insucesso escolar, ao despreparo, a ausência do mínimo capital social, diria Bourdeu 1, a brutal realidade seria diferente. Se…

Se esta anafórica elite não estivesse oferecendo tais vidas no altar dos sacrifícios do império, renomeando o tráfico de drogas de “narcoterrorismo” a fim de justificar a tentativa de assalto as riquezas latino-americanas, não haveria também a tentativa de interromper o processo de neo-reindustrialização e do pleno-emprego que, com todas as dificuldades criadas pelo sabujo Parlamento, agora se busca com o auxílio dos BRICS.

Este é o cenário onde as vidas de invisíveis pouco contam: a tentativa de interromper um processo de desenvolvimento social e manter a dependência aos tutores.

A matilha adestrada colocou as presas aos pés de seu tutor. Assim sempre o fizeram.

1“A distinção, crítica social do julgamento”, Pag. 112 – Pierre Bourdie – Editora Zouk, 2011   

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Parece que nada mudou

 O pouco que aprendi de Inteligência e Contrainteligência no convívio com a Segurança do Estado do Rio de Janeiro, francamente me autoriza dizer que este último episódio da invasão dos Complexos da Penha e do Alemão, podem se caracterizar de tudo, menos de Inteligência, no sentido pleno da palavra. No contexto de Inteligência policial pode-se dizer que deixando um dos chefes do tráfico escapar, o Doca, foi inócua a operação, serviu para produzir mais de uma centena de mortes e...manchetes contra. Tivesse sido efetuado um planejamento minucioso e profissional tal não ocorreria, já que no passado, com muito menos espalhafato, prendeu-se, em uma única operação, o Beira-Mar e outros de extrema periculosidade.

Custo a crer que o objetivo de tal operação não tenha sido meramente político; e do ponto de vista político também um espalhafatoso desastre.

Faltou inteligência em todos os sentidos.

Aliás é o que tem caracterizado ultimamente o comportamento dos assumidamente seguidores da extrema-direita. Aqui e no mundo.

No mundo, tem se observado as medidas tarifárias do presidente dos EUA, as medidas estapafúrdias da Comunidade Europeia, que mergulhou a economia europeia na crise atual. Também pudera, escolheram duas mulheres absolutamente desfuncionais e despreparadas para tocar a geopolítica europeia, as senhoras Van der Leyne e a desastrada estoniana Kaja Kallas. As duas, juntamente com o Chanceler Olaf Scholtz, conseguiram em pouco tempo desconstruir o que os europeus, principalmente os alemães desde Adenauer a Schröder, amealharam em economia, tecnologia e educação. Estes só não conseguiram mais por terem entregue a segurança na mão de terceiros. Logo de quem…

O sentimento hoje último dia outubro de 2025, da maior parte população do Rio de Janeiro (há ainda uma parte que continua babando qual doido raivoso), se assemelha aquele que choram as crianças palestinas assassinadas, embora pouco as vítimas tenham de semelhança. Mas morte é a morte, não deve agradar senão aos Himler, Goebels, Filintos Müller, Brilhante Ustras e toda sorte de sociopatas que alcançaram o poder recentemente, fardados ou não.

Há muito com que se preocupar; assuntos sérios e urgentes: desconcentração da renda, saúde e educação de qualidade para todos, reindustrialização (antes que todos tenham que aprender mandarim para ler manuais de instrução de eletrônicos), independência energética, tratamento de resíduos, eliminação de agrotóxicos… a lista é longa e urgente.

E nós ainda discutindo os mesmos problemas centenários...Pudera, trezentos e cinquenta anos de escravidão afetaram nossa alma e mesmo a massa cinzenta.  

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Ordem do dia

 Tenho buscado a atualização de conhecimento sobre a evolução dos “chips”, isto é, os circuitos integrados que no presente têm sua tecnologia de fabricação baseada em fotolitografia das camadas CMOS baseados em substratos de silício. Esta tecnologia teve nos últimos anos uma evolução que penso hoje esteja beirando os limites físicos (miniaturização e dissipação de calor) tanto quanto de complexidade. Trato aqui o limite de complexidade como inerente a própria lógica de funcionamento dos chips quanto a de produção. Tenho forte impressão que tal limite se relaciona mais ao custo que se impõe na utilização de água, tanto para resfriamento, quanto para purificação e limpeza. Em artigo recente no Brasil247, que aconselho a leitura, o pesquisador Reynaldo Aragon 1 aborda a questão da fabricação e dá ênfase aos aspectos geopolíticos da tecnologia dos chips.

O que posso agregar a este é a premência de se resolver o problema do consumo de água, tanto devido ao seu custo quanto ao limite de obtenção e da descontaminação do despejo industrial.

Evidentemente esta questão de natureza ecológica que afeta os processos de fabricação se avizinha as tecnologias urbanas de purificação da água e indiretamente ao tratamento dos efluentes, então contaminados por despejos industriais juntamente ao descarte dos RSU (Resíduos Sólidos Urbanos), já mencionados aqui em “Já é uma questão de sobrevivência mesmo” de 23 de abril último.2

Acredito que estas duas questões (independência tecnológica na fabricação de chips e a tentativa solução do problema do descarte do lixo urbano), deverão entrar na ordem do dia das políticas governamentais e terão que afluír aos debates parlamentares...no mundo todo. Já que a mais badalada questão financeira está sendo equacionada esperando que as nações do mundo inteiro deem partida urgente aos processos de distribuição de renda. Estes processos, mesmo sendo escamoteados pelo famigerado “mercado”, epíteto para a turma da agiotagem, desde quando, mais recentemente, Piketty3 dera o alarme.

O que se espera é que a temperatura do caldo geopolítico, que hora está em ebulição devido ao retorno de Trump com suas diatribes tarifárias, na desesperada tentativa de estancar o processo de esgotamento econômico, venha abaixar e viabilizar um novo tempo, seja de prosperidade com paz, seja de paz apenas, ainda que a prosperidade seja reservada, permitida apenas aos povos que lutam por ela. Sem luta, a prosperidade será sempre uma distante ilusão.

1https://www.brasil247.com/blog/a-geopolitica-dos-semicondutores-a-guerra-dos-chips

2 https://www.blogger.com/blog/post/edit/7714812914870144096/9171058728865880645

3“O Capital no século XXI” – Thomas Piketty -Editora Intrínseca – 2014;